Capítulo 3

Quando penso naqueles primeiros dias em Serra da Lua, existe uma lembrança que continua viva dentro de mim.

Um sonho.

Na época achei que era apenas isso.

Um sonho estranho provocado pelo cansaço da viagem.

Hoje sei que não era tão simples.

Mas estou me adiantando.

Naquela manhã, eu ainda não fazia ideia do que estava acontecendo.

Acordei com o cheiro de café fresco invadindo o quarto.

Por alguns segundos fiquei olhando para o teto, tentando lembrar onde estava.

Então ouvi o cantar de um galo ao longe.

Sorri.

Serra da Lua.

Levantei da cama.

Abri a janela.

O sol já iluminava as montanhas.

O vento era fresco.

E pela primeira vez em muitos meses senti vontade de sair.

De caminhar.

De conhecer aquele lugar novamente.

Augusto já estava na cozinha.

Preparando café.

— Dormiu bem?

Perguntou.

— Melhor do que imaginei.

— Isso é porque aqui não existe buzina.

— Nem vizinhos brigando.

— Nem ex-marido enchendo a paciência.

Ri.

— Você sempre foi muito delicado.

— É um dom.

Depois do café, decidi explorar a vila.

As ruas eram simples.

Tranquilas.

As pessoas pareciam conhecer umas às outras.

Quase todo mundo cumprimentava quem passava.

Algo raro na cidade grande.

Entrei numa pequena papelaria.

Depois numa livraria modesta.

Comprei um caderno novo.

Talvez para escrever.

Talvez apenas por hábito.

Ainda não sabia.

Ao longo do dia ouvi várias histórias curiosas.

Moradores antigos.

Casos engraçados.

Lendas sobre as montanhas.

Nada muito diferente do que se espera de uma vila pequena.

Mas havia algo curioso.

Sempre que alguém mencionava as montanhas mais afastadas, a conversa mudava de assunto.

Como se existisse um acordo silencioso.

Uma regra não escrita.

Aquilo despertou minha curiosidade.

Mas não insisti.

Ainda não.

Quando voltei para casa, encontrei Augusto organizando algumas ferramentas.

— Então?

Gostou da vila?

— Muito.

— Eu sabia.

Sentei na varanda ao lado dele.

— É impressão minha ou todo mundo daqui adora uma lenda?

Augusto soltou uma risada.

— Você ainda não ouviu nem metade.

— Estou começando a ficar curiosa.

— Isso é perigoso.

— Curiosidade?

— Em Serra da Lua, sim.

Balancei a cabeça.

Achando que ele estava brincando.

Mas hoje, lembrando daquele momento...

não tenho tanta certeza.

Naquela noite fui dormir cedo.

O cansaço finalmente começava a me alcançar.

Mas o sono trouxe algo inesperado.

Um sonho.

Ou talvez um pesadelo.

No sonho eu estava sozinha.

Caminhando por uma floresta.

Tudo era escuro.

Silencioso.

Estranhamente silencioso.

Nem pássaros.

Nem vento.

Nem insetos.

Nada.

Apenas eu.

E a sensação constante de que não estava realmente sozinha.

Meu coração batia forte.

Mesmo sem saber por quê.

Então ouvi um galho quebrar.

Atrás de mim.

Virei rapidamente.

Não havia ninguém.

Continuei andando.

Até ouvir novamente.

Mais perto.

Mais alto.

O medo começou a crescer.

Subindo pelo meu peito.

Tomando conta de mim.

Foi então que o vi.

Entre as árvores.

Imóvel.

Observando.

Um lobo.

Enorme.

Muito maior do que qualquer lobo que eu já tinha visto.

Os pelos escuros pareciam se misturar à própria noite.

Mas não foram eles que me assustaram.

Foram os olhos.

Azuis.

Intensamente azuis.

Brilhantes.

Hipnotizantes.

Ele me observava.

Sem agressividade.

Sem pressa.

Como se me conhecesse.

Como se estivesse esperando por mim.

Tentei me afastar.

Mas minhas pernas não obedeciam.

Os olhos continuavam presos aos meus.

E, de alguma forma estranha, senti que existia tristeza naquele olhar.

Solidão.

Saudade.

Algo impossível de explicar.

Então o lobo começou a caminhar em minha direção.

Um passo.

Depois outro.

E outro.

Até que ficou tão perto que eu podia sentir sua respiração.

Seu calor.

Seu olhar.

E então...

ele se transformou.

A silhueta mudou.

Cresceu.

Tornou-se humana.

Mas antes que eu pudesse ver seu rosto...

acordei.

Sentei na cama ofegante.

O coração disparado.

O quarto estava escuro.

A lua entrava pela janela.

Passei a mão pelos cabelos.

Tentando me acalmar.

— Que sonho estranho.

Murmurei.

E realmente foi.

Porque, mesmo acordada, eu ainda conseguia lembrar daqueles olhos.

Azuis.

Profundos.

Impossíveis de esquecer.

Na manhã seguinte, Serra da Lua estava em festa.

Bandeirinhas coloridas decoravam as ruas.

Barracas estavam sendo montadas.

Música tocava ao longe.

O clima de São João tomava conta da vila.

E era impossível não se contagiar.

Até Augusto parecia animado.

— Hoje você vai conhecer a verdadeira Serra da Lua.

Disse ele.

— Estou começando a ficar preocupada.

— Deveria.

Ri.

Enquanto ele me entregava uma camisa xadrez.

— Vista isso.

— Nem pensar.

— Helena.

— Não.

— Helena.

— Não.

— Você usava quando era adolescente.

— Exatamente.

— E ficava bonita.

Suspirei.

— Está bem.

Mas só porque gosto de você.

Quando anoiteceu, a praça estava iluminada.

A fogueira já queimava.

As pessoas dançavam.

Conversavam.

Riam.

E por algumas horas consegui esquecer completamente o sonho.

Até aquele momento.

O momento que mudou tudo.

Eu estava observando a festa.

Sorrindo.

Quando senti uma estranha sensação.

Como se alguém estivesse me olhando.

Meu sorriso desapareceu.

Lentamente virei o rosto.

E então o vi.

Parado mais distante.

Próximo às sombras.

Observando a festa.

Observando a mim.

O mundo pareceu parar.

Porque mesmo à distância eu reconheci imediatamente.

Aqueles olhos.

Azuis.

Profundos.

Os mesmos olhos que tinham aparecido no meu sonho.

Meu coração disparou.

E por um instante tive a absurda sensação de que já conhecia aquele homem.

Mesmo sem nunca tê-lo visto antes.

E sem saber, naquele exato momento...

eu estava olhando para Gabriel Ferraz pela primeira vez.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App