Mundo de ficçãoIniciar sessãoLucy
— Então a ex protegida do Patrão resolveu dar as caras!
A voz veio antes da dor.
Antes mesmo de eu entender o que estava acontecendo, senti os dedos grossos se fecharem no meu braço, apertando do jeito certo pra não parecer agressão… mas forte o bastante pra me lembrar exatamente quem estava me tocando.
Meu corpo inteiro gelou.
Eu não precisei olhar pra saber quem era.
Mas olhei mesmo assim.
Sarjeta.
O mesmo sorriso torto. Os mesmos dentes amarelados. O mesmo olhar sujo que parecia despir a gente por dentro, como se tivesse direito sobre tudo o que eu era.
— Quando eu te vi de longe, não acreditei — ele continuou, rindo baixo, como se a situação fosse engraçada. — Pensei: “não é possível que ela seja tão burra”.
Tentei puxar o braço, mas ele apertou um pouco mais e se inclinou, falando colado no meu ouvido.
— Fica quieta — murmurou. — Se gritar, você já sabe o que acontece.
Eu sabia.
E foi isso que me fez engolir a vontade de berrar.
Por fora, eu devia parecer só mais uma garota sendo puxada pelo namorado bêbado. Por dentro, meu coração batia tão forte que parecia querer sair pela boca.
— Depois do que você fez com o Cobra… — ele continuou, me guiando em direção à saída do bar, misturado à multidão — eu achei que você tivesse mais amor à própria vida.
A música alta engolia qualquer som. As luzes piscavam. As pessoas dançavam, riam, se esfregavam umas nas outras.
Ninguém percebeu nada.
A porta se abriu.
O ar frio da rua bateu no meu rosto como um tapa.
Foi ali que o medo ficou real de verdade.
Sarjeta não soltou meu braço. Pelo contrário, puxou com mais força, me fazendo tropeçar nos próprios passos.
— Anda, Lucy — ele disse, como se fôssemos velhos amigos. — Vamos conversar num lugar mais… reservado.
Viramos a esquina. Depois outra. Meus pés mal acompanhavam. Meu cérebro já estava funcionando em modo sobrevivência, procurando saída, barulho, qualquer coisa.
Mas o beco apareceu rápido demais.
Estreito. Escuro. Úmido. O tipo de lugar onde ninguém entrava por engano.
Ele me empurrou contra a parede sem cerimônia.
— Agora sim — falou, abrindo os braços. — Dá pra falar sem plateia.
— Você continua sendo um nojento — cuspi, tentando manter a voz firme. — Sempre foi. Sempre vai ser.
Ele riu.
Não aquele riso debochado. Foi um riso lento. Gostoso demais pra quem tava numa situação daquelas.
— Senti saudade de você, sabia? — disse, me olhando de cima a baixo sem disfarçar. — Sumiu do mapa, esqueceu os amigos, achou que ia virar santinha e viver longe de problemas… mas continua sendo a mesma Lucy.
— Encosta em mim de novo pra você ver — falei, sentindo a raiva crescer mais rápido que o medo. — Eu não tenho medo de você.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Não? — deu um passo à frente. — Nem de mim… nem do chefe?
— Nem de você, nem do Cobra, nem de ninguém — menti, encarando ele com desafio.
A risada morreu devagar.
O olhar dele mudou.
— Devia ter medo — respondeu, sério agora. — Porque o jogo virou.
Meu estômago afundou.
— O patrão não quer mais só te dar um susto — continuou, se aproximando mais. — Agora ele quer você viva… ou morta. O que der primeiro.
Meu coração disparou.
— O Cobra vai adorar quando conseguir sua cabeça, Lucy. Eu vou ganhar uma recompensa e tanto…mas se você for uma boa garota eu posso não te entregar pra ele.--Ele aproximou a boca suja do meu rosto e eu cuspi na cara dele.
Ele limpou o rosto e riu friamente. —-Já que essa é a sua escolha molekinha, eu vou assistir o cobra acabar com você. Vai desejar ter aceitado a minha oferta princesa.
O mundo girou.
E o passado veio com força.
O cheiro de pólvora.
O barulho seco do tiro.O grito ecoando no morro.Minhas pernas correndo sem sentir o chão.A mochila nas costas.A certeza cravada no peito de que, se eu ficasse, eu morria.— Você devia ter ficado no buraco que estava se escondendo— Sarjeta falou, trazendo meu foco de volta. — Agora fudeu.-Pensei
Minha mão entrou na bolsa sem pensar.
Os dedos tremiam.
Chave.
Batom.Carteira.Até que senti algo frio e pesado.
O relógio. O relógio do mauricinho iria servir. Não era a primeira vez que um brutamontes tentava me cercar, depois de tantas brigas e fugas eu aprendi um ou dois truques pra me proteger.
Passei a alça pela mão, fechando o punho como uma soqueira improvisada.
— Última chance — ele disse, abrindo um sorriso torto e segurando o meu rosto com uma das mãos enquanto a outra apertava o meu braço. — Vem comigo tranquila que ninguém se machuca.
Sorri.
— Nem morta, seu animal!
O soco saiu tão rápido que até eu me surpreendi.
O impacto foi seco. Forte. O som ecoou no beco como um estalo. Sarjeta cambaleou pra trás, xingando alto, levando a mão ao rosto que agora sangrava.
Não esperei.
Corri.
Corri sem olhar pra trás. Corri como quem corre pela própria vida. Porque era exatamente isso.
Saí do beco quase tropeçando na calçada. Virei a esquina e vi o ônibus parando no ponto.
Levantei o braço, gritei qualquer coisa e subi antes que a porta fechasse.
— Rápido, moço — falei, jogando dinheiro no colo do motorista. — Pelo amor de Deus!
O ônibus arrancou.
Só então percebi que estava tremendo inteira.
Sentei no fundo, encostei a testa no vidro gelado e fechei os olhos.
Minha respiração vinha curta. Meu peito doía. O relógio ainda preso ao meu punho parecia pesar uma tonelada.
Abri os olhos devagar e olhei pela janela.
Sarjeta não apareceu.
Mas aquilo não significava nada.
Diego deixou claro no dia em que nos conhecemos que ele nunca desistiria de mim. Ele nunca desistia de nada, e agora eu era como seu brinquedo perdido, que ele não pararia de procurar até encontrar.
Engoli em seco.
Eu tinha achado que bastava mudar de bairro.
Sair do trabalho que ele sabia onde ficava.
Fingir que o passado nunca aconteceu.
Mas isso não era o suficiente…
Tinha sido burra.
O Cobra não esquecia.
O Cobra não perdoava.O Cobra não aceitava abandono.Ele queria minha cabeça.
Encostei a cabeça no banco e deixei uma lágrima escapar.
Não dava mais pra improvisar.
Não dava mais pra viver correndo sem plano.
Eu precisava desaparecer de verdade.
Outro nome.
Outro rosto.Outra vida.Lucy Lopes precisava sumir do mapa, morrer para o mundo o mais rápido possível.







