Mundo de ficçãoIniciar sessãoElise Quinn
O cheiro insuportável daquele apartamento continua preso na minha garganta quando Atlas agarra minha cintura e me puxa para longe da parede. As letras continuam ardendo na minha mente enquanto Atlas praticamente me arrasta para fora do apartamento. — Não vire para trás — ele ordena, a voz grave, cortada pelo controle que está por um fio. — Temos que ir, agora. Eu o obedeço. Atlas anda na frente, rápido, porém estável, como se soubesse que qualquer segundo ali pode custar caro. — Atlas… — minha voz sai fina. — E se ainda tiver alguém aqui? Ele não olha para mim. — Se tivesse, já teria tentado matar a gente. — Isso é muito reconfortante. — ironizei. Entramos no elevador. O metal das portas fecha fazendo com que a luz refletisse no rosto de Atlas a preocupação. O elevador pinga até o térreo e as portas se abrem. Saímos como se nada tivesse acontecido. Só duas pessoas indo embora de um prédio qualquer em Nova York. A SUV está parada onde deixamos. Atlas abre a porta com tanta força que parece que vai arrancá-la. Eu entro. Ele dá a volta e senta ao volante. Assim que b**e a porta, o silêncio volta. Ele liga o carro, acelera, entra na avenida e só então — só então — o suspiro dele sai. Um suspiro que parece anos de dor acumulada. Ninguém fala nada. Observo a cidade pelas janelas, mas tudo parece borrado, as vezes me sentia como uma pequena ovelha assustada indo para o corredor da morte. — Elise… — ele quebra o silêncio. Eu viro o rosto. — Não conta para ninguém sobre o recado. — Você acha que vou sair por aí falando disso? — digo, sem paciência. — Sei como essas coisas funcionam. Ele respira fundo. A mão dele aperta o volante até os nós dos dedos ficarem brancos. — Eles estão brincando conosco. — ele diz, amargo. — Brincando com a porra das nossas vidas. Encosto a testa no vidro gelado e suspiro. A verdade é que eu não sabia como ajudar Atlas Cross. Ele me encara assim que o veículo atravessa os portões da mansão. — Contratarei três seguranças para você. Dois ficarão grudados em cada passo seu, outro na retaguarda. — Não é um pouco demais? — Arregalei os olhos. — Se você preferir morrer, é sim. — debocha. Eu mal sinto minhas pernas enquanto desço do carro. Atlas segue na frente, tenso como uma corda prestes a arrebentar. Eu o sigo batendo os pés. Dentro da casa, ele vai direto para o escritório, abre a porta com força e pega a garrafa de uísque antes mesmo que eu pense em chamá-lo, a porta é fechada. Respiro fundo. Isso tudo era demais para mim. Uma das governantas me olha e sorri, o que parece até suspeito, ninguém sorri para mim nessa casa. — Está com fome, senhora? — pergunta. — Um pouco. — sorrio tímida. — Só Elise está bom. — Me siga. Fizeram uma lasanha perfeita. Eu a sigo pela cozinha enorme. Meu pai era capo, e tínhamos uma vida confortável, mas nada se comparava aquela casa, era literalmente o puro luxo. A mulher coloca a minha comida, e eu lhe retribuo com um largo sorriso. Há muito tempo não era tratada assim. — Eu criei os dois. — quebra o silêncio. — Os dois meninos Cross. Tenha paciência filha. Atlas é um bom homem, só está enfrentando o luto. — Eu só queria que me odiassem um pouco menos. — sorri fraco. A cada dia eu sentia a tarefa impossível de conviver sob o mesmo teto de quem me odeia. A situação chegava a ser desconfortável. Comi rapidamente e subi para o quarto. No celular, encarei a foto dos meus pais. Acho que os perder em um acidente, foi uma das piores partes da minha vida. Meu pai era um bom homem, apesar de estar inserido nesse mundo, a dor foi tudo que ele conheceu. Enquanto eu dedilhava as fotos, eu ouço um barulho de vidro se quebrar batendo na parede e estilhaçando. — Atlas… — murmuro. Rapidamente desço as escadas chegando no primeiro andar da casa. A porta do escritório estava destrancada, abro a mesma devagar e vejo ele. Ele respira como se algo o estivesse afogando por dentro. Passa a mão no cabelo e em seguida abre a porta da sacada. A brisa gelada invade a sala. Não posso deixá-lo sozinho ali. Eu prometi a Damien. Vou atrás. Atlas está parado bem na beirada. Ombros tensos. Olhar perdido na rua lá embaixo. Meu peito aperta. — Atlas… — sussurro. — Sai daí, por favor. Ele vira o rosto devagar, como se estivesse lutando contra um peso impossível. Seus olhos azuis refletem junto a cor da piscina, ele está completamente bêbado. — Eu não tenho mais nada, Elise. A voz dele quebra. É a primeira vez que eu vejo Atlas Cross daquele jeito. Seu braço está sangrando, provavelmente pelo vidro da garrafa quebrada. — Você se machucou, deixe-me ajudar. — Perdi meu irmão, porra… — ele sussurra. — O único que eu tinha. O único que acreditava em mim. E eu… eu não sei o que fazer. Antes que ele dê mais um passo, eu dou um passo firme e seguro o braço dele. — Não. — digo firme. — Você não vai fazer isso. Ele olha para minha mão segurando o braço dele. Depois olha para mim.Os olhos dele estão vermelhos. — Por que você se importa Quinn? — ele pergunta olhando fixamente em meus olhos. — Porque eu não quero ver você cair. — respondo. — Porque eu não quero ficar sozinha aqui dentro dessa guerra. Porque… — minha voz falha — Nós dois já perdemos demais. Suspiro ao terminar de falar. Atlas dá um passo em minha direção. Depois outro. Ficamos tão perto que posso sentir a respiração dele na minha boca. — E agora eu só tenho você, Elise Quinn… — ele confessa. As mãos dele sobem lento até minha nuca. O toque é quente, firme… desesperado. Nossos rostos se aproximam: menos que um centímetro. O nariz dele roça no meu e eu passo meus dedos pelo seu peito sentindo- o prender a respiração. Meu coração quase explode. Que porra você está fazendo Elise? O lábio dele encosta de leve no meu. TOC. TOC. A porta do escritório. Atlas congela. Eu também. — Chefe? — a voz do Kane atravessa a noite. — Precisamos falar. É urgente.






