Existem momentos que ficam gravados na memória sem que a gente entenda o motivo.
Um olhar.
Um sorriso.
Um encontro que ainda nem aconteceu.
Naquela noite de São João, eu ainda não sabia o nome dele.
Mas me lembro de cada detalhe.
Como se tivesse acontecido ontem.
A praça estava lotada.
As bandeirinhas coloridas balançavam acima das nossas cabeças.
A fogueira crepitava no centro da festa.
Música tocava por todos os lados.
Crianças corriam.
Casais dançavam.
Famílias inteiras ocupavam as mesas espalhadas pela praça.
Era impossível não sorrir.
E, durante alguns minutos, eu realmente consegui esquecer os problemas.
Esquecer o passado.
Esquecer o divórcio.
Esquecer tudo.
Até sentir novamente aquela sensação.
Como se alguém estivesse me observando.
Meu sorriso desapareceu.
Olhei ao redor.
Primeiro para a fogueira.
Depois para as barracas.
Depois para o palco.
Nada.
Então virei lentamente para o lado oposto da praça.
E o encontrei.
Novamente.
O homem dos olhos azuis.
Meu coração falhou uma batida.
Porque aqueles olhos eram exatamente iguais aos do sonho.
A mesma cor.
O mesmo brilho.
A mesma intensidade.
Era impossível.
Absolutamente impossível.
Mas ali estava ele.
De pé próximo à sombra de uma grande árvore.
Afastado da multidão.
Observando a festa.
Ou talvez me observando.
Ele era alto.
Muito alto.
Devia passar facilmente de um metro e noventa.
Os ombros largos apareciam sob a camisa escura.
Os cabelos negros estavam levemente bagunçados.
O rosto tinha traços fortes.
Másculo.
Bonito.
Perigosamente bonito.
Mas não era uma beleza exibida.
Era algo mais discreto.
Natural.
Como se ele sequer percebesse o efeito que causava.
E aqueles olhos...
Meu Deus.
Aqueles olhos.
Desviei o olhar imediatamente.
Sentindo-me estranhamente nervosa.
Ridícula.
Eu era uma mulher de quarenta e três anos.
Não uma adolescente.
Mas algo naquele homem me deixava inquieta.
— Está tudo bem?
Augusto perguntou.
Olhei para meu tio.
— Quem é aquele homem?
Vi exatamente o momento em que seu sorriso desapareceu.
Foi rápido.
Mas eu percebi.
— Qual?
Apontei discretamente.
Augusto acompanhou meu olhar.
E sua expressão endureceu.
— Ah.
Foi tudo o que disse.
Ah.
Como se aquilo explicasse alguma coisa.
— Então você conhece.
— Conheço.
— E quem é?
Augusto pegou o copo de café.
Demorando mais do que o necessário para responder.
— Gabriel Ferraz.
Pela primeira vez ouvi aquele nome.
Gabriel.
Sem saber que ele mudaria completamente minha vida.
— Ele mora aqui?
Perguntei.
— Mora.
— Parece reservado.
Augusto soltou um som estranho.
Quase uma risada sem humor.
— Isso é uma forma de dizer.
Observei meu tio.
Algo não estava certo.
— Você não gosta dele.
Não era uma pergunta.
Era uma constatação.
Augusto me encarou.
— Nem todo mundo que vive nesta vila é boa companhia.
— Isso não respondeu minha pergunta.
— E nem precisava.
Franzi a testa.
A resposta me incomodou.
Porque não combinava com Augusto.
Meu tio costumava julgar as pessoas pelas atitudes.
Não por fofocas.
Não por aparências.
Mas naquele momento parecia diferente.
— O que ele fez?
Perguntei.
— Nada que interesse a você.
— Augusto.
— Helena.
O tom dele ficou firme.
— Deixe isso para lá.
Aquilo apenas aumentou minha curiosidade.
Voltei a olhar para Gabriel.
Ele continuava no mesmo lugar.
Mas agora conversava com outro homem.
Também alto.
Também moreno.
Os dois pareciam discutir algo sério.
Ou pelo menos conversar de forma reservada.
Não participavam da festa.
Não dançavam.
Não riam.
Não se misturavam às pessoas.
Pareciam pertencer a outro mundo.
Mesmo assim, em determinado momento, Gabriel levantou o olhar.
E me encontrou novamente.
Como se soubesse exatamente onde eu estava.
Como se me procurasse no meio da multidão.
Meu coração acelerou.
De novo.
Aquela sensação absurda voltou.
A impressão de que eu o conhecia.
Mesmo sem nunca tê-lo visto.
Desviei os olhos.
Mas alguns segundos depois olhei novamente.
E ele continuava me observando.
— Que homem estranho.
Murmurei.
— Concordo.
Respondeu Augusto.
Mas a forma como disse aquilo me fez acreditar que ele não estava falando da mesma coisa que eu.
A música aumentou.
As pessoas começaram a dançar quadrilha.
As crianças correram em direção à fogueira.
A festa ficou mais animada.
Mas minha atenção continuava escapando para o mesmo lugar.
Para a mesma árvore.
Para os mesmos olhos.
Em determinado momento, Gabriel e o outro homem começaram a se afastar.
Seguindo em direção à saída da praça.
Como se já tivessem visto o suficiente.
Como se não pertencessem àquele lugar.
Foi então que algo estranho aconteceu.
Gabriel parou.
Virou-se uma última vez.
E seus olhos encontraram os meus novamente.
Mesmo à distância.
Mesmo cercado por dezenas de pessoas.
Um arrepio percorreu minha espinha.
Porque naquele instante tive a estranha sensação de que ele queria se aproximar.
Mas estava se impedindo.
Como se existisse uma barreira invisível entre nós.
Então ele foi embora.
Desaparecendo na escuridão da estrada.
Durante o resto da festa tentei me divertir.
Conversei.
Sorri.
Dancei um pouco.
Mas a verdade é que parte de mim continuava pensando nele.
No homem dos olhos azuis.
No homem que apareceu primeiro em meus sonhos.
E depois diante dos meus olhos.
Mais tarde, já deitada na cama, fiquei olhando para o teto.
O som distante da música ainda chegava pela janela.
Mas meu pensamento estava longe.
Muito longe.
— Gabriel Ferraz.
Murmurei para mim mesma.
Experimentando o nome.
Como se ele carregasse algum significado escondido.
Naquele momento eu não sabia quase nada sobre ele.
Não sabia seus segredos.
Não sabia sua história.
Não sabia por que Augusto parecia desgostar dele.
Não sabia por que aqueles olhos tinham aparecido em meus sonhos.
Não sabia de absolutamente nada.
Mas uma coisa era certa.
A partir daquela noite, seria impossível esquecê-lo.