Cap 4

Crystal Dixson

Nem sei como consegui chegar em casa. A conversa com a minha madrasta ainda se repetia na minha mente desde aquela manhã.

Como o meu pai pôde fazer isso comigo? Eu também sou filha dele.

No caminho para casa, tentei falar com ele. Mandei mensagens, mas não obtive nenhuma resposta. Liguei várias vezes, porém todas as chamadas caíram direto na caixa postal.

Meu pai estava me evitando.

O que significava que a minha madrasta não havia mentido.

O jeito vai ser mesmo usar o seguro de vida da mamãe. Não vou mais tentar qualquer contato com o meu pai. Não vale a pena insistir em alguém que claramente já fez a sua escolha.

Entro novamente no aplicativo do banco e transfiro o valor da mensalidade da universidade.

Por enquanto, vou manter isso em segredo. Não quero preocupar a Gina. Vou terminar este semestre e depois vejo o que faço.

Quando chego em casa, deixo minhas coisas no quarto e saio para buscar o Jorge no pet shop.

Eu o havia deixado lá ontem à tarde para tomar banho, fazer tosa e participar de uma festa do pijama para cães.

Pois é...

Até o meu cachorro tinha uma vida social mais agitada do que a minha.

Nem faço ideia de qual seja a raça dele.

O Jorge é pequeno, peludo e extremamente carismático. Eu o encontrei revirando algumas latas de lixo pouco tempo depois de chegar a Nova York.

Foi amor à primeira vista.

Trouxe-o para casa e, desde então, ele se tornou o meu xodó... e também o da Gina.

Enquanto caminho pelas ruas movimentadas, tenho a impressão de estar sendo observada.

Olho discretamente para os lados, mas não vejo nada fora do normal.

Sei lá...

Acho que aquele encontro com o homem misterioso me deixou um pouco paranoica.

Crystal_ Oi, meu amor! A mamãe chegou!

Falo assim que a funcionária me entrega um Jorge limpinho e muito perfumado.

Ele late animado e começa a lamber o meu rosto, arrancando um sorriso sincero de mim.

Pago a simpática funcionária, agradeço pelo excelente atendimento e volto para casa com o meu doguinho todo feliz, caminhando ao meu lado preso à coleira.

Mais uma vez, tenho a sensação de que alguém está me observando.

Olho para trás.

Nada.

Talvez fosse apenas coisa da minha cabeça.

Como moro perto do pet shop, logo estou entrando em casa.

Retiro a coleira do Jorge, e ele dispara para a sua vasilha de ração na área de serviço.

Eu subo para o quarto, tomo um banho e depois desço para preparar alguma coisa para comer.

A Gina chega justamente quando estou terminando um espaguete à carbonara.

Ela sorri e inspira profundamente, apreciando o aroma.

Gina_ Nossa! Que cheiro maravilhoso! Minha barriga até roncou.

Crystal_ É espaguete à carbonara.

Gina_ E tem para mim também?

Crystal_ Claro que tem. Se eu não cozinhar para você, a senhorita vive à base de fast-food.

Gina_ Amiga, você é a única que sabe cozinhar nesta casa. Eu sou prática. Um lanche rápido e pronto.

Crystal_ Eu sei muito bem disso. Por isso vive se matando na academia para compensar todos os hambúrgueres que come.

Ela dá de ombros e vai lavar as mãos.

Gina_ Primeiro, até parece que você também não come hambúrguer. Segundo, nós, meras mortais, não temos essa sua genética perfeita. Precisamos sofrer na academia para conseguir uma bunda bonita.

Caio na gargalhada quando ela vira de costas, dá um tapinha no próprio bumbum e faz pose.

Crystal_ Claro que eu como hambúrguer... e batata frita também. Sou americana, afinal. Você sabe que essa é praticamente a nossa comida oficial. Agora, essa história de genética perfeita, não faço ideia de onde você tirou.

Gina_ Amiga, você é linda. Sério. Mesmo que tente ficar feia, não consegue. Apesar de viver escondida atrás dessas roupas enormes, já te vi trocar de roupa vezes suficientes para saber que você tem um corpo maravilhoso. Eu morro de inveja. Como consegue ter essas curvas sem nunca pisar em uma academia?

