Mundo ficciónIniciar sesiónEliz,
Passei dois dias sem sair do quarto, o corpo ainda dolorido de um jeito que eu não sabia se algum dia passaria por completo. Meu pai trazia comida até a porta, batia de leve, e ia embora sem insistir quando eu não respondia. Maya, no início, tentava entrar, mas depois do segundo dia parou de tentar também — acho que percebeu, do jeito que só crianças percebem certas coisas sem que ninguém precise explicar, que havia algo errado demais pra ser consertado com abraços. Foi Nora quem finalmente forçou a porta, no fim da tarde do terceiro dia, entrando sem pedir licença como sempre fazia, mas dessa vez sem o sorriso costumeiro, sem nenhuma leveza no rosto. — Chega — disse ela, sentando na beira da cama, onde eu continuava deitada, olhando pro teto como se ele tivesse alguma resposta que eu precisasse. — Você não pode ficar assim pra sempre, Liz. — Eu sei. — Sabe? — Ela ergueu uma sobrancelha, cética. — Porque não parece. Sentei devagar, o corpo ainda protestando com o movimento, e finalmente encarei a amiga que eu conhecia desde antes de conseguir me lembrar de qualquer outra coisa na vida. Havia algo decidido em mim havia horas, talvez desde a própria noite da cerimônia, algo que eu vinha adiando dizer em voz alta porque, uma vez dito, se tornaria real. — Eu vou embora, Nora. Ela ficou em silêncio por um momento longo demais, os olhos me estudando como se tentasse encontrar alguma brecha na minha voz, algum sinal de que aquilo era só a dor falando, não uma decisão de verdade. — Embora como? Pra onde? — Não sei ainda. — E era verdade. Eu não tinha mapa nenhum na cabeça, nenhum destino certo, só a certeza absoluta de que não conseguiria continuar em Vorden, vendo as mesmas ruas, o mesmo salão, talvez até o próprio Kael, todos os dias pelo resto da vida. — Mas eu não posso ficar aqui, Nora. Não depois disso. — E seu pai? E a Maya? — A voz dela subiu um pouco, não de raiva, mas de um medo genuíno que eu reconheci porque sentia o mesmo. — Liz, você vai simplesmente deixar eles? Foi ali que a voz me falhou pela primeira vez desde que tinha começado a falar. — Eu não quero. — As palavras saíram mais fracas do que eu pretendia, quase um sussurro. — Você não tem ideia do quanto eu não quero. Mas eu não posso levar eles comigo, não sei nem o que vou encontrar lá fora, não sei se vou conseguir sobreviver sozinha, quanto mais cuidando do meu pai e de uma criança de oito anos ao mesmo tempo. Nora ficou quieta, os olhos brilhando com lágrimas que ela ainda não deixava cair, e eu soube, pelo jeito como ela apertou os lábios, que ela já entendia o que eu estava prestes a pedir antes mesmo de eu dizer. — Eu preciso que você cuide deles — falei, finalmente, a frase que vinha ensaiando havia dias, mesmo sem admitir a mim mesma que estava ensaiando. — Não pra sempre, eu... eu não sei quanto tempo vou ficar fora. Mas preciso saber que alguém vai estar de olho. Que meu pai não vai ficar sozinho demais, que a Maya vai ter alguém além dele pra conversar, pra rir, pra ser criança. — Liz... — Por favor. — Segurei as mãos dela, do jeito que fazíamos desde crianças, mas dessa vez foi eu quem apertou mais forte, como se pudesse transmitir através daquele gesto tudo que não conseguia dizer em palavras. — Eu não tenho mais ninguém além de você pra pedir isso. E eu sei que é muito. Eu sei que não é justo pedir isso de você. Mas eu não vou conseguir partir se não souber que eles estão bem cuidados. Nora chorou, finalmente, as lágrimas que vinha segurando escorrendo livres agora, e por um longo momento nenhuma das duas disse nada, só ficamos ali, mãos entrelaçadas, o peso do que estava sendo pedido e do que estava sendo prometido pairando entre nós sem precisar de mais palavras. — Eu vou cuidar deles — disse ela, por fim, a voz embargada mas firme. — Você não precisa nem pedir, Liz. Eles são praticamente minha família também. Sempre foram. — Obrigada. — A palavra parecia pequena demais pro tamanho do que eu sentia, mas era tudo que eu tinha pra oferecer naquele momento. — Eu vou voltar. Não sei quando, mas eu vou voltar. — E se o Kael... — Isso não importa mais — cortei, mais rápido do que pretendia, porque a verdade era que eu não sabia se conseguiria terminar aquela frase sem que a voz falhasse de novo. — Ele fez a escolha dele. Diante de todo mundo. Eu só preciso descobrir quem eu sou longe daqui, longe de ser a garota que ele rejeitou. Nora assentiu devagar, limpando o rosto com as costas da mão, e depois me puxou pra um abraço apertado, do tipo que a gente só dá quando sabe que uma despedida de verdade está próxima, mesmo que nenhuma das duas quisesse admitir isso em voz alta ainda. — Quando? — perguntou ela, baixinho, contra meu ombro. — Em breve. — Fechei os olhos, sentindo o cheiro familiar do cabelo dela, tentando gravar aquele momento como quem grava algo que sabe que vai precisar lembrar por muito tempo. — Antes que eu perca a coragem. Ela se afastou o suficiente pra me olhar nos olhos, séria agora, o tipo de seriedade que Nora raramente mostrava. — Então vai. Mas vai sabendo que vai ter uma casa pra voltar, Liz. Sempre vai ter. Eu não confiava mais em muitas coisas naquele momento — não confiava na alcateia, não confiava no próprio coração, que insistia em doer por um homem que nunca me quis de verdade. Mas confiava nela. Sempre tinha confiado. E foi com aquela certeza, pequena mas sólida, que finalmente comecei a me preparar pra partir.






