Mundo de ficçãoIniciar sessãoLucy
Ele era o homem mais bonito que eu já tinha visto na vida. Alto, ombros largos, elegante sem esforço.
Camisa social marcando cada músculo, mangas dobradas até o antebraço, relógio caro no pulso. Cabelo castanho escuro, barba por fazer, e um sorriso que levaria qualquer uma pra cama.
E um cheiro… meu Deus.
— Você sempre você sempre responde as pessoas assim ou eu fui privilegiada? — ele perguntou, com um meio sorriso debochado.
— Depende — respondi, tentando não parecer uma idiota. — Você sempre atinge as pessoas do nada ou hoje resolveu me testar?
Ele riu baixo.
— Touché.— Qual o seu nome esquentadinha?— Ele perguntou se aproximando mais e acenando para o barman trazer algo pra ele, de uma forma tão natural que quase esqueci o meu próprio nome.
—É esquentadinha e você? —falei, tentando não parecer tão fácil, mesmo com muita vontade ser.
— Se não me contar o seu nome, também não digo o meu. —ele respondeu, piscando. —
—-Então vamos ser um casal de sem nomes, o atropelador e a esquentadinha o que acha?
—Então já somos um casal?-Ele se aproximou mas eu prendi a respiração sem perceber. Mas logo o barman entregou um copo de uísque com gelo pra ele e a distância voltou ao normal, pelo menos o suficiente para eu respirar.
Cruzei os braços, sorrindo sem querer.
— Então, você já flertou com todas as garotas nesse bar ou eu sou a primeira?—Você é a primeira.
—Que lindinho, to me sentindo especial, em ser a sua primeira.
Ele riu e tomou um gole da bebida. — Normalmente eu flerto com mulheres interessantes — ele respondeu. — E você de longe parece ser a mais interessante daqui. Quando pegou a bebida como se fosse pra aquela mesa, eu me impressionei. Isso te coloca bem acima da média.
Meu coração deu um pulo.
— Você viu isso?— Difícil não ver — ele inclinou a cabeça.
—Eu esqueci a minha carteira…Vai chamar a segurança?-Perguntei já me preparando pra fuga.
—Não, eu vou pagar a sua bebida, e as próximas se quiser.
—Porque vai fazer isso?
— Sabe que, eu não tenho certeza… —Ele respondeu rindo e dando outro gole na bebida. —Mas desde o momento que eu entrei ninguém me chamou atenção, eu já estava quase indo embora ai você aparece, com essa cara de problema, me fez esquecer de todo resto.
— E você tem cara de quem gosta disso.
— Gosto mesmo — ele respondeu, sem negar. — Principalmente quando o problema sorri desse jeito.
Meu coração acelerou, como ele era bom com as palavras, agora tudo no meu corpo gritava de curiosidade pra saber no que mais ele era bom.
Ele parou na minha frente, apoiou o cotovelo no balcão e me olhou como se eu fosse a coisa mais interessante daquele lugar inteiro.
— Então será que eu já posso saber seu nome?— ele disse.
— Não seja tão impaciente, vamos beber e então eu decido. — respondi, dando um gole na bebida só pra ter algo pra fazer com a boca.
— Tudo bem — ele sorriu de lado. — Eu adoro um mistério mesmo.
E foi o que fizemos, bebemos mais e eu me controlei ao máximo pra não beijar ele enquanto conversamos bobagens.
— Você ainda não me disse por que seus olhos parecem que estão sempre avaliando a rota de fuga.
Aquilo me pegou desprevenida.
— Meus olhos o quê?
— Eles não param — ele continuou, sério agora. — Mesmo quando você sorri, parece que tá pronta pra correr.
— Você é psicólogo agora?
— Só observador — respondeu. — E curioso.
— Sabe o que a curiosidade fez com o gato?— falei, meio automática.
—Você sempre tem respostas prontas?
Ri, sacudindo a cabeça.—Não, nem sempre…
— Desculpa falar assim mas…Você é muito linda. E seus olhos… — ele se aproximou um pouco mais. — Eles são perigosos.
