Narrado por Adrian
O despertador tocou exatamente às seis da manhã.
Abri os olhos devagar, encarando o teto branco do meu quarto por alguns segundos. O silêncio da casa era quase sufocante.
Mais um dia.
Suspirei e me levantei.
Fui direto para o banheiro, tomei um banho rápido e me preparei para o trabalho. Escolhi uma calça de alfaiataria preta, um cinto de couro preto, uma camisa social da mesma cor e um blazer elegante.
Pensei por um instante em colocar gravata.
Mas desisti.
O dia prometia ser longo demais para qualquer coisa apertando meu pescoço. Principalmente agora que eu estava sem assistente.
Desci para tomar café da manhã.
Como sempre, a mesa estava completamente cheia. Frutas, pães, sucos, café, ovos, panquecas.
Uma mesa digna de uma família grande.
Mas apenas uma pessoa sentava ali.
Eu.
Sentei-me em silêncio e comecei a comer.
A casa era enorme demais para uma pessoa só.
O eco do silêncio sempre me lembrava disso.
Quando terminei, fui até a garagem, entrei no meu carro e dirigi em direção à empresa.
Minha empresa.
Uma das mais prestigiadas de Nova York.
O Stone & Miller Group dominava o mercado de joias luxuosas e pedras preciosas. Diamantes raros, esmeraldas exclusivas, peças únicas.
Tudo perfeito.
Tudo impecável.
Tudo... vazio.
Estacionei no prédio da empresa e entrei.
— Bom dia, senhor Adrian — disseram as recepcionistas.
Assenti com a cabeça.
Peguei o elevador até o 30º andar.
A área presidencial.
Assim que entrei na minha sala, encontrei uma figura muito familiar parada em frente à minha mesa.
Braços cruzados.
Olhar irritado.
Minha irmã.
— O que foi dessa vez, Valentina? — perguntei enquanto caminhava até minha cadeira.
Ela bufou.
Valentina fazia faculdade de moda, mas trabalhava ali como recepcionista na área presidencial.
Não porque precisava.
Nossa família tinha dinheiro mais do que suficiente.
Mas minha mãe e eu concordávamos em uma coisa: Valentina precisava aprender que dinheiro exige esforço.
Não queríamos que ela virasse mais uma herdeira mimada que nunca trabalhou um dia na vida.
— Quando você vai contratar uma assistente? — reclamou ela. — Eu não consigo cuidar da sua agenda e ainda lidar com todo mundo da área presidencial!
Não pude evitar um pequeno sorriso.
— Eu vou resolver isso hoje.
Sentei-me na cadeira e liguei o computador.
— É bom mesmo — respondeu ela.
Valentina se aproximou e me deu um beijo rápido no rosto.
— Porque eu estou quase pedindo demissão.
— Você não faria isso.
— Não duvide.
Ela saiu da sala e eu comecei a trabalhar.
[...]
Quando olhei novamente para o relógio, já eram 19:00.
Eu nem sequer tinha saído para almoçar.
Passei o dia inteiro resolvendo contratos, assinando documentos e respondendo e-mails.
A verdade era simples.
Eu realmente precisava de uma assistente.
Peguei o telefone e liguei para Melissa, uma das recepcionistas da área presidencial.
— Melissa.
— Sim, senhor Adrian?
— Veja os currículos que chegaram hoje e me envie as melhores candidatas para assistente.
— Claro, senhor.
Desliguei.
Alguns minutos depois, meu e-mail apitou.
Cinco currículos.
Li cada um deles com atenção.
Três realmente me chamaram a atenção.
Peguei o telefone novamente.
— Melissa, ligue para essas três mulheres — falei. — Marque entrevistas para amanhã e envie também as regras da empresa.
— Sim, senhor.
Desliguei.
Voltei ao trabalho.
Quase duas horas depois, meu telefone tocou novamente.
Era Melissa.
— Senhor Adrian, consegui falar apenas com duas candidatas.
— Quais?
— Elena Carter e Olivia Bennett.
Ela fez uma pequena pausa antes de continuar.
— A entrevista da senhorita Bennett ficou marcada para as 07:00 da manhã. E a da senhorita Carter para as 09:00.
Fiquei alguns segundos em silêncio.
Não sabia por quê, mas o nome Elena Carter ficou ecoando na minha mente.
— Está bem — respondi finalmente. — Obrigado, Melissa. Você pode ir embora agora.
— Boa noite, senhor.
Desliguei o telefone.
Levantei-me, peguei minhas coisas e fui para o estacionamento.
Dirigi de volta para casa.
Quando entrei, tudo estava exatamente como sempre.
Frio.
Quieto.
Escuro.
Sem ninguém.
Na verdade, aquela casa nunca foi cheia.
Eu me mudei para lá há alguns anos.
Depois que Clara se foi.
Desde então, os dias pareciam todos iguais.
Trabalho.
Casa.
Casa.
Trabalho.
Subi as escadas lentamente até meu quarto.
Tomei um banho quente, troquei de roupa e me deitei na cama.
Olhei para o teto.
Às vezes me pergunto se minha vida ainda pode mudar.
Se algum dia tudo voltará a ter cor.
Faz muito tempo que eu não sorrio de verdade.
Faz anos que não sinto alegria.
Minha vida ficou cinza no dia em que o coração dela parou de bater.
Clara levou minha felicidade junto com ela.
Fechei os olhos.
Afastei esses pensamentos da minha mente.
Amanhã seria mais um dia de trabalho.
Mais uma rotina vazia.
Sem saber…
Que aquela entrevista às 09:00 da manhã estava prestes a mudar tudo.