5- A ex-namorada

Mikhail Voronov

— Muito bem, obrigada — responde-me Anya, seus olhos com raiva contida.

Elena está fazendo muito bem o seu papel. Ela se vira para a mulher, colocando um sorriso no rosto ao mesmo tempo que se recosta mais em meu corpo.

A mão de Elena vem para a minha coxa num gesto de possessividade, como se quisesse dizer a Anya que pertenço a ela. Não sei se é parte de sua encenação ou não.

— Quem é essa... sua amiga? — questiona Anya, levando a taça de vinho branco aos lábios.

— Esta é minha namorada, Elena — apresento e minha ex quase não se contém.

— Isso explica a... os boatos que ouvi. Você costumava ser mais discreto, Mikhail — comenta, caminhando até o banco ornamentado à nossa frente.

Ela se senta calmamente, cruza as pernas e empina o nariz.

— Elena me deixa um pouco inconsequente — envolvo a cintura da mulher ao meu lado e puxo-a para mais perto. — Não é mesmo, meu amor? — inquiro e beijo seus cabelos escuros.

Ela sorri e escora sua cabeça em meu peito, quando a abraço. Seu braço vai direto para o meu pescoço, seus dedos me acariciam no rosto.

— Acredito que sim — diz quase que timidamente. Muito convincente para o papel que assumiu.

Anya não diz nada por alguns segundos, leva sua bebida à boca e finalmente fala.

— Como está Zara? — pergunta e volta seu olhar para a minha falsa namorada. — Ele te contou que temos uma filha?

Posso ver que Anya contém um sorriso, pois tem certeza de que colocará uma semente do mal em nosso suposto relacionamento.

— Sim, claro — responde Elena com empolgação. — Ela tem três anos, não é? Estou ansiosa para conhecê-la.

O sorriso amplo dela deixa a minha ex completamente sem jeito, o que me dá vontade de rir, mas me contenho.

— Vou levá-la hoje mesmo para conhecer minha filhinha. Você pode ficar tranquila, Anya, pois nossa filha tem duas babás e a governanta para cuidar dela na minha ausência.

Anya se move desconfortável no banco, bebe mais de sua bebida e eu não deixo passar a oportunidade.

— Você não me disse como tem passado desde o... o ocorrido — falo com um sorriso sarcástico. — Você está bem?

Aperto mais minha falsa namorada ao meu corpo, ela entende o que quero e se encaixa ainda mais em meu corpo.

— Se você quer saber se eu ando chorando pelos cantos, Mikhail... Não ando chorando o fim do nosso relacionamento.

Ela se levanta bruscamente, ajeitando os cabelos loiros.

— Não parece, querida — digo, deixando-a ainda mais irritada. — Não é isso que deixou transparecer quando ouviu os boatos e veio imediatamente conferir se era verdade.

A face da mulher ficou vermelha, a fúria tomou a sua face. Talvez por raiva de mim, ela lança o líquido restante da sua bebida sobre Elena.

Espantada, minha falsa namorada se levanta, erguendo as mãos.

— Você está louca?

Anya ri alucinadamente e antes que eu pudesse fazer alguma coisa, Elena acerta um tapa no rosto de Anya. Em seguida ela segura em seus cabelos e puxa sua face diretamente para seu joelho, acertando o nariz da loira em cheio. O som do osso quebrando, me desperta do transe e me vejo obrigado a fazer algo.

Eu não esperava por aquilo.

As pessoas ao redor já estão correndo e gritando, logo chegará alguém aqui.

— Vai deixar essa maluca me bater, Mikhail? — protesta Anya, quando seguro-a.

— Foi você que começou, eu deveria deixar — reclamo, puxando seu corpo para longe do golpe de Elena que se aproximava.

Confesso que ver a morena com sangue nos olhos, pronta para arrancar o couro da minha ex-namorada me deixou excitado.

Elena está ofegante, os cabelos desgrenhados. Mas Anya está pior, o nariz está sangrando e a bochecha está arranhada, com marcas de unha.

— Ainda defende essa vaca! — Anya grita.

— Não! — grito, calando-a, fazendo-a me olhar com seus grandes olhos azuis. — Só não quero baixaria em uma festa que seria uma reunião importante. É melhor sumir da minha frente.

Solto-a e empurro-a levemente para frente. Ela me olha sobre os ombros e se afasta. Volto meu olhar para Elena e deixo que ela pense que estou com raiva devido à briga.

Ela acabou de me dar o motivo perfeito para levá-la para minha casa.

— Vamos embora — anuncio e seguro na mão de Elena.

— Preciso passar no banheiro para...

— Não! — brado. — Todos viram a baixaria que fizeram, não precisa ir ao banheiro para esconder que participou de uma briga.

— Mas... e sua reunião? — questiona, enquanto arrasto-a pela mão através de corredor.

— Alexei vai me representar — respondo.

Ela se cala por alguns segundos.

— Foi ela que jogou a bebida em mim. Deveria estar com raiva dela! — protesta, puxando a mão do meu aperto, mas não a solto.

Alexei me vê e se aproxima de mim a passos largos.

— O que aconteceu? Estão todos comentando sobre uma briga... — Assim que seus olhos pousam sobre a minha falsa namorada, ele entende o que de fato aconteceu. — Vai me dizer que...

— Exatamente. As duas brigaram — afirmo e ele coloca a mão sobre o rosto, contendo uma risada. — Preciso que me represente nesta reunião.

— Estava indo te chamar, pois Arkady acabou de chegar e está chamando a todos para a sala de reuniões.

— Não vou poder participar da reunião e terei que antecipar o planejado — anuncio, e os olhos dele vão para Elena. Meu braço direito sabe do que estou falando. — Você e Roman podem falar por mim.

— Viktor o está aguardando — avisa ele, acenando para a minha falsa namorada.

— Vamos. — Puxo seu pulso com força.

— Olha aqui, Mikhail, eu não fui contratada para ser agredida por um falso namorado. Esse não foi o combinado! — protesta e tenta puxar a mão novamente. Continuo arrastando-a.

— É melhor controlar o que fala. Minha paciência já se esgotou há muito tempo, e eu não tenho muito autocontrole.

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