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Diabo 👿

Estou há três semanas fora, resolvendo problemas que não eram meus. Reuni com acionistas, fechei contratos bilionários, desfiz parcerias que não valiam o papel em que foram escritas. A empresa é minha — construída do zero, tijolo por tijolo, suor e sangue. E qualquer um que tentar atravessar meu caminho vai aprender rápido que eu não perdoo. E não esqueço.

Ajustei o que precisava ser ajustado, afastei quem tentava se aproveitar e deixei bem claro: se mexerem no que é meu, não vai ter conversa. Nem no mercado, nem na vida pessoal. Eu não negocio com ameaça. Eu elimino.

Voltei pro Rio agora à noite. Fera veio me buscar no Galeão. Ele é mais do que um segurança — é meu braço direito, minha sombra, a única pessoa fora da família que tem minha confiança total. São quinze anos de estrada juntos. Ele já levou tiro por mim. Eu já paguei hospital, advogado, enterro de parente dele. A gente não precisa de palavras.

Nem precisei falar nada. Ele sabe quando é hora de calar e dirigir. No caminho, a cidade passava pelos vidros escuros do carro — as luzes dos letreiros, os prédios imponentes, o movimento de quem ainda está vivendo enquanto eu só queria chegar. A mala do passageiro, o silêncio no banco de trás. Fera não perguntou como foi a viagem. Ele sabia que eu não ia responder.

Minha mãe me esperava sentada na cozinha do apartamento. Mesma cadeira de sempre, mesma expressão cansada de quem já viu tudo nessa vida. O cabelo dela está mais branco agora, mas os olhos continuam os mesmos — os únicos que ainda me olham sem medo, sem segundas intenções, sem joguinhos de poder. Beijei a testa dela em silêncio. Ela me olhou de volta com aquele carinho que só ela ainda tem por mim.

O mundo inteiro pode me tratar como monstro. Os concorrentes me chamam de Diabo com desprezo. Os funcionários falam meu nome baixo, como se pronunciar alto fosse invocar uma assombração. Mas pra ela, eu sempre serei o Rodrigo. O filho que saiu de baixo e venceu. O menino que limpava vidro de carro no sinal e hoje tem um império.

— Comeu no avião? — perguntou Verônica.

Só balancei a cabeça. Não tinha fome. Não tinha vontade de nada além de silêncio. Ela suspirou, levantou e foi até o fogão. Voltou com um prato de sopa, daquelas que só mãe sabe fazer.

— Vai comer. Mesmo que seja pouco. Você tá magro demais, Rodrigo.

Não discuti. Peguei a colher e comi em silêncio, porque às vezes obedecer é a única forma de dizer "eu te amo" sem ter que falar.

A mulher que me pariu é a única que ainda me chama pelo meu nome. Rodrigo. Pro resto do mundo, eu sou o Diabo mesmo. O apelido veio na época da faculdade de administração, quando eu destruía qualquer concorrente em simulações de negócios sem dó nem piedade. Depois, o mercado de verdade foi meu campo de batalha. E quem esquece disso acaba lembrando da pior forma. Alguns perderam empresas. Outros perderam muito mais do que dinheiro.

Subi para o quarto, larguei o celular na cômoda, tirei o paletó e a gravata, joguei a camisa na cadeira. A peça de seda preta amassou sem cerimônia. Sentei na beirada da cama, a vista da cidade lá embaixo pelas janelas de vidro do apartamento. As luzes se estendiam até o horizonte, como se o Rio inteiro fosse meu. De certa forma, era.

O celular vibrou na mesa de cabeceira.

Vanessa.

Li a mensagem com os olhos cansados. Ela escreveu que o Benício está com febre. Quarenta graus. Pedindo dinheiro, como sempre. Sempre aparece com alguma doença conveniente quando descobre que voltei ao Rio. É o teatro dela. O mesmo roteiro de sempre, repetido à exaustão.

