Segredos antigos

Quando Gabriel desapareceu pela estrada, continuei parada por alguns segundos.

Observando.

Como se meus olhos ainda conseguissem encontrá-lo entre as árvores.

O que era ridículo.

Eu o conhecia havia menos de uma hora.

Menos de uma hora.

E ainda assim meu coração parecia estranhamente leve.

Talvez porque tivesse sido a primeira conversa realmente agradável que eu tivera em muito tempo.

Talvez porque aqueles olhos azuis fossem difíceis de esquecer.

Ou talvez por outro motivo.

Um motivo que eu ainda não compreendia.

Quando cheguei à casa, a luz da varanda estava acesa.

Augusto estava sentado em sua cadeira de balanço.

Esperando.

Assim que me viu surgindo pelo caminho, levantou-se.

— Graças a Deus.

Franzi a testa.

— O que aconteceu?

— Nada.

— Então por que essa cara?

— Você demorou.

— Eu estava caminhando.

— Nas montanhas.

— Sim.

— Sozinha.

— Sim.

Augusto suspirou.

Passando a mão pelos cabelos grisalhos.

— Helena, você não conhece bem a região ainda.

— Não sou uma criança.

— Eu sei.

Mas isso não impediu sua mãe de fazer loucuras.

Aquela resposta me arrancou uma risada.

— Então eu puxei a ela.

Augusto não sorriu.

E aquilo me chamou atenção.

Mais uma vez.

Ultimamente ele parecia carregar uma preocupação constante.

Como se estivesse sempre esperando que algo acontecesse.

Entramos.

O jantar já estava pronto.

Uma comida simples.

Caseira.

Daquelas que confortam a alma.

Durante a refeição conversamos sobre assuntos comuns.

A vila.

As plantações.

As pessoas que eu havia conhecido.

E, propositalmente, não mencionei Gabriel.

Não porque estivesse escondendo algo.

Mas porque já tinha percebido que Augusto não gostava dele.

E eu não estava com disposição para ouvir sermões.

Depois do jantar, Augusto saiu para guardar algumas ferramentas.

Enquanto isso, fiquei sozinha na sala.

O relógio antigo marcava lentamente as horas.

A casa estava silenciosa.

Apenas o som dos grilos vinha do lado de fora.

Foi então que meus olhos encontraram uma caixa de madeira embaixo de uma pequena mesa.

Uma caixa antiga.

Coberta por uma fina camada de poeira.

Curiosa, puxei-a para perto.

Abri.

E encontrei dezenas de fotografias.

Algumas muito antigas.

Outras mais recentes.

Retratos de família.

Aniversários.

Festas.

Momentos que pareciam ter sido congelados no tempo.

Sorri ao ver algumas imagens da minha infância.

Depois encontrei fotografias da minha mãe.

Rosa.

Jovem.

Bonita.

Com o mesmo sorriso que eu tanto lembrava.

Meu coração apertou.

Mesmo depois de tantos anos, a saudade continuava ali.

Silenciosa.

Constante.

Continuei folheando as fotos.

Até que uma delas chamou minha atenção.

Imediatamente.

Meu sorriso desapareceu.

Era uma fotografia antiga.

Provavelmente tirada muitos anos antes de eu nascer.

Minha mãe estava nela.

Mais jovem do que eu jamais a vira.

Sorrindo.

Feliz.

Mas não estava sozinha.

Ao seu lado havia um homem.

Alto.

Moreno.

De cabelos negros.

E olhos claros.

Meu coração acelerou.

Porque aquele homem parecia Gabriel.

Não exatamente igual.

Mas parecido demais para ser coincidência.

Os mesmos traços.

O mesmo formato do rosto.

O mesmo olhar.

Fiquei imóvel.

Tentando entender.

— Não pode ser.

Murmurei.

Peguei a fotografia.

Observando cada detalhe.

Quanto mais olhava...

mais estranha a semelhança parecia.

Foi nesse momento que Augusto voltou para a sala.

— O que está fazendo?

Perguntou.

Levantei a fotografia.

— Quem é ele?

Vi o exato instante em que a expressão de Augusto mudou.

A cor desapareceu de seu rosto.

Os olhos se fixaram na imagem.

E, por alguns segundos, ele simplesmente ficou imóvel.

Aquilo respondeu mais do que qualquer palavra.

— Augusto?

Ele se aproximou lentamente.

Pegou a fotografia da minha mão.

— Onde encontrou isso?

— Na caixa.

Quem é ele?

O silêncio voltou.

Longo.

Pesado.

Desconfortável.

— Um velho conhecido.

Respondeu finalmente.

— Um velho conhecido que parece muito com Gabriel Ferraz.

Augusto apertou a fotografia.

— Algumas pessoas se parecem.

— Não tanto.

Ele desviou o olhar.

E aquilo me irritou.

Porque eu já estava cansada de respostas pela metade.

— Você está escondendo alguma coisa.

— Não estou.

— Está sim.

— Helena...

— Quem era ele?

Augusto permaneceu calado.

E naquele momento percebi que não responderia.

Não importa o quanto eu insistisse.

Ele simplesmente não responderia.

Então fez algo ainda pior.

Guardou a fotografia dentro da caixa.

Fechou a tampa.

E mudou de assunto.

Como se nada tivesse acontecido.

Mas tinha acontecido.

E eu sabia disso.

Subi para meu quarto carregando mais perguntas do que respostas.

O vento soprava pela janela.

A lua iluminava parte da escrivaninha.

E, pela primeira vez desde que cheguei a Serra da Lua, senti uma necessidade urgente de escrever.

Sentei diante do notebook.

Abri um documento em branco.

E comecei.

"Existem lugares que escondem segredos.

E existem segredos que sobrevivem por gerações.

Cheguei a Serra da Lua acreditando que estava fugindo do meu passado.

Mas talvez eu estivesse caminhando diretamente para ele."

Parei.

Reli as palavras.

Depois continuei escrevendo.

Sobre os sonhos.

Sobre Gabriel.

Sobre a fotografia.

Sobre minha mãe.

Sobre os olhares estranhos dos moradores.

Sobre Augusto.

Sobre tudo.

As páginas começaram a surgir.

Uma após a outra.

Como se aquela história estivesse esperando por mim.

Como se estivesse viva.

E enquanto eu digitava noite adentro, não fazia ideia de que a resposta para todas aquelas perguntas estava muito mais próxima do que imaginava.

Nem que a fotografia escondida naquela caixa era apenas a primeira peça de um mistério que mudaria minha vida para sempre.

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