Mundo de ficçãoIniciar sessão♡ Patrick Silva Rocha ♡
O ar na sala estava pesado, impregnado com o cheiro doce e artificial da hipocrisia. Cada sorriso do pastor João, cada comentário piedoso da minha madrasta, cada olhar aprovador dos tios dela era um grão de areia me sufocando. Eu me mantinha firme, é claro. A persona do "Patrick Lisboa" era uma roupa que eu vestia com uma facilidade que me assustava às vezes. Um terno conservador, uma Bíblia nas mãos, um sorriso contido. Era a armadura perfeita para a guerra que estava travando para ter a nossa coelhinha. E ela, a Bruna... Meu Deus. Sentada à mesa, parecia uma flor murchando sob um sol implacável. Seu vestido bege, daqueles que cobrem tudo e não dizem nada, era um insulto à obra de arte que sabia que estava por baixo. Ela estava apavorada, e excitada. Eu conseguia sentir. Era o mesmo conflito que me consumia por dentro desde o dia em que ela confessou, naquela sala, que nos desejava. Ela mal conseguia olhar para mim, e cada vez que nossa perna se roçava por acidente sob a mesa, um choque percorria por todo meu corpo. Agora, ela era nossa, prometida. Eu não aguentava mais um segundo daquela farsa sem tocar nela, sem provar um pouco da verdade que pulsava entre nós. A oportunidade veio quando sua tia pediu que ela fosse à cozinha buscar mais chá. Bruna se levantou, frágil e graciosa como um pássaro prestes a voar para uma gaiola. Pegou o bule e saiu. Esperei o tempo suficiente para não parecer óbvio. Uns cinco segundos de conversa fiada sobre doações para a nova ala da igreja. Depois, mexi-me no sofá. — Com licença — disse, erguendo-me com uma polidez que me fazia sentir nauseado. — Vou até a cozinha ver se a minha noivinha precisa de ajuda. Minha madrasta lançou-me um olhar de orgulho. "Que jovem prestativo", seu sorriso dizia. O tio Miguel acenou com a cabeça, aprovação pura. Eram tão cegos. Tão estupidamente previsíveis. Saí da sala e o corredor pareceu expandir-se, o som das vozes ficando para trás, abafado. A porta da cozinha estava entreaberta. A coelhinha estava de costas para mim, junto ao fogão, com o bule ao lado. Estava imóvel, as duas mãos apoiadas na bancada, a cabeça baixa como se estivesse recuperando o fôlego. Os ombros subiam e desciam numa respiração acelerada que eu não precisava ver sua face para notar. Ela estava tentando se recompor, tentando colocar de volta a máscara da moça direita e obediente. Avancei em passos silenciosos. A proximidade foi como mergulhar em um campo magnético. O cheiro dela, suave e doce, invadiu minhas narinas. Eu estava tão perto que podia contar os fios de cabelo que escapavam do coque austero que ela prendera. Tão perto que o calor do seu corpo era um convite contra as minhas roupas. Ela ainda não sabia, estava num mundo próprio, lutando contra os demônios que eu mesmo havia soltado dentro dela. Inclinei-me para frente, até que meu sopro, quente e íntimo, deve ter roçado a nuca dela. Ela congelou, todo o seu corpo ficou rígido de uma vez. — Precisa de ajuda, coelhinha? — sussurrei, minha voz baixa e grave, abandonando completamente o tom artificial que usara na sala. Era a minha voz verdadeira, a voz que eu usava com ela. Suas mãos se fecharam em punhos sobre a bancada, num gesto de quem luta contra o próprio impulso. — Patrick... — meu nome saiu como um gemido de alerta, um pedido de clemência. — Eles... eles podem vir aqui. — Eles estão muito ocupados, coelhinha. — respondi, meu sussurro ainda mais próximo do seu ouvido. Meu corpo quase, quase tocando o dela. Eu podia sentir o pânico e o desejo emanando dela em ondas iguais. Levantei uma mão lentamente e pousei sobre a dela, na bancada. Sua pele estava gelada. — Você está tremendo, coelhinha — observei, fechando minha mão sobre a dela, tentando aquecê-la. Seus olhos buscaram os meus, confusos, e pude ver a respiração dela vacilar. — É... eu estou com frio — mentiu, a voz trêmula. — Não é frio nenhum. É a mesma coisa que eu sinto. O que você confessou para mim, para o Caio, para o Luan. — sussurrei suavemente, movendo meu polegar em círculos lentos sobre seu pulso. Finalmente, ela se virou, o movimento foi brusco, desesperado. Seus olhos, aqueles olhos azuis que me assombraram todas as noites, estavam arregalados, cheios de lágrimas presas e um desejo profundo que ela não sabia como nomear. Sua respiração estava irregular, os lábios entreabertos. — Não podemos... — sussurrou, uma última tentativa fraca de se agarrar àquela realidade que lhe impuseram. — Podemos — insisti, minha voz um comando suave. Minha mão livre levantou-se, passei a ponta dos dedos por sua têmpora, afastando um fio de cabelo preso em seus lábios. Ela fechou os olhos com a força, um pequeno suspiro escapando. — Isso é mais real do que qualquer coisa que esteja acontecendo naquela sala. Meu olhar fixou-se em sua boca. Seus lábios estavam levemente úmidos, cor de pêssego, e pareciam a coisa mais convidativa que já vira na vida. A tensão entre nós era elétrica, pesada, doce e agonizante. — Já beijou alguém, coelhinha? — perguntei, minha voz agora um fio de seda, carregada de uma intimidade proibida. Ela abriu os olhos, surpresa pela pergunta. Sua face corou intensamente, balançou a cabeça, negando, quase envergonhada. — Não... nunca. A confissão saiu como um segredo, e algo primal e possessivo rugiu dentro de mim. Eu seria o primeiro, o primeiro de tudo. — Posso beijar você, coelhinha. — afirmei, não perguntei. Ela desviou o olhar, mordeu o canto do lábio e soltou um riso nervoso. — Antes do casamento... não... não é certo — ela argumentou, fraco, sua resistência falhando enquanto seu corpo se inclinava inconscientemente na minha direção. — Vai ser apenas um beijo, coelhinha. — disse, me aproximando mais, até que nosso respiro se misturou. — Deixa eu beijar você, coelhinha. Ela não disse mais nada. Seus olhos pestanejaram, e vi a rendição neles. Vi o "sim" que sua boca não ousava pronunciar. Ela fechou os olhos, foi a permissão que eu precisava.






