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Capítulo 8 — Entre as Árvores

Kael,

Percebi a ausência dela antes de perceber que estava procurando.

Foi um daqueles instantes bobos, quase automáticos — meus olhos varrendo a praça sem intenção real, só o hábito antigo de anos observando de longe, e de repente notando que a mancha de cabelo escuro que eu vinha evitando olhar diretamente a noite toda não estava mais em lugar nenhum. Procurei entre os grupos que dançavam perto do fogo, entre os que comiam nas mesas improvisadas, entre as sombras próximas às casas. Nada.

Talvez fosse só isso — ela cansada da festa, voltando pra casa mais cedo, o que seria compreensível depois de tudo. Mas havia algo na postura do pai dela, um jeito tenso demais de observar Maya dançar, que me fez desconfiar de que não era tão simples assim.

Não decidi ir atrás dela de forma consciente. Um momento eu estava parado perto do trono improvisado, tentando parecer o Alfa que a alcateia precisava ver naquela noite, e no seguinte já estava andando em direção à borda da praça, o corpo se movendo antes que a mente terminasse de justificar o motivo.

A linha da floresta começava logo depois das últimas casas, escura o suficiente pra engolir qualquer vestígio de luz das fogueiras. Entrei sem pensar duas vezes, os olhos ainda se ajustando à escuridão, o faro tentando captar algo familiar entre o cheiro pesado de pinheiro e terra úmida.

Encontrei o rastro dela mais rápido do que esperava — um cheiro fraco, mas inconfundível, seguindo em direção mais funda da mata, longe do caminho que qualquer um usaria pra "dar uma volta" antes de voltar pra festa.

— Eliz?

Minha própria voz soou estranha no silêncio da floresta, mais insegura do que eu pretendia. Não houve resposta, só o som distante da festa ainda ecoando atrás de mim, cada vez mais fraco a cada passo que eu dava mata adentro.

— Eliz, eu sei que você está aqui.

Nada. Continuei andando, seguindo o rastro que ficava mais fraco a cada minuto, como se ela estivesse se afastando mais rápido do que eu conseguia acompanhar — ou como se estivesse parada em algum lugar, escondida, esperando que eu desistisse e fosse embora.

— Eu só quero conversar. — Parei no meio de uma clareira pequena, girando devagar, tentando captar qualquer movimento entre as sombras das árvores ao redor. — Eu sei que eu não mereço isso, sei que você tem todo direito de nunca mais querer olhar na minha cara. Mas por favor, só... me deixa dizer algumas coisas.

O silêncio continuava, quebrado apenas pelo vento leve balançando os galhos mais altos.

— Eu não vim aqui pra te machucar de novo. — A voz me falhou um pouco naquela frase, e percebi, tarde demais, o quanto aquilo soava vazio depois de tudo que já tinha feito. — Eu sei que eu já fiz isso o bastante. Eu só... eu preciso que você saiba que eu não queria que fosse assim.

Foi então que ouvi — quase nada, apenas o farfalhar mais leve de folhas secas, vindo de algum ponto à minha esquerda, perto de um conjunto denso de arbustos baixos. Girei rápido demais, o instinto de caçador tomando conta antes que eu conseguisse me conter, e por um instante achei que a tinha encontrado.

Mas era só um coelho, disparando assustado pra longe, o coração dele — eu quase conseguia ouvir — batendo tão forte quanto o meu.

— Eliz. — Minha voz saiu mais alta agora, mais desesperada do que eu gostaria de admitir. — Por favor. Eu sei que você está com raiva. Eu estaria também. Mas não é seguro você andar sozinha por aqui, ainda mais à noite, ainda mais...

Parei a frase antes de completar, percebendo o quanto soava condescendente, o quanto ainda insistia em tratá-la como algo frágil que precisava de proteção, quando na verdade a única coisa da qual ela precisava de proteção, naquele momento, era de mim mesmo.

Continuei andando, mais devagar agora, os olhos vasculhando cada sombra, cada tronco caído que pudesse esconder alguém pequena o suficiente pra se fazer invisível se quisesse. Em algum momento cheguei perto — mais perto do que eu saberia até muito depois — de uma velha árvore caída, coberta de musgo, onde ela estava encolhida do outro lado, a respiração contida, o corpo pressionado contra a madeira fria.

Eu não a vi. Passei a menos de três metros de distância, tão perto que talvez, se ela tivesse respirado um pouco mais forte, eu teria ouvido. Mas não ouvi. Continuei seguindo o rastro que já se confundia com o cheiro da própria floresta, cada vez mais difícil de distinguir.

— Eliz, se você está me ouvindo... — Parei de novo, dessa vez mais cansado, a urgência dando lugar a algo mais próximo do desespero silencioso. — Eu sei que eu não tenho direito de pedir nada. Mas eu vou continuar tentando consertar isso. De algum jeito. Eu prometo.

Não houve resposta. Fiquei ali por um longo momento, a respiração pesada, sentindo pela primeira vez o quanto aquela floresta parecia maior, mais vazia, do que jamais tinha parecido em qualquer caçada da minha vida.

Por fim, desisti. Ou talvez não tenha sido bem desistência — apenas a aceitação lenta de que ela não queria ser encontrada, e que continuar procurando seria apenas outra forma de desrespeitar o pouco que ainda podia oferecer a ela: a escolha de ficar sozinha, se era isso que precisava.

Voltei pra festa devagar, o som dos tambores ficando mais alto a cada passo, o calor das fogueiras contrastando com o frio que parecia ter se instalado em algum lugar dentro do peito. Ninguém pareceu notar minha ausência — a festa continuava viva, alheia ao que tinha acabado de acontecer nas sombras da floresta que a cercava.

Não sabia, enquanto retomava meu lugar perto do trono, forçando um rosto calmo que não sentia por dentro, que aquela tinha sido a última chance real de impedir o que estava por vir.

Não sabia, enquanto retomava meu lugar perto do trono, forçando um rosto calmo que não sentia por dentro, que a menos de três metros de onde eu tinha passado minutos antes, encostada numa árvore caída, alguém prendia a respiração até meus passos sumirem de vez na distância.

Eliz esperou em silêncio, o corpo tenso contra a árvore caída, até que os passos dele se afastassem por completo, até que a voz dele sumisse na distância junto com o som da festa.

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