A babá misteriosa do CEO controlador
A babá misteriosa do CEO controlador
Por: Nena
A noite é uma criança

Lucy

Quando os meus pais morreram eu tinha quatro anos. Nessa época, eu não entendia que eles não voltariam. Também não entendia que ninguém da minha família me queria. O conselho tutelar me entregou para a minha madrinha. Ela não era a pessoa mais doce do mundo, mas me dava do que comer, me mandava pra escola. E contando que eu fosse na missa com ela e me comportasse, nós nos entendemos.  

Mas em uma noite muito fria, alguns anos depois, uma tragédia aconteceu. 

Minha amada madrinha, teve um ataque cardíaco bem na hora do jantar. Eu tentei ajudar, gritei e alguns vizinhos chamaram a ambulância. Mas era tarde demais. Eu estava sozinha de novo. E por mais que pareça, essa não é a pior parte. 

Uma semana depois o banco tomou a casa. Eu não sabia que a minha madrinha tinha tantas dívidas. Eu fiquei sem casa e completamente sozinho. Minha solução foi juntar o que eu tinha em uma mochila e dormir na rua.  

O que mais uma garota de quatorze anos poderia fazer? Naquela época eu era tão inocente. Eu torcia para que um príncipe encantado surgisse de algum lugar e me tirasse daquela situação. 

E  ele realmente apareceu. 

Numa noite ainda mais fria e faminta, eu conheci Diego, ele era um cara bonito com ar perigoso. Mas ele foi o único que tentou me ajudar a sobreviver. 

E foi aí que as coisas… “melhoraram” 

Nós roubávamos juntos, mas com os anos ele queria mais e mais dinheiro. Até se tornar o criminoso mais temido do morro do bem te vi. 

— Você vai continuar fingindo que tá tudo bem ou vai admitir logo que tá um lixo?

Giselly falou isso sem nem olhar pra mim, sentada na cadeira giratória da pausa do trabalho, mexendo no celular como se tivesse acabado de comentar o clima. Gizelly era uma colega da época de escola, quando eu perdi minha madrinha acabei abandonando a escola, e perdendo o contato com ela, mas nos reencontramos há dois anos, desde então somos mais unidas do que irmãs. 

Ela sempre conseguia ler as minhas emoções, por mais que eu tentasse esconder. 

Eu soltei uma risada sem humor e encostei a cabeça na parede.

— Eu não tô um lixo.

— Lucy… — ela finalmente me olhou. — Você pediu demissão daqui,, tá dormindo mal, anda olhando pro nada e quase chorou porque o café da sua casa acabou ontem. Isso não é “tô ótima”.

— O café era bom — murmurei. — E eu só tô cansada.

— Cansada de quê? — ela insistiu. — De fugir? Porque você vive fugindo.

Aquilo bateu onde doía. Fiquei em silêncio por alguns segundos, encarando o chão sujo da copa. Já faz seis meses que sai do morro do bem te vi no meio da madrugada pra que ninguém me ouvisse fugindo.

 Eu estava cansada de roubar para viver, dar golpes para satisfazer o ego daquele homem que um dia foi minha única salvação.  

— Eu só não queria continuar trabalhando aqui…— falei por fim. — Toda vez que o gerente passava atrás de mim, eu sentia como ele estivesse me vigiando. Ele ainda não entendia porque eu tinha me demitido. 

Na verdade eu tinha feito um favor para todos aqui. Assim que consegui o trabalho graças a Gizelly que falou maravilhas sobre mim, Diego começou a me pressionar para que eu esvaziasse o caixa, ou clonase os cartões dos funcionários, ou deixasse as câmeras apagadas e as portas abertas ao sair.  E isso já estava me cansando. Eu não era mais uma menina boba de quatorze anos tentando viver nas ruas. 

Eu era uma mulher, e não queria mais fazer mal às pessoas. Tudo que eu queria era uma vida melhor. E que ele se tornasse uma pessoa melhor. Mas para “o cobra” essa vida não tem porta de saída.  Então minha única solução foi fugir do morro e me demitir. E me esconder, até que ele esquecesse que eu existo.

Giselly suspirou e girou a cadeira pra ficar de frente pra mim. E afastou alguns ganchos do cabelo do rosto impaciente. 

— Você não pode se encolher toda vez que sente medo. Se não ele ganha. —A expressão de desaprovação no rosto dela  era clara— Você não deveria deixar o seu ex te controlar assim...

— Ele não me controla!— respondi rápido. — Eu só precisava de um tempo desse trabalho só isso. Eu já me livrei dele…não vamos falar disso agora que eu não tô com cabeça para isso!

Ela levantou as mãos se rendendo.

— Tudo bem, não tá aqui quem falou. Mas você precisa sair dessa energia de velório. E eu até já sei como.

— Se você falar terapia, eu vou embora.

— Não é terapia — ela sorriu, daquele jeito perigoso. — É festa.

