Onde ela está?

Demetrio 

O banheiro ainda estava quente quando desliguei o chuveiro.

Vapor espalhado pelo espelho, toalha enrolada no quadril, o cheiro dela ainda ali, grudado no ar como uma provocação mal resolvida. Demorei alguns segundos parado, com as mãos apoiadas na pia, respirando fundo. Não era costume meu ficar desnorteado depois de sexo. Muito menos daquele jeito.

Quando saí, a primeira coisa que notei foi o silêncio.

Nenhuma risada baixa.

Nenhum movimento.

Nenhum vestido jogado pelo chão.

Franzi a testa.

— Esquentadinha? Foi mal a demora, mas eu precisava de um banho…— chamei, sem pensar.

Nada.

Andei pelo apartamento com passos mais rápidos do que eu gostaria de admitir. O sofá estava vazio. A porta, destrancada.

Foi aí que a irritação bateu.

— Não é possível! — murmurei.

Terminei de me vestir com movimentos bruscos, enfiando a camisa sem me importar se estava amassada. Olhei ao redor de novo, como se ela fosse surgir do nada, rindo, dizendo que tinha ido buscar água ou qualquer desculpa boba.

Mas não.

Ela tinha ido embora.

Sem bilhete.

Sem explicação.

Sem nome.

Soltei uma risada seca, incrédula.

— Sério isso?

Não era ego ferido, talvez um pouco. Mas o principal era a indignação mesmo.

 O sexo tinha sido bom. Muito bom. Do tipo que não acontece com qualquer pessoa. Do tipo que não termina com alguém fugindo no meio da madrugada.

— Ela deve ter tido algum problema — falei sozinho, tentando organizar o pensamento. — Não tem outro motivo pra sair assim, às pressas.

Peguei o celular no bolso da calça, e as notificações logo me lembraram da minha fonte de estresse e preocupação diária.

Três chamadas perdidas.

O nome piscando na tela fez minha cabeça doer. 

“Amorzinho”

Suspirei.

Parece que ninguém trabalha se eu não mandar!

Liguei de volta imediatamente, já imaginando o caos que estava em casa sem a minha resposta.

— Oi, amorzinho — falei assim que atendeu. — Claro que eu já estou indo pra casa.

Ouvi a voz sonolenta do outro lado, reclamando que eu demorava demais.

— Você já devia estar na cama — continuei, suavizando o tom sem perceber. — Amanhã tem escola. Beijo. Tchau. Volta a dormir.

Desliguei e fiquei alguns segundos encarando a tela apagada.

Mas porque ela fugiu? Não faz sentido, a gente até que se entendeu…a química foi tão forte. Minha cabeça não conseguia parar de imaginar porque ela fugiu.

Passei a mão pelos cabelos, sentindo a tensão se acumular nos ombros. Eu odiava bagunça. Odiava coisas sem resposta. Odiava quando alguém entrava no meu espaço e saía deixando perguntas.

Peguei o celular de novo e liguei para a agência de babás.

— Oi, boa noite, tô ligando pra saber quando a nova babá vai chegar.   —falei direto.

 — Eu estou ciente que é tarde minha senhora, você pode verificar essa informação?

Do outro lado, tentaram me acalmar, disseram que iam verificar a disponibilidade.

— Semana que vem, doutor. — Cortei. — Preciso de alguém amanhã! 

—Mas isso não é possível, doutor.

—É pra isso que eu te pago? 

—Não senhor, vamos contactá-la e avisar das mudanças.

—Ótimo, boa noite!

Desliguei antes que viessem com mais perguntas.

Encostei no sofá e deixei o corpo cair ali, encarando o teto.

A garota do bar invadiu minha cabeça sem pedir licença.

O jeito como me olhou.

O sarcasmo fácil.

A forma como segurou minha mão, e aqueles olhos castanhos. Tão profundos e cheio de mistério.

Ela não parecia o tipo que sumia sem dizer nada.

— Por que você foi embora, esquentadinha? — murmurei.

E a pergunta que me incomodava ainda mais:

— Por que não me disse seu nome?

Eu lembrava de detalhes demais pra alguém que tinha acabado de conhecer. A curva do sorriso. A maneira como ficava séria do nada. O olhar atento demais pra quem só queria diversão.

O sexo não foi só sexo, foi mais intenso. Eu senti isso. E acho que ela também.

Isso era o que mais me irritava.

Levantei do sofá, peguei o paletó saí do apartamento. Desci as escadas de novo, passando pelo bar já mais vazio, luzes menos intensas, gente cansada.

Olhei ao redor instintivamente.

Nada.

Nem sinal dela.

O segurança me cumprimentou com a cabeça. Respondi no automático, já caminhando em direção à saída.

O ar da rua estava frio agora. Diferente de horas atrás. Mais pesado. Mais real.

Entrei no carro e fiquei ali alguns segundos antes de ligar o motor.

Era ridículo ficar assim por alguém que eu nem sabia o nome. Eu não era esse tipo de homem. Nunca fui.

Controle sempre foi minha zona de conforto.

E aquela garota tinha bagunçado tudo em poucas horas.

Dirigi até em casa com a cabeça longe, revivendo a cena, falas, olhares. O beijo. A pressa. O jeito como ela parecia estar sempre alerta, como se esperasse algo ruim acontecer a qualquer momento.

—Chega Demétrio, uma mulher não pode balançar você assim tão fácil, é você que deixa as mulheres loucas!-Murmurei.

Cheguei na mansão já de madrugada. A casa estava silenciosa, como sempre ficava quando eu chegava tarde demais.

Subi as escadas com cuidado.

Fechei a porta devagar e segui para o meu quarto.

Troquei de roupa, deitei na cama enorme que parecia maior ainda sem ninguém.

E, contra todas as minhas expectativas, não consegui dormir.

Porque, no escuro, a única coisa que vinha à minha cabeça era o rosto de uma garota que entrou na minha mente sem convite… e saiu sem se despedir.

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