Luna
Se alguém me perguntasse quando exatamente as coisas começaram a mudar, eu não saberia responder com precisão.
Não houve um gesto claro.
Nenhuma conversa definitiva.
Nenhum acontecimento óbvio.
Foi algo mais sutil.
Um deslocamento silencioso.
Depois do episódio no corredor, Marco passou a circular pela casa de um jeito diferente. Não se escondia, não evitava encontros, mas parecia sempre um passo à frente, como quem antecipa riscos antes mesmo que eles existam.
E eu comecei a notar os olhares.
Não os diretos, esses eram raros, calculados, breves demais para serem acusados de qualquer coisa. Eram os outros. Os que surgiam quando ele achava que eu não estava prestando atenção, os que pesavam mais do que perguntas.
Eu estava revisando medições na sala principal quando senti a presença dele antes mesmo de vê-lo.
Aquela sensação estranha de ar mudando, de espaço sendo ocupado de forma definitiva.
— Algum problema? — ele perguntou, encostado no batente da porta.
— Nenhum — respondi. —