Nosso primeiro beijo...

Brianna

Quando entramos no quarto, ficamos em silêncio, mas não era um silêncio desconfortável. Era como se cada passo ecoasse uma promessa que nenhum de nós ousava colocar em palavras. Ares caminhou até o lado dele da cama, tirou apenas a camisa, e desviar o olhar foi inevitável. Ele era demais. Em tamanho, em presença, em tudo.

Deitei-me primeiro, puxando o lençol com um pouco de nervosismo. Ele aguardou, como se esperasse um sinal meu, e só então se deitou ao meu lado. A cama pareceu diminuir no instante em que ele se aproximou.

Quando seu braço passou ao redor da minha cintura, meu corpo inteiro ficou rígido por reflexo.

— Assim está bom? — ele perguntou, a voz baixa, quente, tão perto que senti o sopro do ar na minha nuca.

Assenti, mesmo sentindo minhas bochechas queimarem.

Ele percebeu. Claro que percebeu.

Com delicadeza, aproximou-se mais, mas devagar, muito devagar, até que seu peito encostou nas minhas costas. E algo dentro de mim acalmou. Como se aquele espaço sempre tivesse esperado por ele.

Respirei fundo e relaxei, sem perceber.

— Melhor. — sussurrei.

Senti um sorriso se formar contra meus cabelos.

Depois de alguns minutos abraçados, ele trouxe a mão até meu ombro e começou a alisar meus fios ainda úmidos, devagar, do jeito que minha avó fazia para eu dormir. Meus olhos foram se fechando sozinhos, mas antes que caíssem de vez, virei o rosto para ele.

E no exato segundo em que virei, ele também inclinou o dele.

Nossas respirações se misturaram.

Ares afastou apenas dois dedos de distância. Eu senti o ar preso no meu peito.

Ele poderia ter me beijado. Eu sabia que ele queria. Eu queria também.

Mas ele parou.

— O nosso primeiro beijo… — murmurou, passando o polegar de leve na minha bochecha, quase sem tocar —Vem de você. A não ser que você peça para eu te beijar.

Meu rosto pegou fogo.

— Eu— engoli seco. — Eu não sei se consigo.

Ele sorriu. Um sorriso tão bonito e tão seguro que me desmontou.

— Tudo bem. Não precisa ser hoje.

Ficamos assim, encarando um ao outro, silenciosos, tão próximos que eu podia contar cada fio da barba dele.

Então, de repente, ele fechou os olhos.

E dormiu. Assim. Do nada.

Ares, o homem que parecia feito de aço, simplesmente desabou nos meus braços, com a respiração profunda e tranquila. E eu fiquei ali, observando ele dormir como se fosse proibido piscar.

Uma mecha caiu sobre a testa dele. Toquei sem pensar. Ele não reagiu.

Sorri.

E antes que a coragem evaporasse, aproximei meu rosto e beijei devagar a bochecha dele. Um beijo leve, quase um segredo.

Foi aí que ele se mexeu.Virou o rosto na minha direção.E meus lábios encontraram os dele.

O choque foi suave, quente, inesperado. Eu arfei, surpresa, mas Ares não se moveu — dormia profundamente, mas seus lábios pressionaram os meus por reflexo, como se meu toque o chamasse na inconsciência.

Meu coração quase saiu pela boca.

Quando me afastei, ele abriu um único olho. Sonolento. Perigoso. Lindo.

— Isso conta como você me beijando — ele murmurou, a voz rouca de sono.

Eu escondi o rosto nas mãos, morrendo de vergonha.

Ele então me beijou de forma lenta, intensa e chupou minha língua e depois ele riu baixinho, me puxou de volta para o peito dele e sussurrou junto ao meu ouvido:

— Boa noite, esposa.

E dessa vez, adormecemos juntos.

O primeiro beijo e nossa primeira noite de sono compartilhado de uma vida que eu nunca imaginei para mim.

