Mundo de ficçãoIniciar sessãoDiabo 👿
Fera se ofereceu para ir comigo. Falou que era melhor eu não descer sozinho — não por perigo, mas por princípio. Disse que lugar de CEO não é se meter em confusão familiar no meio da noite. Olhei para ele e não precisei dizer nada. Só dei aquele olhar seco de sempre. Aquele que congela o sangue de quem conhece. Ele entendeu na hora. Existem coisas que ninguém resolve por mim. E a Vanessa… a Vanessa é uma delas. Sempre foi. Desde o dia em que nos separamos, ela encontrou na manipulação uma profissão. E no meu filho, um instrumento. Peguei o carro — um blindado preto que não chama atenção, pelo menos não mais do que eu já chamo. A Mercedes deslizou pelas ruas da zona sul como um predador silencioso. Entrei no endereço no GPS e dirigi até a cobertura dela. O prédio era moderno, espelhado, com portaria 24 horas e seguranças na entrada. Mas nada daquilo me impressionava. Eu conhecia cada centímetro daquela cidade. Sabia onde cada um dos meus inimigos dormia, onde cada um dos meus aliados bebia, onde cada juiz poderia ser comprado. Estacionei na vaga privativa. Subi no elevador privativo até o andar dela. O corredor cheirava a lírio, perfume caro, ostentação vazia. Toquei a campainha uma vez só. Ela atendeu com o rosto borrado de maquiagem do dia anterior — rímel escorrido, base craquelada —, um roupão de seda transparente que mais mostrava do que escondia. Os cabelos loiros esticados até a cintura, as unhas compridas com esmalte vermelho-sangue, o olhar debochado de quem já perdeu a capacidade de sentir vergonha. A modelo que nunca largou o papel, mesmo depois que o contrato com a agência acabou. Mesmo depois que a carreira evaporou. Mesmo depois que sobrou apenas ela e a amargura. — Ele está doente mesmo ou você inventou mais uma? — perguntei, seco. Direto. Sem espaço para teatro. — Ele teve febre. Quarenta graus. Eu ia te mandar vídeo… mas você nunca responde — disse Vanessa, a voz manhosa, tentando parecer preocupada. Não funcionava. Nunca funcionou. — Estou aqui agora. Cadê ele? — perguntei, ignorando o drama. — Dormindo — respondeu ela, apoiada na porta como se estivesse posando para uma foto. O roupão abriu um pouco mais no peito. Eu não olhei. Não caio mais nessa armadilha. — Acorda — ordenei. Ela fez cara feia, aquele beiço estufado que já funcionou com muitos homens, mas nunca comigo. — Vai acordar o menino quase onze da noite? — reclamou Vanessa. — Vai sim. Quero ver com meus olhos — disse eu, impassível. Ela bufou, virou as costas e sumiu no corredor. O roupão arrastou no chão de mármore. Fiquei parado na sala, olhando em volta. Bagunça. Roupa jogada na cadeira, restos de comida na mesa de centro, brinquedo caro abandonado no chão, uma taça de vinho pela metade ao lado do sofá. A TV ligada num canal de compras. O ar-condicionado no máximo. Nada muda. Dei a ela tudo o que precisava para cuidar do meu filho: a cobertura na zona sul, o cartão de crédito com limite generoso, o carro importado na garagem. E ainda assim ela vive como se a vida tivesse sido injusta, como se o mundo lhe devesse algo que ela nunca construiu. Ela voltou com o menino no colo, meio sonolento, cabelo bagunçado, mas com os olhos brilhando quando me viu. O Benício não parecia febril. Estava quente, claro — criança sempre tem um calor natural, principalmente quando acaba de acordar. Mas não era nada daquilo que ela descreveu. Não havia quarenta graus, não havia emergência, não havia absolutamente nada além de mais uma tentativa frustrada de me fazer correr atrás dela. Quando me viu, deu aquele sorrisinho pequeno, meio sem graça, com os dentinhos ainda se formando. O sorriso que derruba