Capítulo 5

Hoje, quando me lembro daqueles primeiros dias em Serra da Lua, percebo que os sonhos começaram antes das respostas.

Antes das descobertas.

Antes dos segredos.

Antes mesmo de Gabriel e eu trocarmos uma única palavra.

Naquela época, eu acreditava que eram apenas sonhos estranhos.

Mas eles pareciam cada vez mais reais.

Como se alguém estivesse tentando me mostrar alguma coisa.

Ou me avisar.

Voltei da festa de São João muito mais tarde do que imaginava.

A praça continuava iluminada.

A música ainda ecoava pelas ruas da vila.

Mas meu pensamento permanecia preso em outro lugar.

Nos olhos azuis daquele homem.

Gabriel Ferraz.

Era estranho.

Eu não sabia praticamente nada sobre ele.

Mas continuava pensando nele.

E aquilo me irritava um pouco.

Porque não fazia sentido.

Quando cheguei em casa, Augusto já estava sentado na varanda.

Tomando café.

Como se não existisse madrugada.

— Ainda acordado?

Perguntei.

— Velho dorme pouco.

Respondeu ele.

Sorri.

— A festa estava bonita.

— Estava.

— Você não ficou até o final.

— Nunca fico.

Ele me observou por alguns segundos.

Como se quisesse perguntar alguma coisa.

Mas não perguntou.

E eu também não mencionei Gabriel.

Pelo menos não naquele momento.

Subi para meu quarto.

Tomei banho.

Vesti uma roupa leve.

E me deitei.

A última imagem que passou pela minha cabeça antes de dormir foram aqueles olhos azuis.

Depois o sono chegou.

E levou comigo a paz daquela noite.

No sonho eu estava correndo.

Não sabia de onde.

Nem para onde.

Apenas corria.

A floresta era escura.

A lua cheia iluminava o caminho.

Galhos se moviam ao meu redor.

Sombras dançavam entre as árvores.

E meu coração batia forte.

Muito forte.

Então parei.

De repente.

Como se algo me obrigasse.

E o vi.

Gabriel.

Parado diante de mim.

Ele parecia exatamente igual ao homem da festa.

Os cabelos negros.

O rosto sério.

Os olhos azuis.

Mas havia algo diferente.

Uma tristeza profunda.

Como se carregasse um peso impossível de dividir com alguém.

— Helena.

Ele disse meu nome.

E a voz pareceu familiar.

Estranhamente familiar.

Dei um passo em sua direção.

Depois outro.

E outro.

Até que ele estava perto.

Muito perto.

Não havia medo.

Não havia dúvida.

Apenas uma sensação de pertencimento.

Como se eu finalmente tivesse encontrado alguém que procurava há muito tempo.

Mesmo sem saber.

No sonho, toquei seu rosto.

E ele segurou minha mão.

Com delicadeza.

Como se tivesse esperado anos por aquele momento.

Então o abracei.

E senti uma paz que nunca havia sentido antes.

Uma paz tão intensa que quase doía.

Mas foi quando tudo mudou.

Um uivo rasgou a floresta.

Longo.

Assustador.

Primitivo.

Gabriel levantou a cabeça imediatamente.

Como se reconhecesse aquele som.

Como se soubesse exatamente o que significava.

Outro uivo respondeu.

Mais próximo.

Mais agressivo.

Então os vi.

Dois lobos.

Enormes.

Surgindo entre as árvores.

Um deles possuía olhos azuis.

Os mesmos olhos de Gabriel.

O outro tinha olhos escuros.

Cruéis.

Cheios de raiva.

Os dois avançaram um contra o outro.

O choque foi brutal.

Dentes.

Garras.

Rosnados.

Terra sendo arrancada do chão.

A luta parecia uma guerra.

Uma batalha antiga.

Como se estivesse acontecendo há muito mais tempo do que eu podia imaginar.

— Não!

Gritei.

Mas ninguém me ouviu.

Os lobos continuaram lutando.

Cada vez mais violentamente.

Foi então que escutei uma voz.

Suave.

Distante.

— Helena...

Meu coração congelou.

Porque eu conhecia aquela voz.

Mesmo sem ouvi-la há anos.

Minha mãe.

— Helena...

Virei rapidamente.

Tentando encontrá-la.

— Mãe?

Mas só havia escuridão.

— Helena, cuidado...

A voz parecia desesperada.

— Mãe!

Então tudo desapareceu.

A floresta.

Os lobos.

Gabriel.

A lua.

Tudo.

E eu acordei.

Sentei na cama assustada.

O coração disparado.

A respiração irregular.

O quarto estava escuro.

Silencioso.

Mas eu ainda conseguia ouvir a voz dela.

Minha mãe.

Aquilo nunca havia acontecido.

Nunca.

Passei as mãos pelo rosto.

Tentando me acalmar.

Mas não consegui voltar a dormir.

Alguns minutos depois desci as escadas.

Encontrei Augusto na cozinha.

Sentado diante de uma caneca de café.

Ele levantou os olhos imediatamente.

— Aconteceu alguma coisa?

— Tive outro sonho.

A expressão dele mudou.

Quase imperceptivelmente.

Mas mudou.

— Outro?

Assenti.

— Com aquele homem.

Augusto ficou imóvel.

— Gabriel?

— Então você admite que sabe quem é.

Ele suspirou.

— A vila inteira sabe quem ele é.

Sentei-me diante dele.

— Eu sonhei com ele de novo.

Augusto apertou a caneca entre os dedos.

— Sonhos não significam nada.

— Dois sonhos iguais?

— Coincidência.

— E minha mãe apareceu.

Pela primeira vez ele pareceu realmente abalado.

— Sua mãe?

— Sim.

O silêncio se instalou.

Augusto desviou os olhos.

Como fazia sempre que escondia alguma coisa.

— Você está me escondendo algo.

— Não.

— Está sim.

Ele respirou fundo.

— Helena...

algumas histórias são melhores quando permanecem enterradas.

— Isso não faz sentido.

— Faz mais do que você imagina.

A resposta apenas aumentou minha inquietação.

Então me lembrei de outra coisa.

— Quem era o homem que estava com Gabriel na festa?

Augusto pareceu aliviado pela mudança de assunto.

— Rafael.

— Amigo dele?

— Algo assim.

— Eles moram juntos?

— Sim.

— Na casa da avó?

— Sim.

Aquilo me surpreendeu.

— Pensei que fossem irmãos.

— Não são.

— E por que moram juntos?

Augusto demorou alguns segundos para responder.

— Digamos que as famílias deles têm uma ligação antiga.

— Que tipo de ligação?

— Uma muito complicada.

Mais uma resposta sem resposta.

Típico.

Levantei da cadeira.

— Você sabe que isso só aumenta minha curiosidade, não sabe?

— Sei.

— E continua fazendo.

— Porque algumas curiosidades podem colocar pessoas em perigo.

Aquelas palavras ficaram ecoando em minha cabeça.

Naquele momento achei que ele estava exagerando.

Como sempre.

Mas hoje sei que não estava.

Porque naquela madrugada, enquanto eu tentava entender meus sonhos, meu tio já sabia de uma verdade que eu sequer era capaz de imaginar.

E, mais do que qualquer outra coisa, ele estava com medo.

Medo do que poderia acontecer comigo.

Medo de que uma profecia antiga estivesse começando a despertar.

E medo de que o destino já tivesse colocado meu caminho e o de Gabriel Ferraz na mesma direção.

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