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Capítulo 4 — O Homem nas Sombras

Selena não contou a ninguém sobre a visão.

Nem sobre a Deusa.

Nem sobre as imagens que ainda queimavam em sua memória.

Durante todo o caminho de volta para a mansão, ela tentou convencer a si mesma de que tudo havia sido um sonho.

Uma ilusão causada pelo sofrimento.

Pela traição.

Pela dor.

Mas, no fundo, sabia que era mentira.

Aquilo tinha sido real.

Real demais.

Ela ainda conseguia sentir a presença da Deusa da Lua.

Ainda conseguia ouvir sua voz.

Ainda conseguia enxergar os olhos frios de Kael enquanto concordava que ela era inútil para os planos da alcateia.

Cada lembrança era uma nova ferida.

Quando entrou na mansão, o céu começava a clarear.

Os corredores estavam silenciosos.

As criadas ainda dormiam.

Os guardas faziam a troca de turno.

Tudo parecia normal.

Mas Selena já não conseguia olhar para aquele lugar da mesma forma.

Aquela casa guardava mentiras.

Traições.

Segredos.

Ela caminhou até o quarto de Aiden.

O menino dormia profundamente.

Abraçado ao seu lobo de pelúcia.

As cobertas haviam escorregado durante a noite.

Selena as ajeitou.

Depois sentou-se ao lado dele.

Observando seu rosto.

Seu pequeno lobo.

Seu filho.

Seu mundo inteiro.

As palavras de Magnus voltaram imediatamente.

"Sem a mãe, ele será mais fácil de controlar."

Um tremor percorreu seu corpo.

Ela não sabia exatamente o que aquilo significava.

Mas sabia que era perigoso.

Muito perigoso.

Ninguém tocaria em Aiden.

Ninguém.

Nem mesmo Kael.

A porta se abriu lentamente.

Selena levantou a cabeça.

Era Kael.

Ele parou ao vê-la.

Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.

O silêncio entre eles parecia cada vez maior.

Mais pesado.

Mais frio.

— Você não dormiu.

A voz dele estava neutra.

Distante.

Como se estivessem falando sobre o clima.

Selena levantou-se.

— E você?

Os olhos dele vacilaram por uma fração de segundo.

Mas logo voltaram a ficar inexpressivos.

— Eu tinha trabalho.

Mentira.

Ela sabia.

Agora sabia.

A Deusa havia mostrado.

Mesmo assim, ouvi-lo mentir doía.

— Claro.

Kael observou seu rosto.

As olheiras.

Os olhos vermelhos.

As marcas do choro.

Algo parecido com culpa passou rapidamente por sua expressão.

Mas desapareceu antes que ela pudesse ter certeza.

— Selena...

— Não.

Ela o interrompeu.

Não tinha forças para ouvir desculpas vazias.

— Eu não quero discutir.

Kael franziu a testa.

— Então pare de agir como se eu fosse seu inimigo.

Aquilo quase a fez rir.

Seu inimigo?

Ela havia visto as reuniões.

As conspirações.

As mentiras.

Mas não podia contar.

Ainda não.

— Talvez você devesse parar de me tratar como um problema.

Os maxilares dele se contraíram.

— Você está exagerando.

Exagerando.

A palavra atingiu seu peito.

Porque era exatamente isso que homens culpados costumavam dizer.

Ele a fazia questionar a própria dor.

Como se ela estivesse errada.

Como se estivesse imaginando coisas.

Como se não tivesse sentido o vínculo rasgar sua alma.

Aiden se mexeu na cama.

Os dois imediatamente ficaram em silêncio.

O menino abriu os olhos devagar.

— Papai!

Kael sorriu.

Um sorriso verdadeiro.

Talvez o único que ainda conseguia dar.

Aiden pulou da cama.

— Você vai treinar comigo hoje?

— Se terminar suas aulas.

— Eu vou terminar!

Kael bagunçou os cabelos dele.

E Selena sentiu o coração apertar novamente.

Porque aquela versão dele existia.

O pai amoroso.

O homem gentil.

Ela não conseguia entender como o mesmo homem podia destruir sua família ao mesmo tempo.

Naquela tarde, Selena decidiu caminhar pela vila da alcateia.

Precisava respirar.

Precisava pensar.

As visões da Deusa continuavam voltando sem aviso.

Fragmentos.

Pequenos flashes.

Momentos rápidos.

Quando passava por alguém, às vezes enxergava cenas estranhas.

Um beta discutindo com a esposa.

Uma loba chorando.

Uma criança perdida.

Era como se seus sentidos estivessem mudando.

Como se algo dentro dela estivesse despertando.

E aquilo a assustava.

Enquanto caminhava pela praça central, ouviu cochichos.

Olhares.