qualquer muralha que eu tente construir. Me desarmei por dentro, mas por fora continuei do mesmo jeito. Cara fechada, postura firme, olhar duro. Não podia demonstrar fraqueza. Nem para ele. Especialmente não na frente dela. Peguei o Benício no colo. O peso dele nos meus braços era familiar e ao mesmo tempo estranhamente novo a cada vez. O cheiro de sabonete infantil misturado com o perfume doce da Vanessa. A mãozinha dele agarrada na minha camisa. Analisei rápido: olhos claros e límpidos, respiração normal, pele quente mas com temperatura controlada. — Já deu remédio? — perguntei, segurando-o contra o peito. — Já. Dormiu depois disso — respondeu Vanessa, os braços cruzados sobre o peito, o olhar desafiador. — Amanhã eu quero os exames. Todos. Vou mandar minha equipe buscar. E prepare as coisas dele. Vou levá-lo no fim de semana — disse eu, firme. Sem margem para negociação. — De novo com isso… — suspirou ela, revirando os olhos como uma adolescente. — De novo nada. Estou avisando — respondi, sem tirar os olhos do menino. — Você some, aparece quando quer, e agora quer fazer pose de pai presente? — disparou ela, a voz mais alta, os olhos marejados de um drama que eu já não acreditava mais. — Não é pose. É regra. Bagunçou demais. A partir de agora, sou eu quem escolhe como vai ser — disse eu, sem levantar a voz. Pausado. Calmo. Ameaçador. O tom que faz homens crescerem e negociadores experientes recuarem. Ela não respondeu. Só abaixou os olhos. Sabia que quando eu falo sem levantar a voz é pior. Muito pior. Ela já viu o que acontece com quem me desafia. Já viu empresas inteiras desmoronarem. Já viu sócios serem expulsos do mercado. Já viu gente sumir do mapa dos negócios como se nunca tivessem existido. Botei o Benício de volta no sofá com cuidado, cobri com o cobertor que estava dobrado na ponta. Ajeitei o travesseiro sob a cabeça dele. Fiquei ali alguns minutos, olhando-o dormir. A barriguina subindo e descendo devagar, o ritmo calmo de quem não sabe que o mundo lá fora é um campo minado. A mãozinha fechada perto do rosto, os lábios entreabertos. Nem devia mais me afetar… mas afeta. Porra, como afeta. — Para de inventar doença para chamar minha atenção. Se quiser falar comigo, fala. Mas só fala uma vez — disse eu, já me virando para sair. Ela não disse nada. Não tinha o que dizer. Pela primeira vez na noite, o silêncio dela não era estratégia. Era derrota. Saí sem olhar para trás. O corredor estava silencioso, o elevador desceu rápido, o porteiro nem levantou os olhos quando passei. Eles sabem que não se deve olhar nos olhos do Diabo. Entrei no carro, liguei o motor e fiquei ali por um segundo, olhando pela janela escura. A cidade estava calada. As luzes dos prédios piscavam como estrelas artificiais. O movimento noturno lá embaixo parecia distante, irrelevante. Mas o silêncio era daquele tipo que avisa: alguma coisa vai dar errado. E quando der, eu estarei pronto. Engatei a marcha e saí. No retrovisor, o prédio dela foi ficando para trás, pequeno, insignificante como uma caixa de fósforos no meio da imensidão da zona sul. Minha cabeça, porém, continuava lá em cima, com aquele sorrisinho pequeno do Benício gravado na retina. E, contra a minha vontade, com a imagem da garota do olhar firme. Aquela que não abaixa a cabeça para ninguém. Aquela que me encarou como se eu fosse apenas um homem, e não o Diabo. O Diabo pode ter tudo. Pode comprar empresas, influenciar governos, quebrar concorrentes, destruir reputações. Mas há coisas que nem todo o dinheiro do mundo compra. Respeito verdadeiro. Lealdade sem interesse. Um olhar que não desvia. E isso me irritava mais do que eu queria admitir.






