Capítulo 7

O corredor parecia mais barulhento do que o normal, vozes e risadas ecoando pelos armários, mas tudo meio borrado pra mim.

Foi quando senti Jenn puxar meu braço, me arrastando pra um canto perto dos bebedouros.

— E aí? Tá tudo bem? - ela perguntou, mas o tom não era só curioso; carregava uma pontinha de preocupação.

Hesitei, mas acabei soltando:

— Vou passar na casa da Ever hoje. Pra... fazer o trabalho. Às duas.

Jenn franziu o rosto imediatamente, quase como se tivesse levado um tapa.

— Sério, Allie? Você ainda vai na casa dela depois de tudo?

— É só pra fazer o trabalho — tentei justificar, mas até pra mim soou fraco.

— Você acha mesmo que vai ser só isso? - Jenn cruzou os braços, o olhar dela duro. - Você merece bem mais do que esse joguinho que ela faz com você.

— Eu sei me cuidar. Qualquer coisa, eu te ligo.

Jenn respirou fundo, apertou os lábios e depois pegou minhas mãos, segurando forte.

— Promete mesmo? Que se der qualquer merda, vai me ligar?

— Prometo — falei, esboçando um sorriso pequeno pra aliviar o clima.

Ela não pareceu totalmente convencida, mas suspirou e me puxou pra um abraço rápido.

— Tá. Vai logo antes que eu resolva te trancar no meu quarto e esconder a chave.

—  Drama é o seu sobrenome — provoquei, dando uma risadinha.

— E o seu é "coração mole". Vai lá, mas toma cuidado.

Nos despedimos na porta da escola, e eu segui pra casa sentindo aquele peso no estômago, parte ansiedade, parte culpa. Jenn sempre aparecia nos momentos em que eu mais precisava, e me ver indo de novo atrás da Ever claramente deixava ela frustrada. Mesmo assim... não consegui dar ouvidos.

Cheguei em casa, minha mãe já estava terminando de arrumar a mesa pro almoço. Comemos rápido, conversando sobre coisas banais, o que eu ia querer de aniversário, a viagem das férias, se eu precisava de dinheiro pra algum material. Eu respondia no automático, a cabeça longe dali.

Quando terminei, fui direto pro quarto, troquei a roupa por algo mais confortável, mas ainda assim bonitinha, não dava pra negar que me importava e fiquei alguns minutos sentada na cama, só respirando.

Às 13h40 peguei minha mochila, chequei o celular umas dez vezes pra ver se Ever tinha mandado algo. Nada.

Saí de casa com o coração acelerado, o bilhetinho do dia anterior ainda dobrado e guardado no bolso de trás, como se fosse uma espécie de armadura.

Agora, tudo que me restava era chegar lá e ver no que ia dar.

O caminho até a casa da Ever pareceu mais longo do que o normal.

Cada passo parecia pesado, como se o corpo soubesse o que me esperava lá e tentasse me fazer voltar.

Quando virei a esquina do bairro dela, a diferença de realidade bateu de novo.

As calçadas perfeitas, os jardins milimetricamente podados, os portões automáticos... tudo gritava dinheiro. Um dinheiro que eu não conhecia, nem fazia questão.

Parei em frente ao portão de ferro trabalhado, respirei fundo e apertei o botão do interfone. O jardineiro me olhou de relance, mas continuou aparando a cerca viva como se nada acontecesse.

Logo o portão começou a abrir, rangendo baixo.

Engoli em seco e entrei, andando devagar pelo caminho de pedras até a porta principal. Antes mesmo de eu chegar, ela se abriu.

Ever estava lá.

Encostada no batente, o corpo largado de um jeito que parecia despreocupado demais pra quem tinha me chamado tão ansiosa na escola.

Usava uma camiseta preta simples, o cabelo preso num coque bagunçado, alguns fios soltos caindo pelo rosto. O olhar dela, no entanto, era o que me deixou sem ar. Um misto de provocação e algo que parecia... nervoso.

— Achei que você fosse desistir — ela disse, abrindo um sorriso pequeno.

— Pensei mesmo — confessei, passando a mão pela alça da mochila. — Mas aqui estou.

— Corajosa. Gosto disso.

Revirei os olhos, tentando não sorrir, e passei por ela, entrando na casa.

O cheiro familiar me acertou na hora - um perfume amadeirado misturado com algo mais doce, provavelmente dela. O hall enorme, o lustre, as colunas brancas... tudo tão exagerado.

— A gente vai fazer o trabalho na sala ou no seu quarto? — perguntei, meio sem jeito, só pra quebrar o clima.

— Tanto faz. O lugar onde a gente menos vai se concentrar, provavelmente.

— Ever...

— Tá bom, tá bom — ela riu, levantando as mãos. — Sala de jantar, então. Minha digníssima governanta deixou a mesa arrumada pra eu fingir que sou civilizada.

Fomos até lá, e realmente a mesa estava perfeita, com um jarro de flores no centro. Ever puxou a cadeira pra mim com um floreio dramático.

— Madame — disse, com um sotaque francês forçado, igual o Valentin.

Acabei rindo, apesar da tensão. Era impossível não amolecer um pouco perto dela.

Nos sentamos e espalhamos os livros e cadernos, começando a anotar umas ideias pro trabalho. Mas claro que, com Ever, concentração durava uns cinco minutos.

— Sabe o que eu tava pensando? — ela falou, apoiando o queixo na mão, me olhando com aquele brilho que me desmontava.

— Medo de saber.

— Que você fica bonitinha demais quando finge que tá tentando ignorar meu charme irresistível.

— Você é ridícula — soltei, rindo, dando um leve empurrão no braço dela.

Ever segurou minha mão por um segundo a mais, passando o polegar distraidamente pelo meu pulso. Meu coração disparou de um jeito ridículo.

— Ridícula, mas honesta — ela disse, num tom mais baixo.

Soltei o ar devagar, tentando não demonstrar o quanto aquilo me afetava.

E voltamos a fingir que estudávamos, anotando tópicos soltos, rindo das piadas bobas dela, brigando quando Ever rabiscou um "Ever ♥ Allie" gigante na borda da minha folha.

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP