Uma manhã de café e confusão...

Brianna

— Bom dia! — Ares disse, com voz baixa e firme.

Todos responderam.

Menos eu, porque eu não estava na mesa. Eu estava atrás da porta que ligava a sala à cozinha, limpando as mãos em um pano, mas pude escutá-lo mesmo assim, com seu tom mais alto.

— Onde está Brianna? — ele perguntou, claramente irritado.

A governanta, feliz por ter algo a relatar, ergueu o queixo.

— O senhor quer dizer a ajudante de cozinha? Mandei vir preparar as bandejas há pouco. Ela deve estar na cozinha.

— Ajudante de cozinha? — Ares repetiu, como se o ar tivesse ficado tóxico.

— Ela — ele prosseguiu, a voz ficando mais profunda — não é ajudante de cozinha. Ela é minha esposa..

A governanta empalideceu de um jeito impressionante., pude ver quando ela entrou na cozinha envergonhada seu semblante.

Ares não esperou explicações.

Ele simplesmente saiu da sala de jantar com passos pesados,eu podia escutar, empurrou a porta da cozinha e me encontrou com as mãos ocupadas, segurando um pote de geleia.

— O que você está fazendo aqui? — ele perguntou, a voz ainda carregada da tempestade que ele trouxe consigo.

— Ajudando — respondi, simples. — Ela achou que eu era...

— Eu ouvi. — Ele respirou fundo, fechando os olhos por um instante. — Vem comigo.

— Ares, calma— Mas ele já tinha segurado minha mão e me puxava com firmeza, mas sem agressividade. Ele só… queria me tirar dali. Como se o ambiente me ofendesse.

Entramos novamente na sala de jantar e o olhar de todo mundo pousou em mim. Um peso que quase me fez vacilar, mas Ares puxou a cadeira ao lado dele, e isso me deixou aliviada.

— Sente-se — disse, mais como ordem do que pedido.

Me sentei. A avó dele se inclinou levemente.

— Minha querida, — ela começou, com a voz doce demais para ser verdadeira — você está casada com um Sins. Não deve permitir que tratem você como funcionária dessa casa.

Havia crítica no ar. Sutil. Mas afiada.

Eu respirei devagar.

— Com todo respeito, senhora — comecei — Ajudar não é vergonhoso para mim. A governanta não sabia quem eu era. E mesmo que soubesse, o trabalho não diminui ninguém.

Ela me analisou como se eu fosse algo fora do lugar.

— Talvez onde você cresceu — disse calmamente. — Aqui, há papéis. Funções. Limites.

Ah.Então era isso. Ares se mexeu ao meu lado, tenso. Mas eu toquei sua mão por baixo da mesa ,só um leve toque e ele se acalmou instantaneamente.

— Eu entendo que essa casa tem regras — respondi — mas eu tenho princípios. E neles, ninguém é melhor que ninguém por causa de um sobrenome.

O ar ficou pesado. Quente. A avó sorriu, mas de forma fria e sarcástica.

— Isso é admirável. — Ela mentiu lindamente. — Mas, se deseja viver aqui, terá que aprender como funcionamos.

Eu sorri também. Mas meu sorriso tinha espinhos.

— Então a senhora terá muito trabalho tentando me ensinar.

A prima pigarreou. A filha dela riu alto, sem entender nada, apenas feliz por ver adultos tensos.

Ares? Ares olhava para mim como se eu tivesse acabado de derrubar um castelo com as próprias mãos.

E talvez eu tivesse mesmo. Mas eu não seria diminuída. Não ali. Não mais. Enquanto o café era servido, a sensação que crescia dentro de mim era clara:

A avó de Ares não gostava de mim. E o pior?

Eu tinha certeza de que ela faria algo a respeito.

Depois do café da manhã, eu estava com a cabeça tão cheia que precisava respirar. A mesa tinha sido um campo de guerra silencioso, a avó dele olhando para mim como se eu tivesse manchas no rosto, a prima tentando disfarçar o desconforto e Ares com aquele olhar de se alguém falar mais uma palavra, eu explodo.

Saí assim que a mesa foi liberada, murmurando algo sobre dar uma volta. Eu precisava de ar. De espaço. Da ilusão de que eu podia pertencer ali, mesmo que uma parte de mim gritasse que não.

O jardim da mansão era imenso. Duas fontes, um caminho de pedras claras, flores de todos os tipos e aromas. Parecia cenário de filme. Sentei-me perto de um canteiro de lavanda e passei os dedos sobre as hastes finas. O cheiro me acalmava.

Foi quando ouvi passos rápidos nas pedras.

— Bom dia! — uma voz masculina chamou atrás de mim, animada e educada.

Virei-me.

Um rapaz jovem, talvez vinte e poucos anos, pele bronzeada pelo sol, um sorriso simpático, luvas de jardinagem ainda sujas de terra. Olhos castanhos claros, gentis.

— Bom dia — respondi, retribuindo o sorriso.

— Você deve ser a senhora Sins — ele disse, ajeitando a camiseta, um pouco nervoso pela formalidade. — Sou Theo. Jardineiro daqui. Desculpe a intromissão, só queria me apresentar. É bom ter alguém novo na casa.

Alguém novo na casa?

A frase era simples, mas me aqueceu. Pela primeira vez desde que cheguei, alguém falava comigo sem medir classe social, sem estudo, sem sobrenome. Apenas de forma acolhedora e também sem diminuir quem eu era.

— Obrigada, Theo — sorri. — Pode me chamar de Brianna, não precisa de formalidade.

— Então tá, Brianna. Se precisar de alguma flor, alguma coisa aqui no jardim, posso te mostrar. Tem muita coisa bonita.

Ele se aproximou um pouco mais, abaixou-se para separar um ramo de flores azuis intensas, quase elétricas.

— Essas aqui combinam com você — ele disse. — São delicadas, mas fortes. Crescem em qualquer solo.

Senti meu rosto esquentar, fiquei um pouco incomodada.

Não pelo flerte — porque não havia flerte. Era apenas gentileza.

Mas eu não estava acostumada a ser tratada com gentileza.

— Obrigada, são lindas — respondi.

— Posso fazer um arranjo se...

continua...

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