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Luna

Já passava das dez quando eu tranquei o portão. O cadeado rangeu como sempre, enferrujado, pedindo troca há meses. Tava quente, aquele calor abafado de noite de verão que aperta o peito antes da tempestade. E aquele silêncio estranho não me enganava. Quando o bairro fica quieto demais, é porque tem coisa no ar. Os cachorros não latem. As crianças não gritam na rua. Até o paredão de som lá do fim da rua parece mais baixo, como se todos soubessem que algo está prestes a acontecer.

Tatiane me esperava encostada no poste da esquina, de short jeans azul claro que marcava cada curva, top colado cor de vinho e cara de quem já tava pronta pro corre. O cabelo dela tava preso num coque alto, os brincos de argola brilhavam com a luz fraca do poste. Acendi um cigarro e desci os três degraus com calma, sentindo o vento morno bater no rosto, bagunçar os fios soltos do meu cabelo.

— Tava demorando, porra — disse Tatiane, jogando o resto do cigarro no chão e pisando em cima. A fumaça subiu como um fantasma entre nós.

— Tava ajeitando minha avó. Ela não tava passando muito bem — respondi, puxando a fumaça devagar, sentindo queimar na garganta.

— Sempre sua avó, né? — disse ela, com aquele tom debochado que só ela tem, mas eu sabia que não era crítica. Era jeito. A forma dela de dizer eu sei que você carrega o mundo nas costas, mas não esquece de mim no meio disso tudo.

— E sempre vai ser — respondi, soltando a fumaça pelo nariz, os olhos fixos na rua escura.

Ela sorriu e me entregou uma bala de hortelã, como fazia toda vez. Tirou do bolso do short, aquele mesmo pacotinho amassado que ela sempre carregava. Mania dela. Mania nossa. Desde os quinze anos, quando a gente começou nessa vida juntas — duas meninas que viraram mulher na marra —, ela nunca saía de casa sem bala de hortelã. "Cliente nenhum merece cheiro de cigarro e café", ela dizia. "O hálito é o cartão de visita." Eu só aceitava. Fazia parte do nosso ritual. Do nosso pacto silencioso.

Descemos lado a lado, caladas. Nossas sombras se alongavam no chão molhado da última chuva. A rua vazia dava até nervoso, só o som das nossas sandálias batendo no asfalto quente e um ou outro latido perdido no fundo da viela. Uma buzina ecoou lá longe, vindo da avenida. Depois, silêncio de novo. O tipo de silêncio que pesa, que aperta o peito, que faz a gente olhar pros lados mais vezes do que devia.

Quando a entrada da rua principal apareceu na curva, a cena já tava montada. Heloísa de conversa com Fera. Os dois parados perto do portão de ferro que dá acesso à praça. Ela com aquele jeito leve de quem nunca precisou sujar as mãos, mas escolheu estar ali. Os braços cruzados, o cabelo solto caindo pelos ombros. Ele com a postura de sempre — ombros largos, mãos no bolso, olhar atento a tudo ao redor. Eles pararam de falar assim que a gente apareceu. Não foi disfarçado. Foi imediato. Como se o assunto fosse sobre a gente. E talvez fosse.

Heloísa veio andando até nós, com aquele jeito leve que ela tem, mas o olhar mais atento que o normal. O shortinho dela era de marca, daquela loja que a gente só pode olhar pela vitrine. O cabelo arrumado, com brilho de quem acabou de sair do salão. A pele cheirosa, perfume doce que se espalhava pelo ar. Ela sempre foi diferente de nós. Nunca precisou trabalhar como a gente. A família sempre teve dinheiro, contatos, privilégios. Mas ela nunca fez questão de se separar. Sempre desceu o bairro, sentou no bar, dividiu o cigarro, a cerveja, a vida. Talvez por isso a gente gostasse tanto dela.

— Vocês vão sair? — perguntou Heloísa, os olhos passando de mim pra Tatiane e depois pro Fera, que ainda estava ali, encostado no portão, observando.

— Vamos — disse Tatiane, seca, sem dar detalhes. O tom de quem não quer ser questionada.

— Cuidado hoje. O clima tá meio estranho — disse Heloísa, a voz mais baixa que o normal.

— Sempre tá. Qual é a fita? — perguntei, tirando mais uma tragada do cigarro.

Ela hesitou por um segundo, mordeu o canto do lábio, olhou pro Fera como se pedisse permissão. Ele deu um leve aceno com a cabeça. Só então ela falou.

— Meu tio chegou no Rio hoje. Tá na cidade agora. Fera tá só esperando o sinal — disse Heloísa.

Meu peito apertou. Eu sabia quem era o tio dela. Todo mundo sabia.

— O Diabo voltou… que lindo — disse Tatiane, com aquele sorriso safado que só ela sabia dar. Mas tinha alguma coisa no tom. Não era alegria. Era ironia. Talvez curiosidade. Talvez um aviso disfarçado de deboche.

— Ele veio por causa de uns negócios da empresa, mas também quer ver o filho. A Vanessa ligou dizendo que o Benício tá doente — disse Heloísa.

— E ele acreditou? — perguntei, dando uma risada seca, sem humor.

Heloísa deu de ombros. A gente sabia como funcionava. Mulher nenhuma enganava o Diabo fácil, isso era fato. Ele tinha inteligência, estratégia, uma rede de informações que atravessava a cidade inteira. Mas quando era sobre o filho… ele ficava cego. Perdia a frieza, perdia o cálculo, perdia a razão. E quando ele ficava cego, tudo ao redor tremia. A empresa, os negócios, as pessoas ao redor. Ele era capaz de mover montanhas por aquele menino.

Heloísa se aproximou mais um pouco, a voz agora quase um sussurro.

— Ele perguntou se vocês ainda moravam aqui — disse Heloísa, os olhos fixos nos meus.

— "Vocês" ou "a Luna"? — perguntou Tatiane, levantando uma sobrancelha.

— Eu disse "vocês". Mas ele não respondeu nada — respondeu Heloísa, desviando o olhar.

Tatiane olhou pra mim, com aquele sorriso de quem adora ver o circo pegar fogo.

— Falei que tu chamou atenção do capeta — disse ela, dando uma cotovelada de leve no meu braço.

— Foda-se o capeta. Eu tenho cliente marcado — respondi, jogando o resto do cigarro no chão e pisando em cima com força. A brasa morreu sob minha sola como um aviso.

— Eu tô avisando. Se vocês verem carro preto passando, saiam da frente. E não fiquem rodando muito por aí hoje. Fera já deu a dica: ele não quer ninguém por perto — disse Heloísa, séria.

— Então é hoje que vai dar merda — disse eu, sentindo um arrepio subir pela espinha.

— Talvez — respondeu Heloísa, virando as costas.

Ela foi de volta pro Fera, que não tirava os olhos da gente. Aquele olhar pesado, escrutinador, como se estivesse avaliando cada movimento, cada respiração. Nunca gostei do jeito que ele olha. Não é desejo. É avaliação. É controle. Ele gosta de mostrar que sabe de tudo. Que nada acontece sem que ele fique sabendo. Naquele olhar, sempre tem uma mensagem silenciosa: "Estou vendo. Não faça besteira."

Seguimos andando, Tatiane na frente, eu atrás. O barulho dos nossos passos ecoava no asfalto vazio.

A sensação de que algo ia virar naquela noite ficou grudada em mim como a fumaça do cigarro na roupa. O vento mudou de direção, trouxe o cheiro de chuva que não chegava. O céu escureceu de vez lá no horizonte. E no fundo, eu sabia: a tempestade não era só na atmosfera.

Ia cair dentro de mim também.

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