A esposa errada do chefe da máfia
A esposa errada do chefe da máfia
Por: Mara Santos
Capítulo 1

Alejandro

O celular vibrou sobre a mesa, quebrando o ritmo da reunião online que eu já lutava para encerrar. Olhei a tela. O nome de Erick brilhava no visor abaixei a tela do notbook e Atendi no mesmo segundo.

​— Fale.

​O silêncio do outro lado me fez franzir a testa. Erick não era homem de hesitar. Nunca.

​— Chefe... — a voz dele veio baixa.

​Algo estava muito errado. Levantei da cadeira num impulso!

​— O que aconteceu?

— É sobre o Ramón.

​Meu peito contraiu.

​— O que houve com meu pai?

​Ouvi o sopro pesado da respiração de Erick antes que ele soltasse as palavras:

​— Ele está morto.

​O mundo ao redor pareceu perder o som. Fiquei estático, os olhos fixos na janela do escritório, processando o impossível. Ramón Ramírez. O homem que projetava uma sombra sobre toda a cidade, o sujeito que se julgava intocável. Morto.

​Apertei o aparelho contra o ouvido com tanta força que os nós dos meus dedos embranqueceram.

​— Quem foi o louco?

— A mulher que ele foi buscar no Brasil.

​Fechei os olhos. O peso do óbvio desabando sobre mim.

​— Rossandra Villani?

— Sim.

​Passei a mão pelo rosto, sentindo o suor frio.

​— Eu avisei. Droga, Erick, eu disse para ele não ir. — Minha voz saiu num sussurro tenso. — Disse para deixar essa história no passado.

— Eu sei.

— Anos se passaram. Mas ela virou uma obsessão maldita para ele.

​Erick não respondeu. Não precisava. Nós dois sabíamos que o velho nunca aceitou ter perdido o controle sobre ela. Deixar Rossandra escapar tinha sido a única derrota da vida de Ramón. E agora, a última.

​Respirei fundo, forçando a adrenalina a dar lugar à frieza. O luto teria que esperar; as consequências não iam cooperar.

​— Quero tudo sobre essa mulher.

— Tudo?

— Cada detalhe — comecei a marchar pelo escritório, o cérebro trabalhando a mil por hora. — Onde ela mora, com quem deita, quem são os amigos, a rotina, o maldito marido se ela tiver um. Quero um dossiê completo na minha mesa.

— Certo, chefe.

​Chefe. O peso do título bateu forte no meu estômago. Aquela cadeira agora era minha, por bem ou por mal.

​— Precisamos avisar o conselho sobre a baixa — Erick continuou, a voz retomando o tom profissional.

— Eu sei.

— E você vai ter que assumir o controle imediatamente.

​Soltei um sopro de risada, totalmente sem humor.

​— E metade deles vai testar a minha autoridade na primeira hora.

— Alguns vão tentar — Erick assentiu do outro lado. — E eu vou estar bem atrás de você quando caírem.

​Parei diante do vidro. A chuva castigava Bogotá lá fora, borrando as luzes da cidade. O tabuleiro tinha mudado completamente. Sem o velho, os abutres iam voar baixo para arrancar um pedaço do império.

​— Obrigado, Erick.

— Quando quer que eu volte?

— Hoje. Pegue o primeiro voo.

— Entendido.

— E Erick? — o impedi de desligar.

— Sim?

​Olhei para o reflexo do meu próprio rosto no vidro molhado. O cara que eu era até cinco minutos atrás já não existia mais.

​— Não esqueça o dossiê da Villani.

— Pode deixar.

​A linha ficou muda.

​Continuei encarando a tempestade lá fora. Meu pai estava morto, e uma mulher que eu sequer conhecia acabava de ditar as regras do resto da minha vida.

Horas depois!...

O clima na sede estava sufocante. A notícia da morte do meu pai ainda nem tinha sido oficializada, mas eu já conseguia sentir o cheiro de sangue atraindo os tubarões. Para os velhos barões do cartel, eu não passava de um moleque. Um herdeiro jovem, solteiro, sem a casca ou a crueldade que Ramón Ramírez usava para manter as feras na coleira. Na cabeça deles, o império estava prestes a ruir, e a partilha do meu território era questão de tempo.

​Eles achavam que Alejandro Ramírez ia entregar tudo de bandeja só porque não tinha uma esposa ou cabelos brancos. Coitados.

​O bipe do elevador ecoou no meu andar, interrompendo meus pensamentos. A porta se abriu e Erick entrou na minha sala com os passos firmes de sempre, sem sequer ter passado no hotel para deixar as malas. Logo atrás dele vinha Miguel, nosso subchefe — o homem que controlava cada rota de escoamento e cada homem armado da organização.

​Os dois pararam diante da minha mesa. Eu continuei de pé, observando a chuva embaçar o vidro, antes de me virar devagar para encará-los.

​— Erick. Miguel — cumprimentei, mantendo a voz firme, sem transparecer o peso das últimas horas. — Relatório.

​Erick deu um passo à frente e jogou uma pasta preta sobre a madeira maciça. O dossiê de Rossandra Villani.

​— O trabalho no Brasil está feito, chefe. Mas o problema real está aqui dentro agora — Erick começou, o semblante tenso. — Acabei de alinhar a situação com o Miguel lá embaixo. O conselho já está farejando fraqueza.

​— Eles acham que você é verde, Alejandro — Miguel endossou, cruzando os braços pesados. — Estão dizendo pelos cantos que, por você não ser casado e não ter uma família, falta estabilidade para liderar o cartel. Estão literalmente apostando na sua ruína. Chamando você de moleque.

​Soltei um riso amargo, caminhando calmamente até a mesa. Apoiei as mãos na borda da madeira, olhando bem nos olhos de cada um deles.

​— Eles subestimam o sangue do meu pai — falei, a voz baixa e cortante. — Deixem que pensem que sou um garoto. Vai ser mais fácil quebrar as pernas deles quando tentarem avançar.

​Miguel trocou um olhar rápido com Erick e depois assentiu, um meio sorriso de aprovação surgindo no rosto.

​— Se a gente não fechar o cerco agora, as hienas vão morder — Miguel alertou. — Qual é o plano?

​Olhei para a pasta preta e depois para os meus dois homens de confiança. O jogo tinha começado, e eu ia mostrar para aquele conselho de velhos que o "moleque" mordia muito mais forte que o pai.

​— O plano é simples — respondi, abrindo o dossiê. — Vamos convocar uma reunião com todos eles. Amanhã cedo. Quem vacilar na minha frente, dança.

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