— Perigosos como?
— Como quem já viu coisas demais e que também adoram provocar estranhos.
Antes que eu pudesse responder, senti um arrepio subir pela espinha.
Infelizmente não foi o gato na minha frente.
Foi outra pessoa. Senti meu meu peito apertar, Mesmo de costa eu consegui reconhecer a silhueta dele. Ele se virou, e eu quase corri para o outro lado, ele estava próximo a saída do bar. Assim eu não conseguiria me esconder por muito tempo.
Como eu odiava esse idiota. O jeito de andar. O cabelo quase inexistente, ele era mais calvo que uma pessoa careca.
O blazer de couro, ele sempre se vestia de forma ridícula, deveria ser pra combinar com aquela cara feia. Como ele ainda não tinha sido preso, ele deixa tão na cara que era um criminoso que até um policial cego veria.
Sarjeta era um dos capangas do homem que mais amei e mais odiei em toda a minha vida. O braço direito, que sujava as mãos sempre que fosse preciso.
Meu corpo inteiro gelou.
— Esquentadinha? você não parece bem, acho que a gente deveria parar com os drinks, eu já to um pouco alto também…— Ele perguntou já notando a minha mudança. — O que foi?
Engoli seco.
— Nada.Mentira.
Meu coração batia alto demais, rápido demais.
— Você ficou pálida — ele insistiu. — Quer um pouco de água?
— Não — respondi rápido demais. — A gente podia sair daqui. Tem alguma outra saída?
— Saída? Só a dos funcionários. — ele franziu a testa. — Mas o que aconteceu? pensei que você estava se divertindo.
— Eu sei, mas… — procurei palavras que não denunciassem o pânico. — Esse lugar ficou cheio de repente. Eu odeio multidão,to ficando sem ar aqui, parece que tá todo mundo se empurrando!
Ele me estudou por alguns segundos, como se estivesse encaixando peças invisíveis.
— Tudo bem — disse por fim. — Eu conheço um lugar melhor.
— Aqui perto? Pela saída dos funcionários? — perguntei, tentando manter a voz firme.
— Não vamos sair, o lugar é aqui dentro, mas eu prometo que não tem nenhuma multidão— ele respondeu. — Você vai poder respirar tranquilamente.
Olhei em volta de novo, procurando o Sarjeta de novo. Não encontrei. O que era pior ainda. Ele poderia estar mais próximo, ou chegando perto como um tubarão se preparando para o ataque.
— Pra onde vamos?
—É só me seguir. –Ele disse tranquilamente, mas essa frase não me passou tanta confiança. Ele poderia ser “o gostoso” mas eu não fazia ideia de quem esse cara era, e pra onde me levaria.
Mas o meu problema seria muito maior se eu fosse vista por aquele nojento do Sarjeta.
—Você parece meio na duvida…eu prometo que você pode confiar em mim! —Ele falou e estendeu a mão. Um gesto fofo demais pra um momento tão tenso.
E confiar não era algo que eu fazia fácil. Muito menos em um estranho bonito, eles sempre me decepcionam em algum ponto.
Mas eu também não outras opções, e muito menos tempo para pensar a respeito. Fiquei olhando pra mão dele por um segundo longo demais. Pensando em tudo que podia dar errado. Pensando em tudo que já tinha dado errado na minha vida.
E segurei a mão dele. O toque foi imediato. Quente. Firme. Seguro demais pra alguém que eu tinha acabado de conhecer.
—Tá bom, vamos, mas se você for um serial killer eu vou ficar muito decepcionada. —respondi, sincera.
Ele sorriu de leve.
— Se eu fosse, não te daria tempo de decidir.Revirei os olhos.
— Relaxa — ele disse, apertando de leve. — Tá segura comigo.
Eu não sabia se acreditava ou não, não sabia se essa decisão me colocaria em uma enrascada ainda maior.
Mas mesmo assim deixei aquele estranho me guiar para um lugar onde ninguém do meu passado poderia me encontrar.