Mal sabia ela que tenho gente de olho nela o tempo todo. A enfermeira que cuida do Benício quando ele está com ela me envia relatório diário, foto, vídeo, temperatura medida três vezes ao dia. Não tem febre nenhuma. Não teve nos últimos quinze dias. É mais uma tentativa de me manipular, de me fazer correr atrás, de provar que ainda tem algum controle sobre mim.

Ela não tem. Nunca teve.

Respondi com uma só palavra: "Manda ele pra cá."

Claro que não vai mandar. Ela sabe que se o menino vier para cá, perde o controle sobre mim. Perde a desculpa, perde o dinheiro fácil, perde o drama que sustenta a vida vazia dela.

---

Desci e encontrei Fera na sacada do apartamento, olhando a cidade lá embaixo como se fosse dele. Ele segura as pontas enquanto estou longe, cuida da segurança da família, da empresa, do que for preciso. Mas sabe bem quem manda. Sempre soube. A lealdade dele não se compra com dinheiro — e é por isso que ele continua ao meu lado.

— Tá tudo certo? — perguntei, pegando uma garrafa de água na geladeira de vidro.

— Até agora, sim. Mas tem burburinho — respondeu Fera, o olhar fixo nos prédios iluminados, as mãos apoiadas no parapeito de mármore.

— Sempre tem — disse eu, abrindo a garrafa. O som do plástico estourando ecoou no silêncio da sacada.

— Aquele negócio da Gama Investimentos voltou. Estão achando que podem comprar sua parte — disse Fera, com uma ponta de ironia na voz.

Sorri de canto. Eles sempre acham. Empresa familiar querendo crescer na base da intimidação e da lábia. Já vi esse filme antes. Não termina bem para eles. Gente que j**a sujo não sabe o que fazer quando encontra alguém que nasceu no esgoto e aprendeu a nadar na merda.

— Cuida disso. Quero propostas na minha mesa até sexta — disse eu, seco.

Fera assentiu. Anotou mentalmente. Não precisava de papel.

— E outra coisa… vi a garota hoje — disse Fera, a voz mais baixa. — Aquela que você olhou da última vez.

Não respondi. Ele sabia que eu lembrava.

A garota do olhar firme. Aquela que ninguém defende, mas não abaixa a cabeça para ninguém. Vi-a apenas uma vez, no Lux Club, e ficou gravada na mente. Não pelo corpo — embora o corpo fosse inegável, esculpido em curvas que desafiam a gravidade. Não pela roupa — embora o vestido curto e o piercing no umbigo fossem provocação pura.

Foi o jeito que ela me encarou.

Como se tivesse fogo no olho também. Como se não tivesse medo de mim. Como se eu fosse apenas mais um homem naquela sala, e não o Diabo que faz executivos tremerem só de ouvir meu nome. Isso é raro. Muito raro. No mundo onde eu vivo, todo mundo abaixa a cabeça. Todo mundo sorri com medo. Todo mundo finge respeito para não perder negócio.

Ela não.

— Onde ela tava? — perguntei, tentando soar indiferente. Falhei.

— Saindo com a amiga. Aquela Tatiane. Encontraram a Heloísa na entrada. Estou de olho — disse Fera, e eu percebi que ele já tinha investigado. Claro que sim. Para isso que ele serve.

Assenti. Tomei um gole d'água, tentei não pensar nela. Não consegui. A imagem daqueles olhos me encarando sem um pingo de medo ficou ali, flutuando, como um mosquito que não sossega até tirar sangue.

O mercado ainda é meu. A cidade ainda me respeita. A empresa cresce a cada trimestre. Tenho mais dinheiro do que vou gastar em dez vidas. Mas, às vezes, sinto que existem certas coisas que nem o dinheiro resolve, nem a influência compra. Coisas que exigem mais do que poder. Coisas que exigem coragem de sentir.

E quando isso acontece… eu mesmo resolvo. Do meu jeito.

Hoje não vai ser diferente.

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