Mundo de ficçãoIniciar sessãoO vestido estava em cima da cama. Claro que estava. Preto, elegante, bonito de um jeito irritante. Daquele tipo que parecia simples até você encostar no tecido e perceber que custava mais do que três meses de aluguel. Peguei a peça com a ponta dos dedos, como se ela fosse me morder, e virei para procurar o zíper. Nas costas. Óbvio.
— Filho da puta — murmurei. Não para Rafael. Para o universo mesmo. Embora, naquele dia, os dois estivessem trabalhando juntos contra mim. Tirei minha roupa com pressa, tentando não pensar que eu estava no quarto de um homem que, tecnicamente, era meu marido. Falso, mas marido. A palavra já era uma desgraça por si só. Vesti o vestido e puxei o tecido pelo corpo, sentindo uma raiva absurda porque ele servia perfeitamente. Cintura, busto, quadril. Tudo certo. Certo demais. Quem tinha escolhido aquilo sabia minhas medidas. E eu preferia não pensar em como. Fui até o espelho. O vestido era bonito, sim. Fechado na frente, discreto, mas deixava os ombros à mostra e marcava meu corpo mais do que eu gostaria. Não era vulgar. Era pior. Era elegante. E elegância, naquela casa, parecia uma forma mais cara de armadilha. Tentei alcançar o zíper nas costas. Não consegui. Tentei de novo. Nada. Na terceira tentativa, quase desloquei o ombro. — Desgraça. Bateram na porta. Eu gelei. — Quem é? — Seu marido. Fechei os olhos. — Vai embora. — O jantar começa em vinte minutos. — Então vá jantar. — Lia. O jeito como ele disse meu nome me irritou. Baixo, calmo, como se já soubesse que eu ia abrir. — Eu estou ocupada. — Com o zíper? Olhei para a porta como se pudesse atravessar madeira com ódio. — Como você sabe? — Você xinga quando tenta fazer algo sozinha e não consegue. — Eu também xingo quando aparece homem metido na minha porta. — Então hoje você teve muitos motivos. Eu deveria ter deixado ele do lado de fora. De verdade. Mas o vestido estava aberto até o meio das costas, e eu não ia descer para o jantar parecendo fugitiva de provador. Abri a porta só um pouco. Rafael estava ali, de terno escuro, cabelo arrumado, bengala na mão. Bonito demais para alguém tão irritante. Isso devia ser crime. — Vira de costas — ele disse. — Nem um “por favor”? — Por favor. — Ficou horrível. Ele quase sorriu. Entrei de volta e virei de costas antes que eu desistisse. Senti Rafael se aproximar. Não precisei ver. O cheiro dele chegou primeiro, depois o silêncio, depois o calor do corpo dele perto do meu. — Não encosta onde não precisa — avisei. — Eu sei fechar um vestido. — Parabéns. Quer um diploma? Os dedos dele tocaram o zíper. Só o zíper. Mesmo assim, minha pele reagiu como se ele tivesse encostado em mim. Rafael puxou devagar, do meio das minhas costas até a nuca. O gesto não durou nem cinco segundos, mas pareceu tempo demais. Quando terminou, ele não se afastou de imediato. — Pronto — disse, perto demais do meu ouvido. Minha respiração falhou. Droga. — Obrigada — falei, seca, tentando recuperar alguma dignidade. — Você tremeu. Virei rápido. — Porque está frio. Ele inclinou o rosto, como se achasse graça. — Está calor. — Então é alergia a bilionário. Dessa vez ele sorriu de verdade. Pequeno, mas verdadeiro. E aquilo me pegou desprevenida de um jeito idiota. Rafael levantou a mão e tocou de leve uma mecha solta do meu cabelo, tirando-a do meu ombro. Eu fiquei imóvel, odiando cada parte de mim que não mandou ele parar. — Agora parece minha esposa — ele disse. — Eu pareço cara. — Não. Parece perigosa. Antes que eu respondesse, a porta se abriu sem aviso. Uma mulher entrou, elegante, fria, com os olhos pousando direto na mão de Rafael ainda perto do meu pescoço. — Então é verdade — ela disse. Rafael ficou imóvel. — Helena. A mulher sorriu sem alegria. — Você se casou mesmo.