Quando acordei, na manhã seguinte, a primeira coisa que senti foi o calor firme e familiar que me envolvia pela cintura. Ares. A respiração dele batia na minha nuca de maneira tão tranquila que parecia quase impossível imaginar que poucas horas antes eu estava enfiada em um nó de nervosismo, dúvidas e desejo.

Meu corpo ainda lembrava do beijo.

Ou melhor,dos dois. O sem querer. E o que veio logo depois, quando ele me puxou para perto, como se eu fosse dele desde sempre.

Sorri como uma idiota por alguns segundos. Mas o sorriso sumiu quando percebi que se eu continuasse ali, grudada nele, jamais criaria coragem de levantar. E eu precisava levantar.

Respirei fundo, ergui devagar o braço dele que pesava como uma barra de ferro sobre minha cintura e escapei, pé ante pé, sem fazer barulho.

Ares nem se mexeu.

Claro. O homem dormia como uma montanha: imóvel, impassível, impossível de acordar.

Peguei algumas roupas, fugi para o banheiro e me arrumei. Escolhi algo simples: uma calça jeans clara, camiseta branca e o cabelo preso em um rabo de cavalo rápido. Nada que chamasse atenção. Eu não queria causar impressão nenhuma naquela casa enorme que parecia viver em um padrão que eu não alcançava.

Quando terminei, vi que ainda eram seis e meia da manhã.

Abri a porta devagar e desci as escadas na ponta dos pés. A casa estava silenciosa, exceto por barulhos distantes de panelas, alinhados com um ritmo profissional demais para ser casual. Era a cozinha e eu segui os sons.

Quando empurrei a porta, encontrei quatro pessoas trabalhando em sincronia: dois cozinheiros, um auxiliar e uma senhora de postura rígida, olhar afiado e coque impecável. Governanta. Não precisava perguntar.

Ela me viu, ergueu uma sobrancelha e suspirou como quem finalmente encontrou o que procurava.

— Ah, até que enfim — disse, erguendo o queixo. — Você deve ser a nova ajudante da cozinha. Precisa organizar a bandeja principal com frutas, pães e geleias. Rápido. O café deve estar na mesa em trinta minutos.

Eu abri a boca.Fechei. Tive que respirar antes de responder.

— Eu? — comecei. — Na verdade... — Sem explicações. — Ela cortou com frieza. — Se foi contratada, trabalhe. Se não foi, deveria ter sido. Vamos logo, menina.

Menina? Nossa. Mas de todas as coisas que ouvi na vida, essa aí nem imaginava.

E havia algo naquele ambiente que me trazia uma paz boa. Familiar. Caseira. Uma lembrança distante de quando eu ajudava minha avó a preparar café simples com pão na chapa para vender, ou quando ela era cozinheira de uma família rica que morava perto do Ares e do Davi.

Então eu simplesmente sorri, dei de ombros e fui.

Peguei a bandeja, arrumei frutas, cortei pães, organizei tudo como se fosse para minha própria padaria. Os cozinheiros reparavam, cochichavam entre si, mas no fim começaram a me pedir ajuda também. E eu ia, rápida, precisa, porque fazer comida sempre foi meu lar.

Quando terminamos, a mesa estava linda.A governanta olhou, avaliou e quase sorriu.

— Hum. Nada mal para alguém nova — murmurou.

Foi o maior elogio que eu receberia dela, era o que eu acreditava. Mas a porta se abriu atrás de nós. E o clima mudou.

Ares entrou na sala de jantar com o rosto fechado. Muito fechado. Como se tivesse acordado e percebido que o travesseiro preferido dele tinha fugido.

A avó dele já estava à mesa, muito elegante para alguém que parecia ter saído da cama há pouco tempo. Usava joias reais, cabelo preso em um coque elegante e postura de quem governava reinos, não casas. Ao lado dela estava a prima do Ares e a pequena sobrinha dele, sorridente, balançando as perninhas.

Continua...

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