Capítulo 2

Alejandro

​Abri a pasta preta com força, as páginas se espalhando sob a luz fria da luminária. Meus olhos correram pelas linhas do relatório, e a primeira coisa que me atingiu foi o nome.

​— Rossandra não usa mais o próprio nome — comecei, a voz saindo mais áspera do que eu pretendia. — No dossiê, ela se chama Andreia Monteiro.

​Erick e Miguel se inclinaram um pouco mais, atentos.

​— Ela refez a vida — continuei, passando os dedos pelas fotos anexadas. — É casada com um homem chamado Gustavo Mendes. E o sobrenome não é um detalhe qualquer. O pai dele é Otávio Mendes.

​Miguel semicerrou os olhos, a mente criminosa trabalhando rápido.

​— Otávio Mendes? O grande empresário? O homem é um titã dos negócios legítimos.

​— Legítimos para quem olha de fora — retruquei, com um sorriso sombrio. — O dossiê mostra o que ninguém sabe. Ele tem negócios profundos com o submundo. Esconde muito bem, mas a lama está lá. Eles moram em uma cidade chamada Itajubá.

​Virei a página, vendo novas informações e relatórios de vigilância recentes.

​— Erick, quanto tempo faz que a Andreia, ou Rossandra, está com esse Gustavo?

​— O relacionamento é recente, chefe. Eles estão juntos há aproximadamente um ano.

​Meus olhos desceram para as fotografias anexadas. Havia uma imagem de Andreia caminhando pelas ruas de Itajubá. O casaco de inverno não conseguia esconder a curva evidente em seu ventre.

​— Ela está grávida dele — murmurei, processando a informação.

​Mas não foi aquela foto que fez meu sangue congelar. Foi a seguinte. Uma imagem maior, focando no rosto de um menino de traços fortes, olhar firme e expressivo. Um garoto de 11 anos chamado Henrique.

​Junto ao dossiê, vinham fotos antigas que Erick conseguira resgatar: registros dela grávida há mais de uma década e do menino ainda bebê. Olhei para a data de nascimento do garoto. Onze anos atrás.

​Fixei os olhos na foto de Henrique e, em seguida, olhei para o meu próprio reflexo no vidro embaçado da janela. Um arrepio violento subiu pela minha espinha. A semelhança física não era uma ilusão da minha cabeça.

​— Olhem para essa foto — ordenei, a voz falhando por um segundo antes de se tornar puro gelo. — Façam as contas. Onze anos. Foi logo depois que ela fugiu de Bogotá.

​Ela era a prisioneira do meu pai. O brinquedo favorito daquele monstro, que sofria abusos constantes nas mãos dele até encontrar uma brecha. Quando ela conseguiu escapar, o velho quase enlouqueceu, porque ela foi a única pessoa no mundo que teve a coragem de fugir dele.

​Olhei para Erick e Miguel, sentindo um nó violento se formar no meu estômago. A verdade mais sórdida da nossa família estava escancarada ali.

​— Esse garoto... Henrique... sussurrei, a fúria e o nojo pelo sangue de Ramón Ramírez queimando no meu peito. — Ele é meu irmão.

​O silêncio na sala desabou. Miguel soltou um palavrão baixo, e até Erick desviou o olhar, absorvendo o impacto. O velho não tinha apenas uma obsessão por ter perdido o controle sobre uma mulher. Ele sabia que ela tinha levado uma parte dele. E agora, Rossandra — ou Andreia — tentava construir uma vida normal, grávida de outro homem, sob a proteção de uma família que usava a fachada da alta sociedade para esconder seus próprios podres.

​Apertei as laterais da mesa com tanta força que a madeira estalou. O luto pelo meu pai, que já era nulo, transformou-se em uma fúria direcionada. Ele tinha deixado um rastro de destruição, e agora os destroços eram meus para recolher. Se o conselho achava que me faltava uma família para ter estabilidade, eles não sabiam o que estava por vir.

​Bati com a palma da mão sobre a mesa, encerrando qualquer hesitação.

​— Miguel, mova o que for necessário. Esqueça os pequenos problemas por hoje. Eu quero uma reunião com o velho Otávio Mendes para ontem. Não me importa quão protegido ele se sinta na elite daquela cidade. É através dele que nós vamos cercar essa situação e resolver essa parada de uma vez por todas. Mexam-se!

​Olhei para o relógio de pulso e depois para a janela. O final da tarde já cedia espaço para a noite de Bogotá, e a iluminação pública começava a desenhar os contornos da cidade sob a tempestade. O dia tinha sido longo, mas a noite seria ainda pior com o peso daquela pasta preta na minha mesa.

​— A reunião com os barões do conselho está marcada para amanhã, às 9:00 da manhã — avisei, a voz firme enquanto encarava Miguel. — Eles têm a noite inteira para conspirar e achar que vão bicar o que sobrou do império. Deixem que pensem isso. Amanhã cedo, vamos recebê-los exatamente como planejado.

​Virei-me para Erick, que aguardava as ordens finais antes que a noite caísse de vez.

​— Quanto ao Otávio Mendes, mova céus e terra ainda hoje. Agende essa reunião com ele o mais rápido possível e me informe no segundo em que tiver uma resposta. Não quero intermediários, quero o velho frente a frente comigo assim que resolvermos a situação com o conselho amanhã.

​Um silêncio pesado se instalou na sala quando o assunto inevitável veio à tona. Miguel limpou a garganta, cruzando os braços sob a luz fraca das luminárias.

​— E o corpo do seu pai, Alejandro? O que fazemos com Ramón? O conselho vai querer saber amanhã, vão exigir um velório de chefe...

​— Não vai ter velório — cortei imediatamente, a frieza na minha voz fazendo até os meus homens mais cascudos darem um passo atrás. Olhei para a escuridão que engolia a cidade lá fora, o asco subindo pela minha garganta ao lembrar do monstro que ele foi. — Sumam com ele hoje mesmo. Queimem o corpo.

​Erick assentiu lentamente, compreendendo o peso e a urgência da ordem.

​— Aquele homem já foi pior do que um animal em vida — continuei, o maxilar trancado. — Ele passou a existência inteira perturbando e destruindo a vida de todos ao redor, transformando aquela mulher em prisioneira, gerando um filho no cativeiro e deixando essa herança maldita para trás. Não vou dar a chance de ele voltar, nem mesmo em memória, para atormentar a gente. Aquele monstro já perturbou demais a nossa vida. Que o fogo leve o que sobrou dele. Sumam com as cinzas.

​Ajustei o paletó, caminhando até a mesa para recolher meus pertences. Olhei para os dois uma última vez antes de encerrar o expediente daquela tarde caótica.

​— Descansem o que puderem esta noite. Amanhã, às 9:00 da manhã, nós vamos mostrar para aqueles abutres quem é que manda de verdade nesta organização.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App