Mundo ficciónIniciar sesión— Esposas não costumam dormir longe para sempre.
Fiquei olhando para Rafael por alguns segundos, tentando descobrir se ele tinha dito aquilo para provocar, ameaçar ou simplesmente porque gostava de me ver perder o controle. Talvez as três coisas. O homem estava parado na porta do closet como se fosse dono não só da casa, mas também da minha reação. E o pior era que, naquele instante, ele era mesmo. — Que frase bonita — falei, apertando a camisola no cabide. — Deve funcionar muito bem com mulheres que não acabaram de ser compradas no hospital. O sorriso dele sumiu só um pouco. — Eu não comprei você. — Não? Então foi o quê? Sorteio? Promoção? Leve uma cirurgia e ganhe uma esposa? — Você assinou. — Porque minha mãe está doente. — Eu sei. — Então não finja que foi escolha. Rafael ficou quieto. O silêncio dele me irritava quase tanto quanto a voz. Talvez porque, quando ele calava, parecia que estava ouvindo coisas que eu não queria mostrar: minha respiração, minha raiva, meu medo, talvez até aquela parte idiota de mim que ainda estava consciente demais da proximidade dele. Eu joguei a camisola de volta no cabide. — Não vou usar isso. — Use o que quiser. — Que bom que ainda posso escolher tecido enquanto não escolho mais nada. Passei por ele para sair do closet, mas Rafael não se moveu rápido o suficiente. Ou talvez tenha se movido exatamente como queria. Meu braço roçou no dele. Foi pouco, um contato besta, mas o suficiente para meu corpo reagir antes da minha cabeça. Aquele calor de novo. Aquele choque irritante. Parei na hora, e isso foi meu erro. Ele percebeu. Claro que percebeu. — Você para de respirar quando encosta em mim — disse ele. Virei para encará-lo, mesmo sabendo que ele não podia me ver. Supostamente. — E o senhor devia parar de comentar tudo que meu corpo faz. — Então controle melhor. — Olha só, mais uma regra do contrato? — Não. Um conselho. — Conselho péssimo. Meu corpo não aceita ordem nem minha, imagina sua. A frase saiu antes que eu pensasse direito. Quando percebi, já era tarde. O ar mudou. Rafael inclinou o rosto na minha direção, e por um segundo eu quis enfiar a cabeça dentro de uma gaveta e morrer de vergonha. Não de vergonha pura. Era pior. Era vergonha porque aquilo tinha soado íntimo. — Isso eu já tinha percebido — ele disse. Meu rosto esquentou. — O senhor é insuportável. — Você repete isso muito. — Porque o senhor me dá motivo. Tentei passar por ele de novo. Dessa vez, ele deu espaço, mas a mão segurou meu pulso antes que eu escapasse completamente. Não apertou. Só segurou. O suficiente para me parar. — Lia. Meu nome na voz dele ficou baixo demais. Perto demais. E eu odiei o quanto aquilo funcionou. — Me solta. Ele soltou na mesma hora. Aquilo me desmontou um pouco, porque eu estava pronta para brigar. Se ele tivesse insistido, eu teria motivo para odiar sem complicação. Mas ele soltou. E homem que solta quando a gente manda soltar estraga a raiva da pessoa. Uma falta de consideração. Rafael virou o rosto para a porta da suíte. — Você vai jantar comigo. — Eu vou? — Vai. A família precisa ver você hoje. — Hoje? Mas eu nem sei fingir ser sua esposa ainda. — Por isso vai praticar. — Praticar no jantar? Com plateia? Que ideia maravilhosa. Quem sabe depois eu faço malabarismo com faca. — Você só precisa ficar ao meu lado. — E sorrir igual idiota? — Não. Você não combina sorrindo igual idiota. Eu não esperava aquilo. Foi quase um elogio. Quase. E, por algum motivo, bateu pior do que se ele tivesse me ofendido. — O senhor não sabe como eu fico sorrindo. — Sei o bastante. — Rafael… Ele se aproximou um passo, e eu recuei outro, já quase encostando na penteadeira do closet. — Não precisa parecer apaixonada — ele disse. — Só precisa parecer acostumada comigo. — Isso é impossível. O senhor é impossível de se acostumar. — Então pare de fugir toda vez que chego perto. — Talvez eu fuja porque o senhor chega perto demais. — Talvez eu chegue perto porque você foge. Meu coração bateu mais forte. Que conversa ridícula. Que homem ridículo. Que situação ridícula. E ainda assim eu estava ali, no closet dele, com uma cama enorme do lado de fora, uma aliança no dedo e o corpo traidor prestando atenção em cada centímetro de distância entre nós. Bateram na porta da suíte. Eu me afastei rápido, como se tivesse sido pega fazendo alguma coisa errada. Rafael não se mexeu. — Entre — ele disse. Amália apareceu na porta. — Senhor Rafael, dona Helena foi avisada sobre a chegada da dona Lia. O jantar será servido em meia hora. Helena. A madrasta, provavelmente. Mais uma pessoa para me olhar como erro de cálculo. — Obrigado, Amália — Rafael respondeu. Ela olhou para mim por um segundo. Depois para Rafael. Havia alguma coisa naquele olhar, como se ela tivesse entendido mais do que eu gostaria. — Dona Lia, deixei um vestido sobre a cama. — Eu posso usar minha roupa. — Pode — Rafael disse. — Mas minha família vai usar isso contra você. Revirei os olhos. — Claro. Porque roupa simples é crime nesse palácio. Amália saiu. Rafael ficou. — O vestido é fechado nas costas? — perguntei, já me arrependendo da pergunta. — Não sei. — Como vou fechar sozinha se tiver zíper? Ele sorriu de leve. — Você não vai. Eu senti meu estômago cair. — Nem pense. — Em quê? — Em chegar perto de zíper nenhum. Rafael passou por mim, devagar, em direção à porta do closet. — Então escolha uma roupa que consiga fechar sozinha. Ele parou antes de sair. — Ou aprenda a confiar no seu marido. Quando a porta se fechou atrás dele, olhei para a cama. O vestido estava lá. E, claro, tinha zíper nas costas.






