Mundo de ficçãoIniciar sessãoO sol da tarde de Dubai começava a suavizar seu brilho, pintando o céu com tons de pêssego e lavanda. Nos jardins da mansão Volttceri, onde cada folha parecia ter sido esculpida à mão por um exército de jardineiros, o silêncio habitual fora substituído por algo estranho, vibrante e caótico: o som de risadas infantis.
Serena, com o uniforme agora manchado de água e os cabelos levemente desalinhados, corria entre as esculturas de mármore carregando uma pistola de água de plástico colorido — um contraste berrante com a estética minimalista da propriedade. Michael e Khalel a perseguiam, os rostos vermelhos de esforço e alegria, segurando seus próprios "armamentos" com uma determinação que nunca demonstraram nas aulas de álgebra ou francês.
— Atrás da fonte, Michael! — gritou Khalel, a voz subindo uma oitava. — A Serena vai nos cercar!
Pela primeira vez em seis anos, eles não eram herdeiros de um império náutico. Eram apenas crianças de seis anos em uma guerra épica contra a sua babá. O gramado impecável estava encharcado, e o som da água batendo nas pedras se misturava aos gritos de euforia.
O momento de pureza foi interrompido pelo som grave de um motor potente. Um Rolls-Royce Cullinan preto, tão brilhante que refletia o jardim como um espelho escuro, deslizou pelo cascalho da entrada e parou a poucos metros da cena. O silêncio que se seguiu à parada do motor foi imediato. Os meninos congelaram, as pistolas de água baixando instintivamente.
A porta traseira se abriu e Olga Volttceri emergiu. Ela estava impecável em um tailleur de seda creme, os óculos escuros escondendo seus olhos, mas sua postura exalava uma tensão que Serena sentiu de longe. Olga caminhou em direção ao grupo, seus saltos finos afundando levemente na grama molhada — algo que ela claramente detestava.
— O que significa isso? — A pergunta de Olga não foi um grito, mas um sussurro gélido que cortou a atmosfera de brincadeira como uma navalha.
Serena respirou fundo, limpando uma gota de água que escorria pelo seu rosto. Ela sentiu o olhar de Michael e Khalel fixos nela, buscando proteção.
— Senhorita Hurvix, eu lhe fiz uma pergunta — insistiu Olga, parando a dois passos de Serena. Ela retirou os óculos escuros, revelando olhos que não brilhavam com raiva, mas com uma confusão profunda e perturbada. — O jardim está arruinado. As roupas deles, que custam mais do que o seu salário anual, estão encharcadas. Eu contratei uma profissional, não uma animadora de circo.
Serena olhou para os meninos e fez um sinal suave para que eles se afastassem um pouco. Ela sabia que este embate era inevitável.
— Sra. Volttceri — começou Serena, mantendo o tom de voz baixo e respeitoso, mas carregado de uma firmeza que surpreendeu a si mesma. — Eu estou apenas ensinando Michael e Khalel a serem crianças.
Olga soltou uma risada curta e seca. — Eles não têm tempo para "serem crianças", Serena. Eles têm um legado para carregar. O mundo não terá piedade deles porque souberam brincar com pistolas de água. O mundo exige excelência.
— A excelência não precisa vir acompanhada da morte da alma, senhora — retrucou Serena, dando um passo à frente, estreitando a distância entre a simplicidade de seu uniforme molhado e o luxo da seda de Olga. — Eu não tirei nada do que a senhora exigiu. Eles completaram a caligrafia, as lições de francês e o treino de natação. Mas eles têm seis anos. Seis.
Serena apontou para os gêmeos, que agora observavam uma borboleta perto de um arbusto, ainda segurando as armas de plástico.
— A senhora tem medo de que eles sejam adultos mal-sucedidos, eu entendo. Mas a senhora não pode roubar a infância deles por causa desse medo. Se eles crescerem sem saber o que é um ataque de riso ou como é a sensação de correr até perder o fôlego, eles não serão líderes. Serão apenas estátuas de mármore em uma casa cheia de outras estátuas. Eles precisam sentir que o mundo é algo mais do que um contrato a ser assinado.
