Inicio / Romance / A Vinda de Serena / Capitulo 3- O primeiro contato
Capitulo 3- O primeiro contato

O táxi que levava Serena Hurvix parecia deslocado conforme avançava pela estrada perfeitamente pavimentada que cortava o deserto em direção ao enclave mais exclusivo de Dubai. Atrás dela, o horizonte de arranha-céus cintilantes diminuía; à sua frente, apenas o azul profundo do Golfo Pérsico e as muralhas de arenito polido que protegiam as propriedades dos homens que moldavam o mundo. Serena apertava as alças de sua bolsa de couro sintético, sentindo o suor frio humedecer a palma de suas mãos. Aos vinte e quatro anos, ela já havia cuidado de crianças em apartamentos apertados e casas de classe média, mas nada a preparara para a magnitude do que estava prestes a enfrentar.

Quando o veículo parou diante dos portões de ferro fundido, adornados com o brasão da família — uma âncora estilizada entrelaçada em folhas de acanto — Serena sentiu um calafrio que não tinha relação com o ar-condicionado do carro. As câmeras de segurança, discretas mas onipresentes, pareceram girar em uníssono, escaneando não apenas o veículo, mas sua alma. Após um breve diálogo do motorista pelo interfone, os portões pesados se abriram sem ruído, revelando um caminho ladeado por palmeiras imperiais que pareciam curvar-se sob o peso da riqueza que guardavam.

A mansão surgiu como uma miragem de mármore branco e painéis de vidro fumê. Não era apenas uma casa; era uma declaração de poder. O aroma de jasmim e irrigação artificial combatia o calor seco do exterior, criando um microclima de frescor e privilégio. Serena desceu do carro, sentindo-se pequena sob a marquise monumental. Antes que pudesse levar a mão à campainha, a porta de carvalho maciço abriu-se.

Madame Vouché a esperava. A governanta francesa era a personificação da disciplina: o coque cinzento perfeitamente alinhado, o uniforme escuro sem um único vinco e um olhar que parecia pesar o valor de Serena em miligramas.

— Senhorita Hurvix? — A voz de Vouché era um sussurro autoritário. — Sou a Madame Vouché. Por favor, entre. O tempo é o recurso mais caro desta casa, e o Sr. Khaleb não gosta de desperdiçá-lo.

Serena assentiu, engolindo em seco, e seguiu a mulher pelo hall de entrada. O chão de mármore italiano era tão polido que ela temia deixar rastros com seus sapatos simples. Lustres de cristal de rocha pendiam do teto de pé-direito triplo, refratando a luz solar em prismas que dançavam pelas paredes adornadas com arte contemporânea que valia mais do que Serena ganharia em dez vidas.

Enquanto caminhavam, o silêncio da casa era absoluto, quebrado apenas pelo estalido rítmico dos saltos de Vouché. Não se ouvia riso de criança, nem o som de uma televisão ou conversa casual. Era um museu habitado por fantasmas de luxo.

— Os meninos, Michael e Khalel, são crianças enérgicas — explicou Vouché sem olhar para trás. — Mas nesta casa, a ordem é a lei suprema. A Sra. Olga preza pela discrição absoluta. Você será vista, mas raramente ouvida. Entendeu?

— Sim, senhora — respondeu Serena, sua voz soando estranhamente alta naquele ambiente estéril.

Elas subiram uma escadaria flutuante que levava ao escritório particular de Khaleb. A cada degrau, Serena sentia o ar tornar-se mais pesado, carregado com o cheiro de sândalo e tabaco caro. Vouché parou diante de uma porta dupla de couro escuro e bateu suavemente.

— Entre — veio a voz de dentro. Tinha um tom profundo, vibrante, que pareceu reverberar na boca do estômago de Serena.

O escritório era vasto, com uma parede inteira de vidro voltada para o oceano. Atrás de uma mesa de ébano maciço, Khaleb Volttceri estava sentado. Ele não se levantou imediatamente. Seus olhos, escuros como o petróleo que enriquecera seus ancestrais, estavam fixos em alguns documentos, mas Serena sentiu, no instante em que cruzou a soleira, que ele já sabia exatamente como ela estava vestida, como seu cabelo caía sobre os ombros e como sua respiração estava acelerada.

Khaleb finalmente ergueu o olhar. O impacto foi físico. Ele possuía uma beleza predatória, esculpida pelo cinismo e pela autoridade absoluta. Não havia calor em sua expressão, apenas uma curiosidade clínica que rapidamente se transformou em algo mais denso, mais sombrio.

— Obrigado, Vouché. Pode nos deixar — disse ele, sem desviar os olhos de Serena.

A governanta retirou-se, fechando a porta com um clique final. Serena viu-se sozinha com o homem que, em menos de vinte e quatro horas, havia se tornado obcecado pela sua imagem em um monitor.

— Sente-se, Senhorita Hurvix — ele gesticulou para uma poltrona de veludo à frente da mesa.

