O primeiro encontro

Existem encontros que parecem planejados.

Outros parecem acidentes.

E existem aqueles que, por mais que tentemos explicar, simplesmente parecem destino.

Na época eu não acreditava muito nessa palavra.

Destino.

Hoje penso diferente.

A manhã seguinte começou tranquila.

Depois das noites agitadas e dos sonhos estranhos, foi quase um alívio acordar sem nenhuma visão misteriosa.

Passei parte do dia ajudando Augusto.

Ele insistia que não precisava.

Mas eu precisava ocupar a cabeça.

Passamos a manhã organizando algumas ferramentas, limpando uma parte do depósito e cuidando da horta que ficava atrás da casa.

O trabalho físico ajudava.

Pelo menos por algumas horas.

Mais tarde sentei na varanda com meu notebook.

O vento balançava meus cabelos enquanto eu tentava escrever.

As palavras vinham devagar.

Mas vinham.

Algumas páginas.

Algumas anotações.

Pequenas ideias.

Nada extraordinário.

Ainda assim era mais do que eu havia conseguido escrever em meses.

Durante a tarde fui até a vila comprar algumas coisas.

E novamente ouvi comentários sobre minha mãe.

Já estava começando a me acostumar.

— Você é igualzinha à Rosa.

Disse uma senhora que vendia doces.

— Todo mundo fala isso.

Respondi sorrindo.

— Porque é verdade.

Os mesmos olhos.

O mesmo jeito de olhar para as pessoas.

Aquilo me deixou pensativa.

Porque eu conhecia tão pouco sobre a juventude da minha mãe.

Principalmente sobre o tempo que ela passou em Serra da Lua.

Era como se existissem capítulos inteiros da vida dela que nunca tinham sido contados.

Quando voltei para casa, a inquietação reapareceu.

Aquela sensação de que precisava sair.

Andar.

Pensar.

Respirar.

— Vou caminhar um pouco.

Avisei Augusto.

Meu tio levantou os olhos imediatamente.

— Nas montanhas?

— Sim.

— Não vá muito longe.

Sorri.

— Eu tenho quarenta e três anos.

— E continua teimosa.

Ri.

Peguei meu caderno.

E fui.

O caminho serpenteava entre árvores e pedras antigas.

O céu estava bonito.

O ar fresco.

Tudo parecia tranquilo.

Durante um tempo caminhei apenas observando a paisagem.

Anotando pequenas descrições.

Imaginando cenas para o livro.

Foi então que ouvi.

Um estalo.

Parei.

Olhei para trás.

Nada.

Provavelmente algum animal.

Continuei andando.

Mais alguns minutos.

Outro barulho.

Desta vez mais próximo.

Meu coração acelerou.

Virei novamente.

Nada.

A floresta permanecia silenciosa.

Mas a sensação voltou.

A mesma sensação que tive na festa.

Como se alguém estivesse me observando.

Como se eu não estivesse sozinha.

Continuei andando mais rápido.

Outro estalo.

Mais perto.

Muito mais perto.

O medo começou a crescer.

Não havia ninguém.

Mas alguma coisa estava ali.

Eu sentia.

Acelerei o passo.

Depois comecei a correr.

Galhos batiam contra minhas pernas.

Folhas se moviam ao meu redor.

Meu coração parecia querer sair do peito.

Olhei para trás.

Erro.

Quando virei novamente para frente...

bati contra alguém.

Soltei um grito.

E quase perdi o equilíbrio.

Duas mãos seguraram meus braços.

Firmes.

Impedindo minha queda.

— Calma.

A voz era grave.

Tranquila.

Levantei os olhos.

E o mundo pareceu parar.

Azuis.

Aqueles olhos.

Os olhos dos meus sonhos.

Os olhos da festa.

Os olhos que eu já conhecia sem nunca ter conhecido.

Gabriel.

Por alguns segundos nenhum de nós falou.

Eu simplesmente fiquei olhando.

Perdida.

Porque aqueles olhos eram ainda mais impressionantes de perto.

— Você está bem?

Perguntou ele.

Pisquei algumas vezes.

Tentando voltar à realidade.

— Eu...

acho que sim.

Um leve sorriso surgiu em seus lábios.

— Acho?

Corei imediatamente.

Que ótimo.

Primeira conversa e eu já parecia uma completa idiota.

— Tinha alguma coisa me seguindo.

Expliquei.

Gabriel olhou ao redor.

A expressão dele mudou por um breve instante.

Tornando-se séria.

Muito séria.

Mas desapareceu rapidamente.

— Provavelmente algum animal.

— Você acha?

— Sim.

A resposta pareceu rápida demais.

Mas eu estava nervosa demais para insistir.

— Sou Gabriel.

Disse ele.

Como se não soubéssemos os nomes um do outro.

Sorri.

— Helena.

— Eu sei.

Meu coração tropeçou.

— Sabe?

Ele pareceu perceber o que tinha dito.

— A vila inteira sabe quem você é.

Aquilo fazia sentido.

Ou pelo menos deveria fazer.

Mesmo assim alguma coisa naquela resposta me deixou curiosa.

— Você parece assustada.

— Talvez eu esteja.

— Vou levá-la para casa.

— Não precisa.

— Precisa sim.

O tom firme me fez sorrir.

— Está bem.

Começamos a caminhar.

A conversa veio naturalmente.

Mais fácil do que eu esperava.

Falamos sobre a vila.

Sobre as montanhas.

Sobre o clima.

Sobre coisas simples.

Mas eu continuava observando Gabriel discretamente.

E descobrindo que ele era ainda mais bonito de perto.

O que era profundamente inconveniente.

Quando nos aproximamos da propriedade de Augusto, ele diminuiu o passo.

E parou.

— Daqui você consegue ir sozinha.

Franzi a testa.

— Você não vai até a casa?

— Não.

— Por quê?

— Não há motivo.

Mentira.

Não uma mentira completa.

Mas uma mentira.

Cruzei os braços.

— É por causa do Augusto?

Gabriel ficou em silêncio.

O que já era uma resposta.

— Então é isso.

— Seu tio e eu apenas pensamos diferente em algumas coisas.

— Ele não gosta muito de você.

Um sorriso divertido surgiu em seu rosto.

— Percebi.

Não consegui evitar uma risada.

— Eu também.

Gabriel me observou.

— Então você perguntou por mim?

O jeito que perguntou fez meu coração acelerar.

Sorri.

— Parece que foi isso mesmo.

Pela primeira vez o sorriso dele apareceu por completo.

E foi impossível não sorrir de volta.

Naquele momento nenhum de nós sabia o que viria pela frente.

Os segredos.

As mentiras.

Os perigos.

A profecia.

Mas uma coisa já havia começado.

Algo silencioso.

Algo inevitável.

E enquanto eu observava Gabriel se afastar pela estrada, tive a estranha sensação de que minha vida acabava de mudar mais uma vez.

Talvez para sempre.

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