Mundo de ficçãoIniciar sessãoO despertador ainda não havia tocado quando os olhos de Serena se abriram. No silêncio de sua pequena casa em uma das áreas mais humildes de Dubai, o único som era o zumbido constante do ar-condicionado antigo, lutando contra o calor que já começava a se infiltrar pelas frestas das janelas. O relógio marcava pouco antes das cinco da manhã. Para muitos, era madrugada; para Serena, era o momento em que a sobrevivência começava a ser planejada.
Ela levantou-se com movimentos mecânicos, guiada por uma rotina de solidão que cultivava desde os dezoito anos. Enquanto a água fervia para o café, Serena observava o reflexo embaçado no vidro da cozinha. Aquela era uma casa de memórias silenciosas. Sua mãe partira no mesmo ano em que ela atingira a maioridade, deixando-a com um vazio no peito e uma escritura de propriedade modesta. Do pai, restavam apenas fragmentos: o cheiro de tabaco, o som de uma porta batendo e uma ausência que nunca foi preenchida. Serena aprendera cedo que, se quisesse algo, teria de buscar com as próprias mãos.
Seu primeiro contato com o mundo do trabalho fora em uma creche local. Lá, entre fraldas, choros e risos genuínos, ela descobriu sua vocação. Havia algo na pureza das crianças que curava suas próprias feridas. No entanto, o mundo dos adultos era bem menos puro. Após uma série de desentendimentos com uma coordenadora autoritária que via a dedicação de Serena como uma ameaça, ela se viu na rua. Desde então, sobrevivia de trabalhos temporários, cuidando de crianças por algumas horas para famílias que mal sabiam seu sobrenome. O dinheiro era o suficiente para manter as contas em dia, mas a insegurança alimentar e o medo do amanhã começavam a pesar em seus ombros.
— Hoje tem que ser o dia — murmurou para si mesma, servindo o café forte e sem açúcar.
Após arrumar a casa com um zelo quase ritualístico, ela sentou-se diante do computador capenga. A luz da tela iluminou seu rosto cansado enquanto ela navegava por sites de emprego. As ofertas eram escassas ou exigiam qualificações que ela não podia pagar. Mas, após alguns minutos de rolagem indiferente, um anúncio patrocinado saltou aos olhos, brilhando como uma pepita de ouro no meio do cascalho:
"OPORTUNIDADE: CUIDADORA DE CRIANÇAS. Remuneração acima da média. Disponibilidade imediata. Interessadas, anexar currículo abaixo."
Não havia nome de empresa, apenas a promessa de um pagamento generoso. Sem hesitar, Serena anexou seu arquivo e clicou em enviar. O silêncio voltou a reinar, mas apenas por dez minutos. O toque estridente de seu celular cortou o ar, fazendo-a dar um sobressalto.
— Senhorita Hurvix? — A voz do outro lado não esperou por saudações. Era profunda, metálica e carregava uma autoridade que Serena nunca havia ouvido antes.
— Sim, sou eu. Quem gostaria? — respondeu, instintivamente empertigando a postura na cadeira.
— Me chamo Khaleb Volttceri. — O nome soou como um trovão. — Gostaria de agendar uma entrevista presencial para tratarmos das condições da vaga que anunciei. Antes de prosseguirmos: você se considera apta para cuidar de crianças de alto nível?
Serena sentiu o sangue subir às faces. — Bom, Sr. Volttceri, eu trabalho com crianças desde os meus dezesseis anos. Sou completamente apaixonada pelo que faço e acredito que minha experiência prática...
— Senhorita — ele a interrompeu, a voz agora mais firme, quase cortante. — Eu não perguntei sobre sua paixão. Eu perguntei se você se considera apta.
O tom dele era gélido, mas havia um magnetismo estranho naquela rispidez. Serena respirou fundo, absorvendo o golpe e devolvendo na mesma moeda.
— Sim, eu me considero perfeitamente apta. E aceito a entrevista. Onde, quando e a que horas devo comparecer?
Houve uma pausa do outro lado da linha, um breve segundo onde Serena jurou ouvir a respiração pesada do homem.
— Esteja amanhã, pontualmente às oito horas, na Salaam Halid Street, número 102. Madame Vouché irá recepcioná-la. Não se atrase. Eu detesto a impontualidade tanto quanto a incompetência.
O clique do desligamento foi imediato. Serena ficou segurando o aparelho por alguns segundos, processando a interação. Ela correu para pegar papel e caneta, anotando o endereço antes que a memória falhasse. Quando finalmente digitou a localização no site de buscas, o ar faltou em seus pulmões.
O mapa apontava para um complexo de mansões na orla mais luxuosa de Dubai, uma área onde até o ar parecia custar dinheiro. O número 102 não era apenas uma casa; era um palácio fortificado à beira-mar.
— Meu Deus... — sussurrou. — Eu vou trabalhar para os Volttceri.
A curiosidade, agora misturada a uma ansiedade febril, a levou a pesquisar o nome. Em poucos minutos, o cenário se montou diante de seus olhos em fotos de alta resolução: Khaleb Volttceri, o magnata dos mares, herdeiro de uma dinastia de locação de iates; Olga Volttceri, uma socialite russa com um olhar que poderia congelar o deserto; e os gêmeos, Michael e Khalel. Nas fotos de paparazzi, o casal raramente aparecia junto, e quando apareciam, a distância entre eles era palpável. Era um império construído sobre ouro e gelo.
Durante o restante do dia, Serena tentou se ocupar, mas sua mente era uma armadilha. Ela limpou as janelas, lavou suas melhores roupas e revisou seu discurso, mas a voz de Khaleb voltava como um eco persistente. Era uma voz que não pedia, ordenava. Uma voz que parecia saber segredos que ela nem sabia que guardava.
Ela preparou seu jantar simples — arroz com legumes — e sentou-se na varanda para observar as estrelas que começavam a surgir sobre o deserto. Dubai era uma cidade de extremos: o luxo obsceno de um lado e a luta silenciosa do outro. Ela estava prestes a cruzar essa fronteira.
— Vai dar tudo certo — disse para a escuridão, tentando convencer a si mesma. — É apenas um emprego. São apenas crianças.
Mas, no fundo, Serena sentia que algo havia mudado no momento em que ele dissera seu nome. Não era apenas uma vaga de babá; era um convite para entrar em um jogo cujas regras ela ainda não conhecia. O coração dela batia em um ritmo frenético, uma mistura de medo e uma excitação perigosa que ela não conseguia explicar.
Ao deitar-se naquela noite, Serena fechou os olhos, mas o sono demorou a vir. A voz de Khaleb, o rosto gélido de Olga e a imensidão daquela mansão dançavam em sua mente. Amanhã, às oito da manhã, a vida simples de Serena Hurvix deixaria de existir. Ela só não sabia ainda se seria libertada pela fortuna ou devorada por ela.