Comentários.

— É ela.

— A companheira do Alfa.

— Por enquanto.

— Ouvi dizer que ele vai se unir à filha do conselheiro.

Selena continuou andando.

Fingindo que não escutava.

Mas cada palavra era uma facada.

Porque os rumores já estavam se espalhando.

E ninguém parecia achar aquilo absurdo.

Ninguém parecia se importar que ela fosse a Luna legítima.

Que fosse a mãe do herdeiro.

Que fosse a mulher marcada pelo Alfa.

Tudo o que importava era poder.

Ela estava prestes a deixar a praça quando algo chamou sua atenção.

Um homem.

Alto.

Vestido com roupas escuras.

Parado próximo ao mercado.

Observando-a.

Selena franziu a testa.

Nunca o tinha visto antes.

Ele não parecia pertencer à alcateia.

Seu porte era diferente.

Sua postura era diferente.

Os olhos dourados encontraram os dela.

E algo estranho aconteceu.

Uma sensação percorreu seu corpo.

Um arrepio.

Como se uma energia antiga tivesse despertado.

O homem desviou o olhar imediatamente.

E desapareceu entre as pessoas.

Selena ficou imóvel.

Seu coração acelerou.

Quem era ele?

E por que sua loba havia reagido daquela forma?

Naquela mesma noite, a lua voltou a chamá-la.

Ela tentou resistir.

Tentou ignorar.

Mas a atração era forte demais.

Então retornou ao lago.

O mesmo lago.

O mesmo local.

A água já brilhava quando ela chegou.

Como se estivesse esperando por ela.

— Deusa?

Silêncio.

Então a superfície começou a se mover.

Uma nova visão surgiu.

Selena preparou-se para outra traição.

Outra mentira.

Outra facada.

Mas desta vez foi diferente.

Ela viu uma floresta desconhecida.

Montanhas cobertas de neve.

Um enorme castelo negro.

Bandeiras que nunca tinha visto.

Guerreiros.

Centenas deles.

Todos ajoelhados.

Diante de um homem.

O mesmo homem que ela encontrara na praça.

O estranho.

Ele estava sentado em um trono.

Os cabelos escuros caíam sobre os ombros.

Os olhos dourados pareciam lâminas.

Uma coroa de prata adornava sua cabeça.

O coração de Selena disparou.

Quem era ele?

Então a voz da Deusa surgiu.

— O destino está se movendo.

— Quem é esse homem?

A água brilhou.

A imagem ficou mais nítida.

— Alguém que procura o que foi perdido.

Selena franziu a testa.

— Eu não entendo.

— Ainda não.

A resposta foi a mesma de antes.

Misteriosa.

Frustrante.

— Por que ele estava na minha alcateia?

Nenhuma resposta veio.

Em vez disso, a visão mudou novamente.

Agora mostrava Kael.

Magnus.

Violeta.

Os três reunidos.

— A Assembleia acontecerá em três luas.

— Tudo está preparado.

— E Selena?

Violeta sorriu.

Um sorriso venenoso.

— Ela nunca verá o golpe chegando.

O sangue de Selena gelou.

Então Kael falou.

— Certifiquem-se de que ela não descubra nada.

A visão desapareceu.

As lágrimas voltaram aos olhos dela.

Porque não importava quantas vezes visse.

A dor continuava a mesma.

Kael não estava sendo manipulado.

Não estava sendo enganado.

Ele fazia parte de tudo.

Ele sabia.

Ele concordava.

Ele escolhia aquilo.

Todos os dias.

Todas as noites.

A Deusa permaneceu em silêncio por alguns segundos.

Então perguntou:

— Ainda o ama?

Selena fechou os olhos.

A pergunta era cruel.

Porque a resposta também era.

— Sim.

Sua voz falhou.

— E isso é o que mais me machuca.

O vento soprou.

A lua iluminou o lago.

— O amor não desaparece quando alguém nos fere.

— Então por que dói tanto?

— Porque você ama alguém que já começou a abandonar você.

As lágrimas escorreram livremente.

— O que eu faço?

A voz da Deusa soou quase triste.

— Sobreviva.

Apenas sobreviva.

Porque a tempestade ainda nem começou.

O lago escureceu.

A presença desapareceu.

E Selena ficou sozinha novamente.

Mas algo havia mudado.

Ela não sabia quem era o estranho de olhos dourados.

Não sabia por que a Deusa o mostrava repetidamente.

Não sabia qual segredo estava escondido em seu passado.

Porém uma certeza começava a nascer.

Muito em breve, sua vida deixaria de girar ao redor de Kael Blackthorn.

E quando esse dia chegasse, todo o reino dos lobos seria obrigado a encarar verdades enterradas havia décadas.

Inclusive ela.

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