Uma nova identidade parte 1

Lucy

Cheguei em casa com o coração coberto de ódio e ressentimento, como se cada decisão da minha vida tivesse sido um erro até aquele momento, erros que me levaram a uma vida de crimes ao lado do Diego. Erros que me levaram à perceber que eu não podia ser mais quem eu era.

Lucy Lopes cometeu erros demais, crimes demais, confiou de mais em pessoas nas pessoas erradas.

Tranquei a porta da kitnet duas vezes. Depois uma terceira, só pra garantir. Como se aquela fechadura barata fosse capaz de segurar alguém que realmente quisesse me pegar.

O lugar era minúsculo. Quatro por quatro, contando com a coragem. Uma cama encostada na parede, um fogão velho, uma pia que rangia quando eu abria a torneira e um banheiro tão apertado que eu precisava escolher qual perna lavar primeiro.

Era ali que eu existia.

Ou melhor… onde eu ainda existia.

Joguei a bolsa no chão e fui direto pro banheiro. Abri o chuveiro no máximo, mesmo sabendo que a água ia demorar pra esquentar.

 Tirei a roupa com pressa, como se cada segundo parada fosse perigoso demais. Quando a água finalmente tocou o meu corpo, deixei cair nas costas e fechei os olhos.

A memória ainda estava fresca na minha mente.

O sorriso torto do Sarjeta.

A mão apertando meu braço.

A voz dele dizendo que eu agora valia mais morta do que viva.

— Droga… — murmurei, apoiando a testa no azulejo.

Respirei fundo, tentando não chorar. Não agora. Não depois de todas as merdas que eu já tinha passado.

Quando saí do banho, me sequei rápido e vesti um conjunto de moletom cinza masculino que comprei depois que fugi do morro, ideal pra se esconder. bolso grande, capuz, a cara de quem não quer ser notada. Olhei meu reflexo no espelho rachado acima da pia.

Olheira funda.

Cabelo molhado jogado pra trás.

Cara de quem tinha acabado de perceber que não dava mais pra brincar de vida normal.

Foi aí que a realidade me deu outro tapa.

— Merda… — falei alto.

A camisinha. 

É claro que eu nem pensei em me proteger antes de me jogar no colo daquele cara da balada.

—Porque eu nunca penso antes de fazer alguma coisa! 

Passei a mão no rosto, sentindo o cansaço pesar de uma vez só. Não dava pra pensar em consequências agora. Eu precisava resolver o básico pra continuar respirando sem paranoia.

Peguei o celular e disquei o número da Gizelly enquanto enfiava o dinheiro no bolso do moletom.

— Amiga, onde você se enfiou? — ela atendeu já falando.

Puxei o capuz antes mesmo de sair de casa.

— Lucy Lopes precisa morrer! — falei, sem rodeio.

Silêncio do outro lado. Dois segundos. Depois a risada nervosa.

— Meu Deus, amiga, você tá tendo um surto psicótico agora? Porque se for, eu preciso saber se chamo um padre ou uma ambulância.

Desci a escada do prédio rápido, olhando pros lados.

— Não, Gi. Não é drama. O Diego me encontrou. Quer dizer… não ele. Aquele nojento do Sarjeta.

— O QUÊ? — ela praticamente gritou. — Lucy, você tá onde?

— Indo pra farmácia. E antes que você surte mais do que eu: agora eu tô mais enrascada do que antes, sair do trabalho não foi o suficiente pra fugir dele...

Parei na calçada, esperando o semáforo abrir.

— Eu preciso sumir — continuei. — Desaparecer por um tempo. Talvez por muito tempo.

— Lucy, você tá me assustando.

— Ótimo. Significa que você tá entendendo.

Entrei na farmácia ainda com o telefone no ouvido. O lugar estava cheio demais para aquele horário. Luz branca, cheiro de remédio, gente falando alto demais pra um ambiente que deveria ser silencioso.

— Amiga, fala mais devagar — falei. — Eu não tô te ouvindo direito.

E não era mentira.

Uma garota loira, parada quase no meio do corredor, falava sem parar, alto demais, animada demais. Usava uma roupa certinha demais praquele horário. Saia abaixo do joelho, blusa fechada até o pescoço, cara de professora que manda bilhete na agenda.

— Desculpa, Gi — falei, cobrindo um ouvido. — Tem uma mocreia aqui que não cala a boca.

Foi quando olhei direito pra ela.

Altura parecida com a minha.

Corpo parecido.

Rosto fino.

Se eu ignorasse o cabelo loiro curto e os olhos azuis claros como o da Barbie, dava até pra confundir de longe.

— Deus me livre ser assim — murmurei pra mim mesma.

Mas continuei olhando.

A garota falava com outra mulher, também em tom alto, como se quisesse que a farmácia inteira soubesse da vida dela.

— É um emprego incrível! Uma casa enorme, parece uma fortaleza! — ela dizia, gesticulando. — Infelizmente eles ainda nem me conhecem direito. Eu nem mandei foto no currículo, acredita?

Meu coração deu um pulinho estranho.

— Eu organizei tudo no celular da empresa, o modelo é mais atual que o meu!!— ela continuou. — Mas tá tudo lá agenda, contatos, tudo! É um salário ótimo, sério. Vida nova, porque eu mereço! Imagina morar em uma mansão na capital, vai ser incrível hahahahaha.

Do outro lado da linha, a voz da Gizelly voltou, distante.

— Lucy… eu não tô ouvindo direito. O que você vai fazer? Virar outra pessoa pro seu ex não te encontrar? Não tem como…do dia pra noite amiga.

Olhei de novo pra garota loira.

E algo encaixou.

— Acho que encontrei a minha nova eu — respondi. — Gi, eu te ligo depois.

Desliguei antes que ela pudesse me impedir de fazer merda.

Passei pelo corredor dos anticoncepcionais, peguei a pílula do dia seguinte, abri a caixa com cuidado e enfiei o comprimido direto na bolsa. Depois coloquei a caixa de volta na prateleira, intacta.

Segui a loira à distância.

Ela não parava de falar. Sobre o salário, sobre a casa, sobre como aquilo era uma chance única. Bla, bla, bla. Gente assim nunca olha pros lados. Nunca imagina que alguém pode estar prestando atenção demais.

Ela deixou a bolsa na cestinha da farmácia e se afastou um pouco pra olhar outra prateleira.

Meu coração começou a bater tão forte que eu tive medo de alguém ouvir.

Respirei fundo.

Não era a primeira vez, e não se tratava de moral.

Era sobre sobrevivência. Minha última cartada, meu último golpe.

Me aproximei da cestinha, rápida e discreta. Abri a bolsa dela, peguei o celular que parecia mais novo e a carteira com os documentos. Tudo em segundos. Coloquei a bolsa de volta exatamente como estava.

Meu corpo inteiro tremia.

Saí da farmácia sem olhar pra trás.

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