capítulo 4

Felipe

Acordo com uma ressaca mortal; ontem exagerei na bebida. Fui a um churrasco para comemorar o aniversário do Lucas. Eu não tinha intenção de beber tanto, mas o vazio no peito pedia preenchimento. A comemoração começou de tarde, passamos muitas horas conversando, bebendo, comendo. Ouvindo muitas músicas boas, tudo ia muito bem. Até o Lucas ter a ideia de brincar de "Eu nunca". Na hora foi muito divertido. A cada rodada ficava mais engraçado, mas agora minha cabeça está explodindo e o silêncio do quarto é punitivo. As lembranças vão chegando…

— Eu comecei a brincadeira. Eu nunca nadei pelado.

Alguns beberam, se entregando, e outros riram dos que já fizeram. Cada um dizia uma coisa:

— Eu nunca peguei gêmeas…

— Eu nunca pulei a cerca…

— Eu nunca fiquei com mulheres mais velhas.

Quase todos beberam… O objetivo do jogo é lançar frases de coisas que você sabe que a maioria já fez, para fazer com que bebam. E assim seguimos rindo e brincando por vários minutos, todos já altos pela bebida, mas longe de estarmos bêbados de fato. Até surgir aquela frase que me desestabilizou completamente.

— Eu nunca namorei minhas amigas…

Foi como levar um soco no peito. Mila, minha Kamila, minha melhor amiga, aquela a quem amei desde sempre e ainda amava em silêncio. Oito anos se passaram desde que a vi pela última vez. As lembranças estavam frescas na minha mente, como se o tempo não tivesse ousado tocá-las. A dor cortante que sempre vinha me abraçou com força. As garras afiadas das lembranças agora amargas daquele tempo dos dias felizes ficaram fincadas em meu coração.

Me afastei do grupo sem perceber, virei meu copo no automático e me sentei em um canto isolado, buscando oxigênio. Uma memória se infiltrou em meus pensamentos sem pedir licença. Nosso primeiro passeio como namorados. Eu fui buscá-la para tomar sorvete na sorveteria do bairro. Saímos de mãos dadas, os dedos entrelaçados como se tivessem sido feitos um para o outro. O sol brilhante de uma da tarde fazia os cabelos castanhos dela ganharem tons dourados e tornava os olhos ainda mais belos, vibrantes de vida.

Nós pedimos nosso sorvete favorito, um expresso de morango com chocolate. Dizíamos que esse sabor era uma junção de nós dois: o morango era o sabor favorito dela e o chocolate o meu. Mas a gente sempre pedia para fazer misto, pois gostávamos de compartilhar nossos gostos. Nós sentamos para conversar e tomamos nossos sorvetes com calma, conversando. Não sabíamos na época como aqueles momentos eram preciosos, pois seriam tudo o que teríamos para viver e revisitar na solidão.

Se eu soubesse, teria passado mais tempo com ela, segurado a mão dela por mais tempo, abraçado mais forte, olhado para o rosto dela com mais atenção para memorizar mais atentamente cada detalhe, pois talvez posso ter deixado algo passar pelos meus olhos de menino. Mas eu não sabia; para mim era apenas o momento que existia e o futuro, apesar de planejar estar com ela não importando o tempo que passasse, não me preocupava na época. A eternidade parecia um direito garantido.

Após sair da sorveteria fomos nos sentar na praça, estávamos conversando, sentados bem próximos.

As laterais dos nossos corpos encostados um no outro, enviando faíscas de eletricidade por toda a minha pele. O calor reconfortante da mão direita dela na palma da minha mão esquerda era a minha única âncora. Em dado momento olhei pra ela; o sorriso dela, o mais belo que já vi, preenchia seu rosto. Meu coração acelerou num ritmo frenético, olhei para os lábios dela e tive vontade de beijá-la.

Quando olhei nos olhos dela, vi que ela também encarava minha boca; as bochechas dela estavam vermelhas, a deixando ainda mais bela. Nossas mãos ficaram suadas, eu me aproximei um pouco, devagar, testando essa nova dinâmica entre nós. Ela se aproximou também. Nós nos olhamos intensivamente por alguns segundos.

Nossos olhos dizendo aquilo que queríamos. Nós sempre nos comunicamos com o olhar; eu podia ler perfeitamente nos olhos dela o "sim", assim como ela lia no meu a pergunta. Mas ainda assim eu queria ter certeza de que ela queria o mesmo que eu, por isso eu perguntei, com a voz rouca e um pouco tímido:

— Eu posso te beijar?

Ela não desviou os olhos dos meus ao responder, mesmo envergonhada e vermelha. Essa é minha garota, sempre corajosa, determinada. Ainda que estivesse tão ansiosa quanto eu pelo nosso primeiro beijo.

— Sim.

Ela disse. Essa simples palavra de três letras fez meu coração saltar, como se cavalos galopassem em meu peito. Eu me aproximei mais e a beijei. Foi um beijo casto e simples, um selinho, afinal tínhamos apenas 13 anos, mas pra mim foi o melhor beijo do mundo, o marco de onde minha vida realmente começou.

Escuto meu nome ser chamado e volto ao momento presente, onde o frio da ausência substitui o calor da praça. Lucas está parado na minha frente perguntando se estou bem, pois está me chamando a alguns minutos e eu não parecia ouvir. Dou uma desculpa qualquer pela minha desatenção e o tranquilizo. Passo o resto da festa, porém, bebendo mais do que teria feito normalmente, tentando afogar as lembranças que insistiam em continuar vindo.

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