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8 — Linhas que não deveriam ser cruzadas

CAPÍTULO 8 — Linhas que não deveriam ser cruzadas

"Matteo Thompson"

O corredor estava silencioso demais para aquela hora da noite.

O tipo de silêncio que amplia pensamentos, que faz qualquer decisão parecer maior do que realmente é. Eu fiquei parado diante da porta por alguns segundos antes de tocar. Não por dúvida, mas por controle. Eu precisava entrar ali do mesmo jeito que entrava em uma sala de reunião: sem hesitar.

A porta se abriu.

— O que você faz aqui? — Emma perguntou, surpresa.

— Aconteceu alguma coisa com a Sophia?

A preocupação veio antes da raiva. Antes de qualquer outra coisa. Aquilo não passou despercebido.

Não respondi à pergunta de imediato.

Emma cruzou os braços, como se tentasse se esconder do próprio constrangimento. Deu um passo para trás. O pijama leve contrastava com a tensão estampada no rosto. Ela parecia cansada. Não fisicamente. Era um cansaço mais fundo, acumulado.

Eu mantive a expressão neutra.

Observei rápido demais. O espaço pequeno, simples e organizado. O tipo de lugar que denunciava alguém que vive com o essencial. E o jeito como ela parecia fora de defesa, fora de postura. Não era uma Emma profissional. Era só ela. E isso me deixou desconfortável.

— Arrume suas coisas — disse, direto. — Vim te buscar.

As palavras soaram duras até para mim, mas eu não suavizei. Não era assim que eu funcionava.

Ela piscou, claramente sem acreditar no que tinha ouvido.

— Como é que é?

— A Sophia não se adaptou a ninguém — continuei, seco, como se estivesse falando de um problema logístico. — Não consegui contratar outra babá qualificada. Ela não aceitou bem nenhuma delas.

Era verdade. Mas não toda a verdade. Emma me encarou em silêncio por alguns segundos. O tipo de silêncio que pesa mais do que qualquer resposta imediata.

— Você vem até aqui — disse devagar — depois de me humilhar, me demitir e me mandar embora… e acha que pode simplesmente me buscar?

— Estou resolvendo a situação — respondi. — Como sempre faço.

Porque resolver era o que eu sabia fazer. Controlar. Decidir. Avançar.

— Não — ela rebateu. — Você está fingindo que nada aconteceu.

Respirei fundo, impaciente. Aquela conversa estava saindo do eixo que eu havia planejado. Eu não vinha para discutir sentimentos. Vinha para corrigir um erro operacional. Pelo menos era isso que eu repetia para mim mesmo.

— A Sophia sente sua falta — acrescentei. — E isso está atrapalhando...

— Pare — ela me interrompeu. — Não fale dela como se fosse um problema a ser corrigido.

O silêncio ficou pesado.

Não porque eu não tivesse resposta. Mas porque, pela primeira vez, eu não tinha certeza se queria dizê-la.

— Eu gosto da Sophia — Emma continuou, a voz firme. — É impossível não se afeiçoar a ela. Nós tivemos uma conexão instantânea. Como se… — ela hesitou, mas seguiu — como se nós duas precisássemos uma da outra. Mesmo que você não acredite, essa é a verdade.

A palavra "precisar" ficou ecoando.

— Não confunda isso com...

— Não confunda controle com cuidado — ela devolveu, sem levantar a voz.

Aquilo foi um golpe limpo. A tensão aumentou. Não porque estávamos gritando. Mas porque ninguém recuava.

— Arrume suas coisas — repeti. — Vamos agora.

Ela soltou um riso curto, sem humor.

— Não assim.

— Você está exigindo demais.

— Não — respondeu. — Estou pedindo o mínimo. Um pedido de desculpas.

Senti a mandíbula travar. Eu não pedia desculpas. Eu corrigia rotas. Ajustava processos. Seguia em frente.

— Pelo quê?

— Sério, ainda pergunta? — disse, sem hesitar. — Por ter gritado comigo. Por ter me chamado de incompetente quando tudo o que eu fiz foi cuidar da sua filha com amor e responsabilidade.

— Você precisa desse emprego — retruquei, frio.

Era verdade. E eu usei isso como arma. Ela sustentou meu olhar.

— Preciso — admitiu. — Mas mereço respeito.

O silêncio se alongou. Eu não gostava daquele tipo de silêncio. Ele me colocava em lugares que eu evitava há anos.

— Além disso — continuou —, você não veio aqui por mim. Veio porque precisa de mim.

— Não confunda as coisas.

— Então diga — ela desafiou. — Diga que não precisa.

Abri a boca para responder… e não consegui,

porque a resposta era óbvia demais.

— Ou melhor — ela corrigiu. — A Sophia precisa.

A frase ficou suspensa entre nós. Era verdade. Crua. Incômoda.

— Eu preciso de você — falei, por fim, num tom mais baixo do que pretendia.

— Isso não é um pedido de desculpas — ela respondeu.

— Você está sendo atrevida — rebati. — Não acha que está querendo demais não?

— Não — disse, firme. — Só estou exigindo o que é justo.

O orgulho travou minha garganta. As palavras ficaram presas. O tempo passou lento demais.

— Desculpa — murmurei, quase inaudível.

— O quê? — ela perguntou, franzindo a testa. — Não ouvi.

— Eu já falei — respondi, irritado. — E não vou falar de novo.

Emma me observou por um segundo a mais do que o necessário. Então se virou, caminhando até a porta. Cada passo dela parecia um ultimato.

— Tudo bem — disse — Então pode ir.

— Emma.

Ela não respondeu.

Foi quando segurei seu pulso, impedindo-a de abrir a porta. O toque foi involuntário, instintivo,

mas o efeito foi imediato.

Ela parou e eu também. Um choque silencioso percorreu meu braço. Algo despertou, algo que eu não permitia sentir havia muito tempo.

Emma virou o rosto lentamente e nossos olhos se encontraram. A respiração dela falhou por um segundo, a minha também, e o mundo pareceu diminuir ao redor.

— Desculpa — disse outra vez, agora claro. — Eu… peço desculpas.

Ela não respondeu de imediato.

Ficamos ali, presos naquele espaço mínimo entre nós. Meu olhar desceu, contra a vontade, para a boca dela. A tensão se tornou quase insuportável. Foi então que o som cortou o momento.

A campainha tocou.

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