Capítulo 2

Quando estaciono o carro diante da casa de Augusto, ainda consigo me lembrar da sensação que tive naquele momento.

Hoje, olhando para trás, parece uma cena simples.

Mas não foi.

Porque eu estava deixando para trás uma vida inteira.

E chegando a um lugar onde não fazia ideia do que me esperava.

Desliguei o motor.

Por alguns segundos permaneci sentada.

Observando a casa.

A varanda de madeira.

As roseiras que minha tia havia plantado muitos anos antes.

As montanhas ao redor.

Tudo parecia exatamente como eu lembrava.

E, ao mesmo tempo, completamente diferente.

Talvez porque eu tivesse mudado.

Talvez porque aquele lugar estivesse prestes a mudar minha vida.

A porta se abriu antes mesmo que eu pegasse a primeira mala.

— Helena!

Sorri imediatamente.

Augusto atravessou a varanda quase correndo.

Abriu os braços.

E me abraçou com força.

Daquele jeito que só as pessoas que realmente nos amam conseguem fazer.

Sem pressa.

Sem reservas.

Sem perguntas.

Apenas amor.

Fechei os olhos.

Sentindo o aperto daquele abraço.

E percebi uma coisa.

Eu estava cansada.

Mais cansada do que imaginava.

Talvez por isso quase chorei.

— Meu Deus.

Disse ele se afastando.

— Você está mais bonita do que eu lembrava.

Ri.

— Você está mentindo.

— Estou ficando velho, não cego.

Revirei os olhos.

Mas acabei rindo.

Pela primeira vez em muito tempo, uma risada verdadeira.

Augusto pegou minhas malas.

— Vamos.

Você deve estar exausta.

— Um pouco.

— Um pouco?

Você dirigiu o dia inteiro.

— Ainda estou viva.

— Milagre.

Entramos na casa.

O cheiro de café fresco me atingiu imediatamente.

E algo dentro de mim se aqueceu.

Lar.

Aquele lugar sempre teve cheiro de lar.

Passei os olhos pela sala.

Pouca coisa havia mudado.

As fotografias antigas continuavam sobre os móveis.

A mesma estante.

Os mesmos quadros.

As mesmas cortinas floridas.

Foi impossível não pensar na minha tia.

Ela havia falecido alguns anos antes.

E sua ausência ainda podia ser sentida.

Augusto percebeu meu olhar.

— Ela sentiria felicidade em ver você aqui.

Meu coração apertou.

— Eu sinto falta dela.

— Eu também.

Por alguns segundos o silêncio ocupou o ambiente.

Mas não era um silêncio triste.

Era cheio de lembranças.

Depois do jantar, nos sentamos na varanda.

O céu estava coberto de estrelas.

Muito mais estrelas do que eu conseguia ver na cidade.

O ar era fresco.

A noite tranquila.

Augusto balançava lentamente em sua cadeira.

Enquanto eu observava as montanhas.

Escuras.

Imensas.

Quase misteriosas.

— Elas continuam bonitas.

Comentei.

— As montanhas?

— Sim.

Ele sorriu.

— Dizem que elas têm personalidade.

Ri.

— Quem diz isso?

— Os moradores daqui.

— Claro.

— Não estou brincando.

Olhei para ele.

— Então me explique.

Augusto deu de ombros.

— Serra da Lua é um lugar cheio de histórias.

— Histórias?

— Lendas.

Casos antigos.

Mistérios.

Você sabe como cidades pequenas funcionam.

Aquilo imediatamente despertou minha curiosidade.

A escritora dentro de mim levantou a cabeça.

Mesmo que eu ainda não percebesse.

— Que tipo de histórias?

Augusto sorriu.

— Se eu contar tudo logo no primeiro dia, você não vai ter motivo para ficar.

Conversamos até tarde.

Sobre parentes.

Sobre a vila.

Sobre pessoas que eu conhecia quando era criança.

Algumas haviam se mudado.

Outras já tinham partido.

E algumas continuavam exatamente ali.

Como se o tempo não tivesse passado.

Mais tarde subi para o quarto.

O mesmo quarto onde eu costumava dormir durante as férias.

Fechei a porta.

Sentei na cama.

E finalmente fiquei sozinha.

O silêncio me envolveu.

Foi então que toda a coragem do dia começou a desaparecer.

Porque recomeçar parece bonito quando falamos sobre isso.

Mas na prática é assustador.

Muito assustador.

Você deixa para trás tudo o que conhece.

Mesmo aquilo que machuca.

Porque até a dor pode se tornar familiar.

Olhei para minhas malas.

Para minhas roupas.

Para o notebook fechado sobre a mesa.

E pela primeira vez me perguntei:

E agora?

O que eu faria da minha vida?

Levantei-me.

Abri a janela.

A lua iluminava parte das montanhas.

O vento entrou no quarto.

Suave.

Carregando o cheiro da terra.

Da vegetação.

Da noite.

Foi então que ouvi.

Um som distante.

Tão distante que quase pensei ter imaginado.

Um uivo.

Longo.

Profundo.

Estranho.

Fiquei imóvel.

Escutando.

Mas ele não se repetiu.

O silêncio voltou.

E eu balancei a cabeça.

Provavelmente algum cachorro.

Ou algum animal da região.

Fechei a janela.

Sem imaginar que aquele som voltaria muitas vezes à minha vida.

E que um dia eu descobriria exatamente de onde ele vinha.

Naquela noite adormeci acreditando que Serra da Lua seria apenas um refúgio.

Um lugar para descansar.

Para escrever novamente.

Para reconstruir meu coração.

Eu estava errada.

Porque aquela pequena vila escondida entre montanhas guardava segredos muito maiores do que eu poderia imaginar.

E, sem saber, eu já havia começado a caminhar em direção a eles.

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