Serena obedeceu, tentando manter a postura. Khaleb inclinou-se para a frente, entrelaçando os dedos longos. O relógio de platina em seu pulso brilhou sob a luz do escritório.

— Analisei muitos currículos — ele começou, sua voz deslizando como seda sobre pedras. — Mulheres com doutorados em pedagogia, enfermeiras com décadas de experiência em Londres e Paris. Currículos impecáveis, técnicos, frios. O seu, em comparação, é... modesto.

Serena sentiu o rosto esquentar. — Eu tenho experiência prática, Sr. Volttceri. Eu entendo as necessidades emocionais das crianças, não apenas os protocolos.

Um meio sorriso, desprovido de qualquer alegria, surgiu nos lábios de Khaleb. — E é exatamente isso que me fascina. Michael e Khalel não precisam de mais uma preceptora alemã. Eles precisam de algo que esta casa não possui. Eles precisam de vida.

Ele levantou-se e caminhou lentamente até a janela, observando o horizonte. De costas para ela, ele continuou:

— Minha esposa, Olga, é uma mulher de hábitos... rígidos. Ela acredita que a função de uma babá é ser invisível. Eu, por outro lado, acredito que a função de quem cuida dos meus filhos é ser indispensável.

Ele virou-se subitamente. A distância entre eles parecia ter diminuído, embora ele permanecesse perto da janela. O olhar de Khaleb agora percorria o rosto de Serena com uma intensidade que a fazia sentir-se despida. Ele não estava avaliando sua capacidade de contar histórias de ninar; ele estava catalogando cada detalhe de sua existência.

— Você disse que tem disponibilidade para morar aqui. Sabe o que isso significa na prática? — Ele deu um passo em direção a ela. — Significa que sua vida, seu tempo e sua atenção pertencerão a esta propriedade. Eu não tolero distrações. Não tolero segredos.

— Eu entendo as condições de trabalho, senhor — Serena respondeu, tentando manter a voz firme. — Estou disposta a me dedicar inteiramente aos meninos.

— Aos meninos... — Khaleb repetiu as palavras como se fossem um conceito exótico. Ele caminhou até parar a poucos centímetros dela. O perfume dele a envolveu, uma mistura inebriante de poder e perigo. — Veremos, Serena. Veremos se você é tão resiliente quanto parece ser.

Nesse momento, a porta do escritório abriu-se abruptamente, sem bater. Uma mulher alta, de uma magreza aristocrática e cabelos loiros platinados presos em um coque tão apertado que parecia esticar a pele de seu rosto, entrou na sala. Era Olga. Seus olhos azuis, frios como o gelo ártico, varreram Serena com um desprezo instantâneo.

— Então esta é a garota que Madame Vouché aprovou? — Olga perguntou, a voz carregada de desdém. Ela nem sequer olhou para Khaleb.

— Esta é Serena — disse Khaleb, sua voz tornando-se subitamente gélida, desprovida da fascinação de momentos antes. — Ela começa hoje.

Olga deu uma risada curta e seca. — Ela parece uma criança brincando de ser adulta. Tente não estragar os meninos mais do que a governanta já estragou. E, pelo amor de Deus, Khaleb, certifique-se de que ela use um uniforme adequado. Não quero essa... aparência comum circulando pelos meus corredores.

Sem esperar resposta, Olga virou as costas e saiu, deixando para trás um rastro de perfume floral pesado e uma tensão insuportável. Serena sentiu o impacto da hostilidade da patroa, mas o que mais a perturbou foi o olhar de Khaleb. Ele não parecia afetado pelo veneno da esposa; pelo contrário, ele observava a reação de Serena com um prazer sádico.

— Não se preocupe com Olga — disse Khaleb, sua voz voltando ao tom baixo e possessivo. — Ela vive em seu próprio mundo de aparências. O seu mundo, a partir de agora, é este. E neste mundo, a única opinião que realmente importa é a minha.

Ele estendeu a mão, não para um aperto de mão formal, mas para tocar levemente o queixo de Serena, forçando-a a manter o contato visual. O toque foi rápido, quase imperceptível, mas deixou a pele dela formigando.

— Bem-vinda à família Volttceri, Serena. Espero que você saiba onde se meteu.

Serena saiu do escritório com o coração batendo na garganta. Madame Vouché a esperava no corredor para levá-la aos seus aposentos e apresentá-la aos gêmeos. Enquanto desciam para a ala leste da mansão, Serena olhou para trás por um segundo. Khaleb ainda estava à porta do escritório, observando-a partir.

Ela sentiu que as grades de ouro da mansão acabavam de se fechar atrás dela. O luxo era real, mas a obsessão que brilhava nos olhos de Khaleb era o preço que ela teria que pagar por entrar naquele labirinto. E, conforme as sombras da tarde começavam a se alongar sobre os jardins de Dubai, Serena percebeu que não era apenas uma babá contratada; ela era a nova peça de um jogo perigoso onde o rei já havia decidido que ela não teria permissão para sair do tabuleiro.

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP