Capitulo 4

Voltei à casa dos Montenegro com o estômago embrulhado e a respiração curta. O portão se abriu do mesmo jeito silencioso e lento do dia anterior, como se nada tivesse acontecido. Nenhuma ligação, nenhuma mensagem, nenhum aviso de dispensa. Ainda assim, cada passo meu carregava a certeza de que eu estava entrando num lugar onde talvez já não fosse bem-vinda.

Passei pela porta principal com o coração batendo forte e as pernas moles feito gelatina. Tudo estava impecável, como sempre. Nenhum vestígio do conflito. Apenas o silêncio educado de uma casa acostumada a engolir excessos. Berta estava na cozinha, organizando a bandeja do café da manhã. Diferente de Helena, a empregada da limpeza, Berta tinha mãos firmes e um olhar que parecia já ter visto de tudo. Ao me notar, ergueu os olhos devagar, me avaliando.

— Bom dia, Lívia — disse, como se aquele fosse um dia comum. Aquilo me desconcertou mais do que qualquer bronca teria feito.

— Bom dia… — respondi, largando a bolsa perto da porta — Posso te perguntar uma coisa? — Ela assentiu, continuando a arrumar as xícaras — O senhor Montenegro já saiu?

— Saiu cedo. Reunião fora da cidade.

— Então… — comecei escolhendo as palavras com cuidado — por que eu ainda estou aqui?

Berta parou o que fazia e virou-se para mim, encostando-se à bancada.

— Achei que você tivesse vindo trabalhar — respondeu, seca.

— Eu enfrentei o chefe da casa — rebati com a voz mais baixa — Quebrei uma regra clara, desobedeci a uma ordem direta e ainda questionei a autoridade dele. Depois de tudo que você me falou sobre ele, achei que fosse o suficiente para me demitir.

Ela me encarou por um longo instante. Seus olhos não traziam julgamento, apenas uma espécie de curiosidade contida.

— Eu não sei exatamente o que aconteceu, mas agradeça por ainda estar aqui — disse, por fim.

— Então por quê? — insisti — Por que ele não me demitiu?

— Talvez ele tenha visto em você o que não viu nas outras, eu só não sei o que. — respondeu e respirou profundamente.

— Como assim?

— A maioria das pessoas aqui diz “sim” por medo ou conveniência. Você disse “não” por cuidado com a criança. Isso é raro.

— Raro não costuma ser valorizado por homens como ele.

— Não valorizado, talvez — concordou Berta — Mas… respeitado. Ainda que ele nunca admita.

Fiquei em silêncio, absorvendo aquelas palavras.

— Arthur Montenegro é um homem acostumado a mandar — continuou ela — A controlar. A impor, mas também é alguém que testa limites. Ontem, você talvez estivesse sendo testada sem saber.

— E eu falhei — murmurei.

— Não. Você fez exatamente o que ele não esperava.

— Isso não me tranquiliza.

— Não deveria mesmo — disse ela, com um leve sorriso. — Trabalhar aqui nunca é tranquilo. As babás geralmente se demitem na segunda semana, sem pedir nenhuma rescisão, só pelo desejo de sumir daqui.

Olhei em direção ao corredor que levava ao jardim, lembrando do riso de Théo no balanço.

— E o Théo? — perguntei.

— Dormiu mal — respondeu — Perguntou por você quando acordou.

— Eu não vou desistir desse garoto por medo. Ele não merece isso.

— Não mesmo — concordou Berta — desde que perdeu a mãe, o garoto não tem momentos felizes como aquele, ontem no balanço.

Berta voltou a organizar a bandeja, encerrando o assunto. Théo entrou correndo na cozinha e me abraçou com tanto carinho e eu retribui.

— Você não foi embora!

— Não, Théo. E eu não irei se você não quiser que eu vá. Tá bom?

— Eu não quero que você vá. Você é muito legal.

Passamos o dia juntos, nos divertindo e contando histórias. Senti uma angústia no rostinho de Théo e quis ajudá-lo. Mostrando que ele ainda tinha uma vida inteira para conhecer o mundo de todas as formas possíveis. Enquanto nos distraímos contando historinhas e sorrindo, uma presença silenciosa apareceu na sala, sem ser notada. Era o senhor Montenegro.

— Berta, deixe-nos a sós — falou baixo e grave, com uma autoridade reverenciável.

Ela saiu sem dizer uma palavra. Arthur se aproximou, mantendo a distância exata entre autoridade e ameaça.

— Ontem você cruzou um limite — disse — E ainda assim, está aqui.

— Eu me perguntei o mesmo — respondi, com honestidade — Por que não fui demitida?

Um canto da boca dele se contraiu, algo próximo de um sorriso que não chegou a nascer.

— Porque pessoas que obedecem sem pensar são fáceis de substituir — disse ele, com a voz firme — mas quem cuida de verdade… é mais difícil de encontrar.

Meu coração acelerou diante daquela constatação inesperada. Eu estava pronta para arrumar minhas malas e sair com o rabo entre as pernas, mas a afirmação do senhor Montenegro me desmontou completamente. Naquele instante eu notei que ele tinha um coração e no fundo dos seus olhos existia uma centelha de brilho que me fisgou profundamente.

— Isso não lhe dá liberdade para me desafiar — continuou, elevando a voz — Significa apenas que, por enquanto, estou observando.

Respirei fundo e meu coração que já estava quase se afogando em carisma e simpatia, se assustou de repente com a mudança de humor dele.

— Então estou em teste.

— Estamos — corrigiu e me encarou — E eu percebi que você faz bem ao garoto. Não o vejo assim desde… — interrompeu-se, desviando o olhar, como se o passado fosse um território proibido. — Volte amanhã. Veremos como as coisas seguem, tudo bem?

Naquele breve silêncio, algo se quebrou, não por completo, mas o suficiente para deixar escapar uma centelha de sentimento naquele coração blindado como mármore. Ali, por trás da rigidez, havia uma alma ferida, endurecida pela dor, esperando, mesmo sem admitir, por cura.

Quando ele deixou a sala, levando consigo a presença pesada e dominante, eu compreendi: não era apenas eu quem estava sendo avaliada. Ele também havia entrado no jogo. Abri um leve sorriso e senti um alívio por não ter sido demitida ou jogada porta afora. Agora eu precisava me preparar para os próximos passos e desafios que iria enfrentar dali em diante.

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