— Festa? — franzi a testa. — Você enlouqueceu?

— Inauguração de um bar novo hoje à noite. Festa VIP, bebida boa, música alta e gente que não conhece seu passado. Eu queria tanto ir, pena que tenho trabalho, mas você TEM que ir!

— Giselly, eu não tenho convite, não tenho dinheiro e definitivamente não tenho psicológico pra uma festa.

— Lucy… — ela se inclinou pra frente. — Você tem um corpo lindo, uma cara de quem nasceu pra dar problema e uma habilidade incrível de se virar. Vai dizer que nunca entrou num lugar sem ser convidada?

Revirei os olhos.

— Isso foi outra vida. Não faço mais essas coisas…

— Então usa isso só hoje — ela insistiu. — Você não vai morrer por dançar um pouco. E, se morrer, pelo menos vai ser arrumada.

Eu ri, apesar de tudo.

— Você é impossível.

— E você tá precisando de um empurrãozinho, com certeza vai ser bem melhor do que ficar me ouvindo atender cada ligação de clientes raivosos  — ela respondeu. — Vai pra casa, toma banho, coloca aquele vestido preto curto que você ama e vai. Nem que seja pra beber um drink e voltar.

Fiquei olhando pra ela, sentindo aquele conflito conhecido entre continuar na mesma e a vontade de esquecer tudo por algumas horas.

— Só hoje — murmurei.

— Só hoje — ela confirmou, satisfeita.

À noite, eu estava em frente ao bar mais absurdo que já vi, pensando seriamente em dar meia-volta. Um lugar enorme, preto com o nome em dourado. — Quem fez esse lugar não quis economizar! —Pensei.

Luz pra todo lado, seguranças de terno, fila cheia de gente rica demais para ser real. O tipo de lugar onde ninguém entra por acaso.

— Você consegue, ele não tá aqui, é só por essa noite. — sussurrei pra mim mesma.

Mas primeiro eu preciso encontrar o meu passe livre. Ou seja algum idiota que seria facilmente enganado por uma saia curta. 

Escutei uma risada alta e profunda, como a do papai noel. Era um cara bem velho na fila, rindo alto, todo confiante, com chapéu de cowboy, com um terno todo branco, claramente se achando o dono do mundo.

A vítima perfeita.

Me aproximei devagar, fingindo mexer no celular.

— Você sabe dizer se essa fila anda ou se a gente vai passar a vida toda aqui fora? — perguntei, fazendo uma cara sexy do tipo “sou bonita demais pra você, mas você parece rico”

Ele riu na hora.

— Anda sim princesinha. Mas só pra quem tem convite VIP que nem esse aqui.—Ele sacudiu o convite e colocou no bolso.

Inclinei a cabeça e sorri.

— Nossa, que sorte eu tá aqui com você agora, né?!

Ele me olhou de cima a baixo, sem nenhum pudor.

— Você é direta assim sempre?

— Só quando preciso — respondi. — E hoje eu preciso muito entrar.

— Bom… — ele abriu um sorriso convencido. — Eu posso te levar comigo. Mas você vai ter que ser minha acompanhante, eu até pago todas as bebidas quando você entra e quem sabe o que acontece depois…

— Amor da minha vida — falei na hora, segurando o braço dele. —Eu vou adorar ser sua acompanhante, quando a minha amiga chegar ela vai adorar te conhecer!! —Falei me segurando pra não olhar pra ele com desprezo. 

Ele gargalhou. — Gostei de você.

—E eu gostei desse seu chapéu lindo, combina com o terno! –Falei com um sorriso longo e falso.

Ele caiu feito um patinho, mencionou sobre sua fazenda e como o carro dele é grande e caro e blá blá blá…

Entramos juntos. Assim que passamos pela porta, soltei o braço dele.

— Eu vou ao banheiro rapidinho, mas já volto. Me espera aqui, tá? — falei fingindo interesse e aproveitando pra fugir antes que ele virasse um cão sarnento e pulasse em cima de mim.

— Claro bonequinha— ele respondeu, confiante demais.

Entrei no meio da multidão e nunca mais olhei pra trás.

Graças a deus o espaço era enorme e logo eu estava distante o suficiente para ele não me encontrar de novo.

Peguei uma bebida qualquer no bar, fingindo ser amiga de alguém em uma mesa, que é o melhor jeito de beber sem pagar, respirei fundo e senti o corpo finalmente relaxar um pouco.

Talvez Giselly tivesse razão.

Talvez eu ainda estivesse viva. 

Talvez eu ainda conseguisse curtir uma noite sem sentir medo.

Foi quando alguém esbarrou em mim.

— Ei, olha por onde anda!—respondi automaticamente, levantando o rosto 

— Calma esquentadinha, foi sem querer!— a voz masculina falou, calma demais pra quem tinha acabado de me atingir como um muro.

E eu congelei.

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