Sorrio divertida.

Crystal_ Olha... de uma coisa eu tenho certeza.

Gina_ O quê?

Crystal_ Você nunca vai conseguir ser falsa.

Gina_ Nunca.

Ela confirma, sorrindo.

Crystal_ E, só para constar, eu gosto das minhas roupas. Elas são confortáveis.

Gina_ Confortáveis, sim. Mas não valorizam você. Pensa comigo: vestida desse jeito você já conquistou o capitão do time de hóquei. Imagina se resolvesse se produzir um pouquinho mais?

Paro de servir o espaguete e a encaro com uma sobrancelha arqueada.

Crystal_ De quem você está falando?

Gina_ Do Justin. Esqueceu que eu comentei sobre ele mais cedo?

Crystal_ Você só disse que ele perguntou por mim, não que eu tivesse conquistado alguém.

Ela leva uma garfada à boca e fecha os olhos por um instante, apreciando a comida.

Gina_ Meu Deus... isso está maravilhoso.

Dou uma risadinha.

Crystal_ Fico feliz que tenha gostado.

Ela continua comendo, mas um sorrisinho suspeito surge em seus lábios.

Estreito os olhos imediatamente.

Crystal_ Eee... já não estou gostando dessa cara.

Ela tenta disfarçar, mas é tarde demais.

Crystal_ Quando você me chama de "Crystalsinha" ou faz essa cara de santa, é porque aprontou alguma.

Ela ri, totalmente sem graça.

Gina_ Tá bom... eu confesso.

Cruzo os braços.

Crystal_ Estou ouvindo.

Ela respira fundo antes de soltar a bomba.

Gina_ Eu... meio que marquei um encontro para você com o Justin.

A comida que eu havia acabado de engolir parece descer pelo lugar errado.

Começo a tossir sem parar.

Assustada, Gina corre até a geladeira, pega um copo de água e o coloca em minhas mãos.

Bebo tudo de uma vez e só então consigo respirar normalmente.

Olho para ela completamente incrédula.

Crystal_ Você fez o quê?

Ela sorri daquele jeito inocente que não convence ninguém.

Gina_ Amiga... você sabe que o Kellan está na corda bamba no time depois que faltou àquele jogo importante para me acompanhar no hospital.

Faço sinal para que ela continue.

Gina_ O Justin disse que, se eu conseguisse um encontro com você, daria uma moral para o Kellan. Ia falar bem dele para o treinador e tentar ajudá-lo a recuperar a confiança da equipe.

Cruzo os braços.

Crystal_ Então você me usou como moeda de troca?

Seu sorriso desaparece.

Gina_ Não fala assim... É só um encontro.

Ela se aproxima e segura minha mão.

Gina_ Além disso, você precisa sair um pouco. Conhecer gente. Viver.

Retiro delicadamente minha mão da dela.

Crystal_ Quem disse que eu não estou vivendo?

Ela suspira.

Gina_ Crystal... você tem dezenove anos.

Levanta um dedo.

Gina_ Só beijou um garoto na vida inteira.

Levanta outro.

Gina_ E isso já faz anos.

Reviro os olhos.

Crystal_ A vida é muito mais do que garotos, sabia?

Ela ri.

Gina_ Como você sabe? Você passa o tempo livre inteiro trancada em casa com a cara enfiada nos livros.

Olho para o meu prato quase cheio.

Na verdade...

Ela não estava totalmente errada.

Solto um longo suspiro de rendição.

Crystal_ Está bem... você venceu.

Ela abre um sorriso enorme.

Crystal_ Eu vou nessa bendita festa com o Justin.

Ela praticamente comemora.

Crystal_ Mas não espere que aconteça alguma coisa. Já falei que esses garotos da universidade não fazem o meu tipo.

Gina_ Amiga... o seu tipo simplesmente não existe.

Dou uma risadinha.

Crystal_ Você que pensa.

Ela para imediatamente o que estava fazendo.

Os olhos se estreitam em minha direção.

Gina_ Como assim?

