Acordei naquela manhã com um pensamento que me irritou imediatamente.
Eu queria encontrar Gabriel novamente.
Era ridículo.
Eu o conhecia havia apenas um dia.
Uma única conversa.
Pouco mais de uma hora caminhando juntos.
Mesmo assim, enquanto escovava os cabelos diante do espelho, era nele que eu pensava.
Nos olhos azuis.
No sorriso discreto.
Na forma como parecia sempre observar tudo ao redor.
Suspirei.
Talvez Serra da Lua estivesse me deixando maluca.
Desci para tomar café.
Augusto já estava na cozinha.
Como sempre.
Parecia acordar antes do sol.
— Dormiu bem?
Perguntou.
— Mais ou menos.
— Sonhos de novo?
Quase deixei a xícara cair.
— Como você sabe?
Ele sorriu.
— Seu rosto entrega tudo.
Balancei a cabeça.
Não queria falar sobre isso.
Não depois da noite anterior.
Não depois da fotografia.
A lembrança daquele homem ao lado da minha mãe continuava me perseguindo.
Principalmente pela semelhança absurda com Gabriel.
Quanto mais eu pensava naquilo, mais perguntas surgiam.
E menos respostas apareciam.
Depois do café peguei meu caderno.
— Vai sair?
Perguntou Augusto.
— Vou caminhar.
Vi a preocupação surgir imediatamente em seus olhos.
— Nas montanhas de novo?
— Sim.
— Helena...
— Eu vou tomar cuidado.
Prometo.
Ele suspirou.
Como alguém que sabia que discutir seria inútil.
— Volte antes de escurecer.
— Eu volto.
Saí.
Mas a verdade era que eu não estava procurando inspiração.
Pelo menos não apenas inspiração.
Eu procurava respostas.
E, se fosse completamente sincera comigo mesma...
procurava Gabriel.
O dia estava bonito.
O céu azul.
O vento suave.
As montanhas pareciam ainda mais impressionantes sob a luz do sol.
Caminhei devagar.
Observando a paisagem.
Anotando algumas ideias.
Mas minha atenção estava em outro lugar.
Em vários momentos me peguei olhando para os caminhos.
Para as trilhas.
Para qualquer sinal de que ele pudesse aparecer.
Ridículo.
Completamente ridículo.
Continuei caminhando por quase uma hora.
Até perceber que estava mais distante da vila do que imaginava.
Foi então que ouvi uma voz atrás de mim.
— Procurando alguma coisa?
Virei rapidamente.
Um homem estava encostado numa árvore.
Alto.
Moreno.
Cabelos escuros.
Olhos verdes.
Muito verdes.
Eu o reconheci imediatamente.
Era o homem que estava com Gabriel na festa.
— Ah.
Disse ele sorrindo.
— Então você lembra de mim.
Não gostei daquele sorriso.
Havia algo nele que me deixava desconfortável.
— Você estava na festa.
Respondi.
— E você também.
A resposta veio rápida.
Confiante.
Quase divertida.
— Sou Robson.
— Helena.
— Eu sei quem você é.
Aquilo já estava começando a ficar irritante.
Todo mundo naquela vila parecia saber quem eu era.
— Imagino que saiba.
Ele deu alguns passos em minha direção.
— A vila inteira está falando sobre você.
— Espero que coisas boas.
— Depende de quem está falando.
Aquilo me fez franzir a testa.
Robson sorriu novamente.
Era um sorriso bonito.
Mas havia algo de provocação nele.
Algo que me deixava desconfortável.
— Você costuma andar sozinha por aqui?
Perguntou.
— Às vezes.
— Corajosa.
— Ou imprudente.
— Talvez os dois.
Ele continuou andando ao meu lado.
Sem ser convidado.
Aquilo começou a me incomodar.
— Você conhece bem a região?
Perguntei.
— Conheço tudo.
— Tudo?
— Cada pedra.
Cada árvore.
Cada segredo.
A palavra segredo chamou minha atenção.
— Então talvez possa me responder uma coisa.
— Talvez.
— Por que todo mundo aqui parece esconder alguma coisa?