Olga abriu a boca para responder, uma frase ácida já pronta na ponta da língua, mas as palavras pareceram travar em sua garganta. Ela olhou para os filhos. Michael havia acabado de disparar um pequeno jato de água em uma flor, rindo baixinho quando as pétalas balançaram. Khalel o acompanhou, um sorriso genuíno iluminando seu rosto — um sorriso que Olga raramente via, exceto em fotografias ensaiadas.
O silêncio que se seguiu foi longo e pesado. O vento soprava levemente, trazendo o cheiro da grama molhada. Serena observou Olga de perto. A máscara de perfeição da bilionária parecia estar rachando. Pela primeira vez, a agressividade de Olga não encontrou vazão. Ela não gritou, não chamou Vouché, não ameaçou demitir Serena.
Em vez disso, Olga permaneceu ali, estática. Seus olhos azuis, normalmente tão frios quanto o aço, tornaram-se aquosos. Ela observava os meninos como se estivesse vendo estranhos, ou talvez, como se estivesse vendo um reflexo de algo que ela mesma perdera há muito tempo.
Serena viu quando a garganta de Olga se moveu em um deglutição difícil. Uma única lágrima, solitária e brilhante, escapou do canto do olho esquerdo de Olga, deslizando pela pele perfeitamente maquiada antes de ser rapidamente limpa por um gesto brusco da mão enluvada.
Sem dizer uma única palavra, Olga deu as costas. Ela caminhou de volta para o carro com passos que não tinham mais a mesma firmeza arrogante de antes. Ela parecia subitamente pequena, apesar das joias e da grife.
— Sra. Volttceri? — chamou Serena, meio incerta.
Olga parou com a mão na maçaneta do Rolls-Royce. Ela não se virou.
— Apenas... garanta que eles troquem de roupa antes que Khaleb chegue — disse ela, a voz embargada, mal saindo como um sussurro. — Ele não gosta de desordem.
A porta do carro se fechou com um baque surdo, e o veículo se afastou silenciosamente, deixando Serena sozinha no jardim com os meninos e um mistério perturbador.
O que teria acontecido com Olga? Serena ficou ali, imóvel, enquanto os meninos voltavam a correr em sua direção, pedindo por mais uma rodada de "guerra". Ela sorriu para eles, mas sua mente estava longe. Ela pensava na lágrima de Olga. O gelo que cobria o coração daquela mulher não parecia ser feito de maldade pura, mas de uma camada espessa de proteção. O que alguém teria que sofrer para sentir que o riso de um filho é uma ameaça? Que tipo de infância a própria Olga tivera, ou que tipo de trauma o casamento com a obsessão dos Volttceri teria causado nela?
Serena percebeu que a vilã de sua história talvez fosse apenas mais uma vítima daquele palácio de ouro. E, enquanto brincava com Michael e Khalel, ela sentiu que a verdadeira batalha não era contra Khaleb ou contra a disciplina de Olga, mas contra a tristeza invisível que assombrava cada canto daquela mansão.
Ao longe, em uma das janelas do andar superior, uma cortina se moveu. Khaleb estivera observando tudo. Ele vira a brincadeira, vira o confronto e, principalmente, vira a fraqueza de sua esposa. Seu olhar, no entanto, não continha a mesma melancolia de Olga. Ele brilhava com uma satisfação sombria. Para Khaleb, Serena era a peça perfeita que estava começando a quebrar as defesas de todos naquela casa, tornando-os vulneráveis aos seus próprios desejos.
— De novo, Serena! De novo! — gritou Michael, puxando a barra de seu uniforme molhado.
— Tudo bem, pequenos soldados — disse ela, sacudindo os pensamentos. — Mas agora, a dragão vai ganhar!
A risada voltou ao jardim, mas a imagem de Olga, chorando em silêncio dentro de um carro de luxo, permaneceria gravada na mente de Serena como o primeiro sinal de que, naquela família, o ouro escondia cicatrizes que o dinheiro jamais poderia curar.







