Mundo de ficçãoIniciar sessãoO fim de tarde havia sido uma vitória silenciosa, mas profunda. O jardim, antes um monumento de frieza, guardava agora as poças de água e as memórias do riso. Serena conduziu Michael e Khalel para dentro, seus pequenos corpos relaxados após um banho morno onde, pela primeira vez, eles se permitiram espirrar água um no outro sem medo, ela os levou para o jantar.
A sala de jantar estava imersa em uma luz suave. Serena sentou-se entre eles, servindo as porções com cuidado.
— Abram o bico, pequenos aviadores! — disse ela, fazendo o talher descrever piruetas no ar. — Esse aqui está carregado de energia para o treino de amanhã.
Khalel soltou uma risadinha, abrindo a boca com vontade. Michael, o mais sério, observava o irmão antes de se permitir participar da brincadeira. Havia um brilho de gratidão no olhar dos meninos, uma confiança que Serena conquistara não com ordens, mas com presença. No entanto, a atmosfera mudou no instante em que o som de passos firmes ecoou no mármore.
Khaleb Volttceri entrou no recinto. O ar pareceu se tornar mais denso, carregado pela sua presença magnética e autoritária. Serena sentiu o impacto, mas não desviou o olhar do que fazia. Ela o ignorou deliberadamente, focando sua atenção total nos meninos, que imediatamente empertigaram as costas e baixaram os olhos, voltando à rigidez habitual.
— Continuem, meninos — Serena sussurrou, tocando suavemente o ombro de Michael. — O avião ainda tem uma manobra para fazer. Está tudo bem.
Sob o olhar atento e silencioso do pai, que se sentou à cabeceira para sua própria refeição, os gêmeos terminaram de comer. O silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo som da prataria, mas Serena mantinha um sorriso encorajador, agindo como um escudo invisível entre a pressão da figura paterna e a fragilidade das crianças.
Khaleb terminou sua taça de vinho, limpou os lábios com o guardanapo de linho e fixou os olhos escuros em Serena.
— Termine de recolher os meninos, Serena. Depois, encontre-me em meu escritório em vinte minutos. Temos assuntos a tratar.
— Sim, senhor — ela respondeu, sem submissão, apenas profissionalismo.
Após o jantar, ela os levou para o andar superior. A enfermeira noturna já os aguardava na porta do quarto. Antes de sair, Serena se abaixou à altura deles.
— Boa noite, meus anjos. Durmam bem.
Inclinando-se, ela depositou um beijo carinhoso na testa de cada um. O gesto causou um choque visível. Michael e Khalel arregalaram os olhos, estáticos por um segundo. Eles nunca haviam recebido tal demonstração de afeto espontâneo; na casa dos Volttceri, beijos eram para fotos, não para a hora de dormir. Lentamente, um pequeno sorriso surgiu nos lábios de Khalel, enquanto Michael assentiu com um brilho suave no olhar. Serena já os amava, e naquele momento, eles souberam.
Vinte minutos depois, Serena bateu à porta do escritório.
— Entre — a voz de Khaleb veio profunda.
Ele estava de pé, de costas para a porta, observando através da imensa parede de vidro o horizonte iluminado de Dubai. As luzes da cidade refletiam-se no vidro, fazendo-o parecer o mestre de um império de néon e sombras.
— Sente-se — ordenou ele, sem se virar.
Serena obedeceu, sentando-se na poltrona de couro. Khaleb finalmente virou-se e caminhou lentamente em direção à sua mesa, sentando-se de forma relaxada, mas com os olhos fixos nela.
— Tenho observado você, Serena. A evolução das crianças é notável. Eles parecem mais... acordados. Menos como os robôs que Olga insiste em moldar.
— Eles são crianças incríveis, Sr. Volttceri. Só precisavam de permissão para agir como tal.
Khaleb inclinou-se para a frente, diminuindo a distância entre eles. O tom de sua voz mudou, tornando-se mais baixo, quase íntimo, carregado de uma melancolia calculada.
— Minha vida nesta casa é um deserto, Serena. Olga e eu... nos tornamos estranhos há muito tempo. Desde o nascimento dos meninos, ela mudou. Não se adaptou às transformações do próprio corpo, passou a me evitar, a se trancar em seu próprio mundo de gelo e futilidades. Sinto falta de ter alguém com quem conversar, alguém que tenha essa... vivacidade que você trouxe.
A entonação era clara. Ele estava pintando a imagem de um homem poderoso e solitário, abrindo uma brecha para que ela se sentisse especial, uma cúmplice em um romance proibido sob o teto da mansão. Serena sentiu o perigo daquela oferta silenciosa, mas manteve o rosto impassível, fingindo não captar as entrelinhas sedutoras.
— Sinto muito pelo seu distanciamento, senhor. Espero que vocês consigam se entender, pelo bem dos meninos — respondeu ela, mantendo a conversa estritamente profissional.
Khaleb sorriu de canto, um brilho de frustração e admiração cruzando seu olhar. Antes que ele pudesse insistir, o som estridente e agudo de um telefone antigo cortou o ar. Serena tencionou-se. Ela puxou do bolso seu celular — um aparelho simples, com a tela trincada e a carcaça visivelmente gasta pelo tempo.
Khaleb fixou os olhos no objeto capenga com um misto de desdém e curiosidade. Aquele telefone era um lembrete físico de que, apesar de estar ali, ela pertencia a um mundo de necessidades reais, não de caprichos bilionários.
— É a Madame Vouché — disse ela, olhando para a tela. — Com licença, preciso atender. Ela deve estar me procurando para as instruções de amanhã.
Ela levantou-se antes mesmo de ele dar permissão. Khaleb permaneceu sentado, observando-a com uma intensidade que queimava.
— Serena — chamou ele, quando ela já estava na porta.
Ela parou, mas não se virou.
— Nós ainda não terminamos nossa conversa sobre o que eu preciso nesta casa.
— Tenha uma boa noite, Sr. Volttceri — ela respondeu calmamente, saindo do escritório e fechando a porta atrás de si sem olhar para trás nem uma única vez.
O corredor estava silencioso, mas o coração de Serena batia forte. Ela caminhou em direção ao encontro com a governanta, deixando para trás o homem mais poderoso de Dubai sozinho com sua obsessão e seu império de vidro, enquanto ela segurava com firmeza seu telefone simples, o último laço que ainda a conectava à sua própria realidade.







