Mundo de ficçãoIniciar sessão♡ Bruna Marques ♡
Os dias que se seguiram à minha confissão na casa dos Silva Rocha foram uma mistura de vergonha e incredulidade. Até agora, quando lembro do que saiu da minha boca, sinto vontade de cavar um buraco e sumir. Como fui capaz de admitir, em voz alta, que gosto dos três? Nunca imaginei que teria coragem de admitir algo assim. Não combina nada com a imagem de “moça de família” que a Tia Vera e o Tio Miguel tanto fazem questão de manter. Mas também... não consigo continuar mentindo pra mim mesma. Tenho uma atração inexplicável por eles. É como se cada um mexesse comigo de um jeito diferente. E, por mais errado que pareça, às vezes me pego imaginando como seria estar nos braços de um deles, ou pior, nos braços dos três. Só de pensar nisso, meu coração dispara e a culpa vem logo em seguida, pesada como uma pedra. A tensão em casa estava insuportável. Tia Vera parecia perceber que algo estava diferente, e tio Miguel andava cada vez mais rígido comigo. Eu já não fazia questão de esconder meu descontentamento com esse casamento arranjado. E então chegou o domingo, o tal dia em que finalmente conheceria meu futuro marido. Olhei pro espelho e fiquei um tempo ali, parada, tentando reconhecer a moça refletida de volta. Peguei o vestido que tio Miguel escolheu, um modelo modesto, de gola alta e mangas compridas, num tecido bege sem graça que ele achou “apropriado”. Era exatamente o tipo de roupa que me fazia parecer o que eles queriam que eu fosse: recatada, obediente, sem opinião. Vesti-me devagar, ajustando o tecido nos ombros, respirando fundo como quem se prepara pra um sacrifício. O nó na garganta não passava. Quando desci as escadas, minhas pernas estavam trêmulas. A cada degrau, sentia o peso de um futuro que eu não queria. Lá embaixo, tia Vera me olhou com um sorriso, e tio Miguel me observou de cima a baixo, orgulhoso do “exemplo de moça” que ele acreditava ter moldado. O pastor João, com seu sorriso largo e suas mãos que sempre pareciam prontas para receber uma doação, conversava animadamente com meus tios. Do outro lado do sofá, sentava-se uma senhora, vestida com rigor e com muitas joias. E ao seu lado, de costas para mim, estava um homem, ele se virou e o mundo parou. Era o Patrick Silva Rocha. Mas não o Patrick que eu conhecia, aquele Patrick de olhar ardente, postura descontraída e roupas que gritavam poder e confiança. Este homem usava um terno sóbrio, de corte conservador. Seu cabelo, normalmente com um caimento naturalmente elegante, estava penteado para trás com rigor. Seus traços, antes marcados por uma sensualidade perigosa, estavam contidos numa expressão de seriedade quase enfadonha. Ele segurava uma Bíblia nas mãos. Nossos olhos se encontraram por uma fração de segundo. Não houve um piscar de olhos, um sorriso secreto. Seu olhar foi vazio, polido, como o de um completo estranho. Um choque gelado correu pela minha espinha. — Bruna, querida! — minha tia disse, a voz forçadamente alegre. — Venha conhecer o Sr. Patrick Lisboa e a madrasta dele, a senhora Paula Lisboa. Patrick se aproximou, com movimentos calculados e um pouco desengonçados, como se não estivesse acostumado com aquele papel. — Muito prazer, senhorita Bruna — disse ele, estendendo a mão. Sua voz era mais suave, sem aquele tom grave e hipnótico que me fazia tremer por dentro. Era a voz de um homem comum. Estendi minha mão, mecânica. Seus dedos envolveram os meus por um instante, o toque foi breve, formal. Nada daquele calor eletrizante que eu esperava… ou temia. — O… prazer é meu — consegui engolir em seco. Tio Miguel observava a cena com um olhar crítico, mas parecia satisfeito com a postura recatada do "pretendente". — O Patrick é um jovem muito dedicado à igreja e aos negócios da família, Bruna — disse o pastor João, dando uma palmadinha nas costas de Patrick. — Um partido excelente. — O senhor é muito gentil, pastor — Patrick respondeu, baixando a cabeça humildemente. Eu me sentei no sofá, sentindo-me como se estivesse dentro de um sonho absurdo. Durante o almoço, Patrick manteve a farsa perfeitamente. Ele falou sobre passagens bíblicas, sobre a importância da família tradicional, e elogiou a comida com uma educação exagerada. Meus tios estavam encantados. Patrick era um ator brilhante. Em um momento em que os adultos se distraíram numa conversa sobre investimentos da igreja, Patrick se inclinou ligeiramente para mim. — Você esta linda, coelhinha. — sussurrou. Sua voz era baixa, mas o olhar que me dirigiu por uma fração de segundo foi intenso, e me fez parar de respirar. Ele se recostou imediatamente, voltando à sua persona de homem sério. — Viu, Bruna? — disse tio Miguel, com um raro sorriso de satisfação. — Um jovem perfeito. Educado, respeitador, de família abençoada. Você vai ser muito feliz ao lado dele. Eu só consegui acenar com a cabeça, minha garganta fechada. O almoço terminou, mas ninguém parecia com pressa de encerrar a visita. Meus tios, sempre atentos às formalidades, insistiram que ficássemos um pouco mais na sala. A mesa de centro foi arrumada com uma bandeja onde repousavam xícaras de porcelana fina, acompanhadas de um bule de café e outro de chá fumegante. O cheiro suave do bolo de laranja se misturava ao aroma forte do café recém-passado. As conversas continuaram em tom mais brando, agora sobre viagens missionárias e obras beneficentes da igreja. Eu me mantinha em silêncio, mexendo na minha xícara de chá apenas para ter algo em que ocupar as mãos. Patrick, sentado à minha frente, parecia perfeitamente integrado àquele cenário de falsa serenidade. Em certo momento, minha tia, virou-se para Paula com um sorriso atencioso: — Mais chá, minha querida? — Aceito, sim, muito obrigada. Está delicioso. Mas quando tia Vera inclinou o bule, percebeu que estava vazio. — Oh, parece que acabou. Bruna, querida, seja gentil e traga mais chá da cozinha. O pedido soou como uma ordem mascarada de doçura. Eu me levantei educadamente, tentando não demonstrar o nó em meu estômago. Peguei o bule com as duas mãos e caminhei até a cozinha, sentindo cada olhar me acompanhar até a porta.






