Capítulo 02

MILENA CHRISTIAN

Mal cruzamos a soleira, ele me puxou com urgência. A boca encontrou a minha num beijo impaciente, e antes que eu perdesse o fôlego, afastei-me, ofegante, desnorteada.

— Pode me explicar o que raios está se passando com você? — Ele perguntou de forma tensa, desesperada. Segurou o meu pulso, forçando a nossa proximidade outra vez. O calor do corpo dele contrastava com o frio que eu sentia por dentro. — Estou preocupado, Milena.

Soltei-me. Era a segunda vez em minutos, e mesmo assim não parecia suficiente. Estendi o envelope na sua direção. O gesto foi simples, mas carregado de tudo o que eu ainda não sabia como dizer.

Ele pegou o envelope confuso e desdobrou o documento com o cuidado de quem lida com algo frágil. Leu devagar, sem alterar a expressão. Como sempre, Enrique era mestre em esconder as rachaduras.

— Mila, eu... — começou, arranhando a garganta antes de continuar. — Eu nem sei o que dizer, para ser sincero.

Foi a partir daí que comecei, repentinamente, a me desesperar, aproximei-me, tentando tocá-lo, um gesto, só isso, mas ele recuou como se o meu toque queimasse a sua pele.

— Amo a minha esposa, Milena — disse com firmeza e entregou-me o papel de volta. — E nós temos uma família feliz. Eu não posso assumir essa gravidez. Eu... eu lamento.

A dor não foi nova, mas ainda assim foi profunda, como todas as dores que se repetem sem trégua.

Amo a minha esposa.

A frase ecoou como uma sentença, como um selo a ferro quente. Era aquilo que ele tinha a oferecer-me, e era isso que aparentemente eu me considerava digna de receber: uma segunda rejeição.

— Enrique, eu não fiz esse filho sozinha — afirmei, a voz embargada, e a minha mão começando a tremer.

— Eu sei! Eu sei, maldição! — gritou, como se a minha verdade o ferisse. Virei as costas, o peso da discussão me esmagando as vértebras. — Milena, um dia você vai ter que me perdoar — disse com exasperação. — Vai ter que entender a minha posição, eu amo-te, mas tenho uma reputação, uma família já feita, você sabe disso.

Fiquei ali, estática, observando através da janela algumas árvores caducas que deixavam cair folhas douradas como quem se despede com elegância. Outras resistiam, ainda plenas. As estações têm os seus próprios ritmos. O nosso, aparentemente, acabou.

— Por favor, vá embora — murmurei, num tom que não era raiva nem desespero, apenas... fim. — E de preferência, não volte nunca mais.

Ele não respondeu. O silêncio durou o tempo exato entre a minha palavra e o som da porta se fechando atrás de si.

E eu permaneci ali. Sozinha.

Você disse que sempre me protegeria, mas esqueceu de me proteger de si mesmo, Enrique.

◆◆◆◆◆◆◆

A minha mãe morreu muito cedo e desde então o meu pai não colocou nenhuma outra mulher na nossa vida, ao menos, não a ponto de gerar outro filho que pudesse fazer-me companhia. E eu tive uma boa infância, não posso negar, mas sempre sonhei em ter uma família grande, e isso estendeu-se para o meu casamento mais tarde, sempre desejando ter filhos de Enrique.

No entanto, essa felicidade foi rapidamente ofuscada, já que ele preferia e pedia para que eu focasse primeiro na minha carreira e ele na dele.

Agora, meu ex-marido, aquele com quem compartilhei os dias mais felizes e os meus segredos mais íntimos, nega a paternidade do nosso filho. As suas palavras atingiram o meu coração e quebrando-o mais do que nos anos anteriores. Como pode alguém que um dia jurou amor eterno alegar que este ser dentro de mim não pode ter nenhuma ligação com ele?

Humilhante, tudo isso é humilhante.

Sinto-me perdida, abandonada e vulnerável, afinal, quem sou eu agora? Uma amante, uma mulher grávida, mãe solteira e ainda sem o apoio do homem que uma vez foi seu porto seguro.

É nesses momentos que outras pessoas procuram encontrar refúgio nos braços da sua família, porém, para piorar a minha humilhação, ninguém sabe que eu me derretia nos braços de Enrique, vez e outra depois do nosso divórcio, mesmo depois dele ter casado-se e dessa relação ter gerado um fruto amado por toda a sua família.

Ai meu Deus, o que porra fiz comigo?

O meu pai, como ele vai reagir a isso? É a sua decepção que estilhaçará o meu coração mais do que ele está agora. Merda, Elisabeth vai despedir-me, tenho certeza absoluta.

Eu sei que Elisabeth me adora, ela nunca demonstrou o oposto, mas conhecendo-a como a conheço, sei que fará de tudo para que o casamento do seu amado filho não ruine, não por minha causa.

Chamei o táxi sem pensar duas vezes.

Nem respirei fundo. Nem hesitei.

Só... fiz.

O telefone ainda tremia na palma da mão quando apertei "confirmar corrida" e, minutos depois, o carro branco parou em frente ao prédio com as luzes de emergência piscando como olhos indecisos.

O motorista não disse nada. Graças a Deus.

Vestia uma jaqueta preta desbotada, tinha os cabelos grisalhos e a barba por fazer. Um homem de rosto cansado, que parecia ter visto muita coisa — e mesmo assim não esperava saber nada de mim.

Entrei no carro como se não estivesse indo a lugar algum. Ou melhor, como se qualquer lugar longe o suficiente de Enrique já fosse suficiente.

— Para onde? — perguntou.

— Rua nove, número cento e dezoito. Whitestone... Wellness Clinic. — A pausa foi involuntária, como se o nome arranhasse a garganta ao sair. — Por favor.

A chuva ainda não havia começado, mas o céu já escurecia com uma rapidez desesperada. Nuvens de chumbo se agrupavam no horizonte como um exército em marcha lenta. A rádio tocava algo suave, quase inaudível, uma música em francês que eu não reconhecia, mas que me pareceu tragicamente adequada. Aquelas vozes femininas distantes, sussurradas, pareciam rir da minha tentativa de parecer determinada.

"Amo a minha esposa."

A frase ainda reverberava no meu crânio como uma pedra que não para de quicar.

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