Capítulo 56

MILENA CHRISTIAN

A caixa à minha esquerda tinha etiqueta azul.

“Roupas de cama”, lia-se na caligrafia que eu caprichara para que ficasse legível no papelão, como se organizar a própria vida em categorias cromáticas desse a ilusão de controle sobre qualquer coisa. A caixa à direita, etiqueta verde, dizia “Livros de cozinha”. Atrás de mim, empilhadas contra a parede onde a cabeceira costumava encostar antes de eu desmontá-la, havia outras sete caixas com roupas de banho, sapatos, documentos, objetos de inverno, objetos de verão e outras coisas que não sei onde colocar.

Já o colchão estava nu, eu não coloquei os lençóis porque, sinceramente, qual era o sentido? Dentro de dois dias, a cama inteira seria desmontada e levada para algum lugar — primeiro para o apartamento de Edward, depois para a casa que ainda estava em obras, depois para quem sabia onde. Trocar lençóis agora parecia um esforço tão fútil quanto pentear os cabelos antes de entrar numa piscina.

Suspirei, apertando o telefone na mão.

Já fazia vinte minutos.

Vinte minutos sentada na borda do colchão desnudo, os pés descalços tocando o piso frio do quarto, o olhar perdido nas caixas que transformavam o que havia sido meu refúgio por três anos depois do meu divórcio. Eu estava literalmente a vinte minutos com o dedo pairando sobre o nome do meu pai na lista de contatos, ensaiando frases que morriam na ponta da língua antes de serem ditas.

“Pai, vou casar.”

Não!

“Pai, tenho uma novidade.”

Pior.

“Pai, lembra daquele homem que eu havia dito que estava grávida dele a menos de dois meses atrás? Então…”

Definitivamente não!

Joguei o telefone ao lado do travesseiro — o único “item” que ainda restava na cama, como se ironicamente eu precisasse de um lembrete de que, apesar de toda a bagunça, eu ainda dormia ali — e enterrei o rosto nas mãos.

O problema não era o casamento em si.

Bem, o problema era exatamente o casamento em si, mas não da forma que alguém poderia imaginar. Meu pai não era um monstro, sempre foi o típico e cliché pai meio carrancudo, mas que muito protetor e carinhoso; do tipo que guardava as preocupações para si e as transformava em silêncios pesados se estivesse chateado, em olhares que diziam mais do que palavras, em perguntas aparentemente inocentes que, na verdade, eram armadilhas retóricas das quais não se saía vitorioso.

E eu ia ligar para ele, do nada, para dizer que ia me casar em duas semanas.

Com um homem que ele mal conhecia.

Com um homem que, tecnicamente, eu também mal conhecia, embora estivesse carregando um contrato que poderia me fazer ir à cadeia, mas que assinei de livre e espontânea vontade.

Suspirei novamente e deslizei a mão sobre a barriga. O vestido do dia inauguração havia sido trocado por um moletom velho e macio, o meu belo e maravilhoso moletom que guardo há anos porque nenhum outro abraça o meu corpo do mesmo jeito. A seda e o scarpin haviam ficado para trás com o salão iluminado e os olhares de espanto. Agora, no silêncio do meu quarto desmontado, não havia plateia, não havia Edward para me confundir e eu justificar que as péssimas decisões que tomo desde o dia em que aconteceu o jantar na casa da Ruby, fora por causa dele.

Havia apenas eu, o telefone, e a tarefa iminente de informar ao meu pai que a filha dele, aquela que sempre fora tão certinha, tão previsível, tão cuidadosa, estava prestes a fazer DE NOVO a coisa mais idiota da vida dela.

Respirei fundo.

Respirei fundo.

Peguei o telefone, desbloqueei a tela, e antes que o cérebro pudesse inventar outra desculpa, toquei no nome.

Ele atendeu na segunda chamada.

— Oi, filha. Pensava agora mesmo em você — A voz do meu pai sempre teve essa qualidade de soar como se ele estivesse a resolver um problema enquanto falava, como se a conversa fosse apenas uma das várias tarefas que ele geria simultaneamente. 

Achava engraçado toda a vez que fosse falar com ele.

— Oi, pai — a minha voz saiu mais fraca do que eu queria. Limpei a garganta, endireitei os ombros mesmo sabendo que ele não podia me ver. — Tudo bem por aí?

— Tudo bem. — fez uma pausa, e eu ouvi o barulho de fundo da televisão desligando. Ele sempre desligava a televisão quando queria prestar atenção em alguma coisa. — Estava vendo um documentário, nada de mais. Parece nervosa, aconteceu alguma coisa?

— Aconteceu, sim. Mas não é nada ruim, quer dizer, não é ruim. É... é apenas uma notícia.

— Você está bem? O bebê está bem? Me conte, Mila!

— Estou, pai, estou bem. Só… — Hesitei. A frase ensaiada sumiu da cabeça como água entre os dedos — olha, vou só dizer, porque se eu ficar a enrolar, vou perder a coragem.

— Perder a coragem? — Ele pareceu genuinamente confuso. — Para falar comigo? Desde quando você precisa de coragem para falar comigo?

Desde que comecei a tomar decisões que o senhor não aprovaria, pensei, mas não disse.

— Pai, eu vou me casar daqui alguns dias.

Silêncio.

Não foi um silêncio curto, daqueles que precedem uma reação imediata. Foi um silêncio longo, pesado, daqueles que se alongam por vários segundos enquanto o outro lado processa uma informação que não se encaixa em nenhuma das categorias esperadas.

— Casar — repetiu ele, finalmente. A voz não tinha entonação, basicamente uma afirmação, não uma pergunta, como se ele estivesse a testar a palavra na língua, vendo se ela fazia sentido.

— Sim.

— Mas casar com quem? Que eu não estou a perceber direito isso.

— Com o Edward.

— Edward quem?

— Edward Portman, o pai do meu filho.

Outro silêncio.

Desta vez, eu podia quase ouvir os mecanismos funcionando na cabeça dele. Edward Portman, claramente o nome não era familiar porque eu não havia feito menção do seu nome, mas mesmo assim ele estava vasculhando a memória, tentando encontrar algum registro, alguma menção, alguma ocasião em que eu pudesse ter falado sobre esse homem.

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