O sorriso dele aumentou.
— Porque todo mundo esconde alguma coisa.
Resposta inútil.
Continuei andando.
Esperando que ele entendesse a mensagem.
Mas Robson continuou me acompanhando.
Falando.
Perguntando.
Observando.
Não era grosseiro.
Mas também não parecia perceber quando alguém queria ficar sozinho.
Ou talvez percebesse.
E simplesmente não se importasse.
Foi então que ouvi outra voz.
— Robson.
Imediatamente os dois olhamos na mesma direção.
Meu coração acelerou.
Gabriel.
Ele estava parado alguns metros adiante.
Os olhos azuis fixos em nós.
A expressão séria.
Muito séria.
— O que você está fazendo aqui?
Perguntou.
O tom era calmo.
Mas existia algo escondido por trás dele.
Robson ergueu as mãos.
Como quem se rendia.
— Conversando.
— Conversando.
Repetiu Gabriel.
— Sim.
Conversando.
Você deveria tentar isso algum dia.
Gabriel não sorriu.
Nem um pouco.
O silêncio entre os dois ficou estranho.
Pesado.
Como se existisse uma história ali.
Uma história que eu desconhecia.
Robson olhou para mim.
— Acho que já vou embora.
Depois voltou-se para Gabriel.
— A gente se vê.
E desapareceu pela trilha.
Observei enquanto ele se afastava.
— Ele sempre é assim?
Perguntei.
Gabriel suspirou.
— Robson gosta de provocar as pessoas.
— Funcionou.
Aquilo arrancou um pequeno sorriso dele.
Pequeno.
Mas sincero.
— Você não deveria estar andando sozinha por aqui.
Disse ele.
— Augusto falou a mesma coisa.
— Ele está certo.
— Vocês dois andam concordando demais.
O sorriso aumentou.
E meu coração também.
Droga.
Começamos a caminhar.
Lado a lado.
Por alguns minutos ninguém falou nada.
O silêncio era confortável.
Estranhamente confortável.
Até que eu não aguentei mais.
— Estou ficando sufocada.
Gabriel virou o rosto para mim.
— Sufocada?
Assenti.
— Parece que todo mundo sabe alguma coisa.
Menos eu.
Ele não respondeu.
O que foi uma resposta por si só.
— Tem a fotografia.
Minha mãe.
Aquele homem.
Augusto se recusando a explicar.
As pessoas me olhando estranho.
Parei.
— Eu sinto que existe um segredo.
Um segredo ligado à minha mãe.
Gabriel ficou em silêncio.
Os olhos azuis observando o horizonte.
— Talvez exista.
Disse por fim.
— Você sabe qual é?
Ele demorou a responder.
— Não tudo.
Não acreditei.
— Então existe mesmo.
Gabriel fechou os olhos por um instante.
Como se tivesse falado mais do que deveria.
— Algumas histórias são complicadas.
— Todo mundo diz isso.
— Talvez porque seja verdade.
Suspirei.
— Estou começando a odiar essa frase.
Aquilo o fez sorrir novamente.
E, por alguns segundos, o peso desapareceu.
Até que ele perguntou:
— Augusto disse que você anda tendo sonhos.
Meu coração congelou.
— Ele comentou isso?
— Só mencionou.
Desviei o olhar.
Porque não tinha coragem de contar.
Não podia dizer que sonhava com ele.
Que aparecia nos meus sonhos antes mesmo de nos conhecermos.
Que aqueles olhos azuis me perseguiam durante a noite.
Não.
Definitivamente não.
— Não foram importantes.
Respondi.
Gabriel me observou.
Por alguns segundos.
Como se soubesse que eu estava mentindo.
Mas não insistiu.
E eu agradeci por isso.
Porque existiam muitas perguntas que eu queria fazer.
Muitos segredos que eu queria descobrir.
Mas ainda não estava preparada para revelar os meus próprios.
E enquanto caminhávamos juntos pela trilha, com o vento balançando as árvores ao nosso redor, tive a estranha sensação de que nossos destinos estavam se aproximando cada vez mais.
Mesmo que nenhum de nós estivesse pronto para admitir isso.