Mundo ficciónIniciar sesiónO Ancião anunciou a festa três dias depois da cerimônia, e eu soube, no instante em que ouvi a notícia, exatamente o que aquilo era: uma tentativa desesperada de calar as fofocas, de fazer a alcateia esquecer rápido demais o que tinha acontecido na praça central. Chamaram de "Festa do Recomeço", como se um nome bonito pudesse apagar o que meu corpo ainda sentia toda vez que eu me movia depressa demais.
Fui, porque não ir seria mais suspeito do que qualquer outra coisa. Fui vestida com o mesmo cuidado de sempre, o cabelo solto do jeito que tinha adotado desde aquela noite, e caminhei ao lado do meu pai e de Maya até a praça, onde as fogueiras já ardiam altas e a alcateia inteira se reunia como se três dias fossem tempo suficiente pra esquecer. A música começou cedo, tambores e as vozes graves dos homens mais velhos entoando cantos antigos, e por toda parte havia comida, riso, corpos se movendo em dança ao redor do fogo. Ninguém olhava mais pra mim do jeito que tinham olhado nos dias anteriores. Isso, de alguma forma, doía quase tanto quanto os olhares de pena. Como se eu já fosse passado. Vi Kael de longe, uma vez, parado perto do próprio trono improvisado para a ocasião, o rosto sério demais para uma festa que devia ser dele por direito, como Alfa. Não nos olhamos. Achei melhor assim. Meu plano já estava formado havia dias, cada detalhe repassado tantas vezes na cabeça que eu quase conseguia sentir o caminho antes mesmo de dá-lo. Uma trouxa pequena escondida atrás de um tronco caído na borda da floresta, preparada na noite anterior enquanto meu pai dormia — roupas simples, um pouco de comida seca, a pouca prata que eu tinha conseguido guardar ao longo dos anos. Esperaria a festa alcançar o ponto mais alto, quando a atenção de todos estivesse voltada pras fogueiras e pra dança, e desapareceria then, sem escândalo, sem despedidas longas que pudessem chamar atenção. Só faltava uma coisa. Encontrei meu pai perto da mesa de comida, um copo na mão que ele mal tinha tocado, os olhos acompanhando Maya, que dançava desajeitada entre outras crianças, rindo de um jeito que eu não a via rir havia dias. Aproximei-me devagar, o coração já acelerado com o que estava prestes a fazer. — Pai. Ele se virou, e algo no meu rosto deve ter dito mais do que eu pretendia, porque a expressão dele mudou na hora, a preocupação de sempre voltando aos olhos cansados. — O que foi, filha? — Eu vou dar uma volta — falei, a voz mais firme do que eu sentia por dentro. — Só até a linha da floresta. Preciso de ar. Ele me estudou por um longo momento, e por um segundo tive certeza de que ele sabia. Não os detalhes, não o quanto — mas sabia, do jeito que pais sempre parecem saber quando algo importante está prestes a acontecer com os filhos, mesmo sem palavras. — Você quer que eu vá com você? — Não. — Balancei a cabeça, forçando um meio sorriso que devia parecer tão falso quanto se sentia. — Fica com a Maya. Ela está se divertindo. Eu volto logo. Ele assentiu devagar, ainda me olhando daquele jeito, e por um instante pensei em contar tudo ali mesmo — desistir do silêncio, jogar aos pés dele o plano inteiro e deixar que ele decidisse o que fazer com aquilo. Mas sabia que se fizesse isso, jamais conseguiria partir. Ele encontraria um jeito de me convencer a ficar, ou pior, insistiria em vir junto, colocando a própria segurança em risco por mim. — Cuidado lá fora — disse ele, por fim, a voz carregada de algo que eu só entenderia semanas depois: ele sabia. Talvez não os detalhes, mas sabia que aquela "volta rápida" não era o que parecia. — Eu sempre tenho cuidado. — Aproximei-me e o abracei, mais forte e mais longo do que um abraço de despedida qualquer deveria ser, tentando gravar o cheiro dele, o calor familiar dos braços que sempre souberam me proteger, mesmo quando não conseguiam proteger de tudo. — Eu te amo, pai. — Eu também te amo, filha. — Ele retribuiu o abraço, sem saber que era o último por muito tempo, e quando finalmente nos soltamos, seus olhos brilhavam com algo que eu escolhi não examinar de perto, com medo do que encontraria ali. Fui até onde Maya dançava e me abaixei pra ficar na altura dela, esperando um intervalo entre uma música e outra. — Se comporta, tá? — falei, ajeitando uma mecha de cabelo solta do rosto dela. — Escuta o papai. E a Nora, também. — Você não vai dançar comigo? — perguntou ela, fazendo bico, ainda sem entender nada do peso daquele momento. — Só mais tarde, amor. — Beijei sua testa, segurando as lágrimas que ameaçavam cair antes da hora. — Eu prometo. Era uma promessa que eu não sabia se conseguiria cumprir, mas foi a única coisa que consegui oferecer naquele instante, antes que a voz me traísse por completo. Levantei, olhei uma última vez para os dois — meu pai já de volta a observar Maya, um pequeno sorriso cansado no rosto, sem saber que aquela seria a última noite em muito tempo que veria a filha mais velha —, e me afastei devagar em direção à borda da praça, onde as sombras da floresta começavam. Ninguém notou quando desapareci entre as primeiras árvores. A música continuava, alta e viva, as fogueiras iluminando rostos que riam sem saber que, a poucos metros dali, eu recuperava a trouxa escondida atrás do tronco caído e, sem olhar para trás nem uma vez, começava a correr.