Dou de ombros.

Crystal_ Conhecer, conhecer... não.

Faço uma pequena pausa, lembrando daqueles olhos cor de mel.

Crystal_ Mas hoje eu vi um homem que realmente chamou a minha atenção.

Ela arregala tanto os olhos que quase começo a rir.

Gina_ Ah, é?

Larga o prato dentro da pia e corre para sentar novamente ao meu lado.

Gina_ Agora você vai me contar absolutamente tudo.

Rio da empolgação dela.

Crystal_ Não tem muito o que contar.

Crystal_ Eu derramei café na roupa dele hoje, na cafeteria.

Crystal_ Acho que estava só de passagem, porque nunca o vi por lá antes.

Ela apoia o queixo nas mãos.

Gina_ Ele era bonito?

Sorrio involuntariamente.

Crystal_ O homem mais bonito que eu já vi.

Ela leva a mão ao peito dramaticamente.

Gina_ Meu Deus...

Gina_ Crystal Dixson acabou de achar um homem de verdade bonito?

Começa a bater palminhas.

Gina_ Esse dia precisava entrar para a história!

Caio na gargalhada.

Crystal_ Está vendo?

Crystal_ Eu não fico idealizando homens que não existem.

Ela se aproxima ainda mais.

Gina_ Então descreve esse monumento para mim.

Crystal_ Lembra daquele filme 365 Dias que assistimos na N*****x?

Ela sorri imediatamente.

Gina_ Claro.

Gina_ Você praticamente me obrigou a assistir porque era baseado em um livro de máfia que já tinha lido.

Ela abana a mão.

Gina_ Mas confesso que valeu a pena.

Gina_ Michele Morrone é um verdadeiro espetáculo.

Dou um sorriso divertido.

Crystal_ Então...

Crystal_ O homem da cafeteria se parece muito com ele.

Ela arregala novamente os olhos.

Gina_ Muito?

Crystal_ Muito.

Dou uma pequena risada.

Crystal_ Mas, sinceramente...

Crystal_ Acho que ele é ainda mais bonito.

Gina_ Nossa...

Crystal_ Os olhos dele são lindos.

Crystal_ Um tom de mel que eu nunca tinha visto antes.

Ela balança a cabeça, desacreditada.

Gina_ Agora só falta dizer que ele era alto...

Olha para mim.

Gina_ Muito alto...

Faz outra pausa.

Gina_ E muito musculoso.

Não consigo evitar o sorriso.

Crystal_ Acertou.

Ela começa a rir.

Gina_ Tem certeza de que não está descrevendo um dos seus personagens literários?

Balanço a cabeça negativamente.

Crystal_ Acredite em mim.

Crystal_ Nenhum personagem que já li chega aos pés dele.

Ela coloca a mão no coração de forma dramática.

Gina_ Meu Deus!

Gina_ Amanhã vou chegar mais cedo na cafeteria só para conhecer esse deus grego.

Dou uma pequena risada.

Crystal_ Duvido que ele volte.

Crystal_ Nitidamente não é daqui.

Crystal_ Além disso, parece ser mais velho.

Dou de ombros.

Crystal_ Nem olharia para garotas como nós.

Ela cruza os braços e ergue o queixo.

Gina_ Amiga...

Gina_ Nós somos lindas e gostosas.

Sorri convencida.

Gina_ O sonho de qualquer homem.

Balanço a cabeça, rindo da autoestima inabalável da minha melhor amiga.

Antes que ela voltasse ao assunto das minhas roupas ou daquele homem misterioso, resolvi encerrar a conversa.

Crystal_ Anda logo.

Crystal_ Ainda temos uma festa para ir e, pelo visto, você já decidiu que não vai me deixar escapar.

Ela abriu um sorriso vitorioso.

Gina_ Essa é a minha garota!

Reviro os olhos, fingindo estar contrariada, mas acabo rindo junto com ela enquanto subimos para nos arrumar.

Tentei convencer a mim mesma de que nunca mais voltaria a ver aquele homem de olhos cor de mel. Mal sabia eu que ele já conhecia o caminho até a minha casa

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