Capítulo 6 — Tempestade

POV: Ghost

A chuva começou antes que voltassem ao clube e transformou a rodovia numa faixa de asfalto brilhante. Ghost seguia à frente quando viu o caminhão atravessado na pista. Não havia sinalização, motorista ou marcas de frenagem. Era uma barreira.

— Recuem! — ordenou pelo comunicador.

O primeiro tiro atingiu o para-brisa da caminhonete blindada. Homens surgiram no barranco, alguns usando coletes dos Abutres e outros sem identificação. Ghost derrubou a moto, usou o motor como cobertura e respondeu ao fogo. Marco e Caio abriram espaço para a caminhonete manobrar, mas um utilitário fechou a retaguarda.

— Sofia, leve Aurora para o leito do riacho! — gritou Ghost.

— Negativo — respondeu Sofia pelo rádio. — O riacho está cheio e temos um ferido.

Davi, o prospect que insistira em acompanhar o comboio, estava caído junto ao veículo de apoio. Caio tentou alcançá-lo, mas uma sequência de disparos o obrigou a recuar.

Ghost calculou distâncias. Se avançasse pelo lado esquerdo, poderia cobrir Caio, mas deixaria a caminhonete exposta. Então o caminhão atravessado ligou o motor. Aurora estava na cabine.

Ela se inclinou sobre o volante, engatou a marcha e lançou o caminhão contra o utilitário da retaguarda. O impacto abriu um corredor. Sofia saiu pela porta do passageiro e arrastou Davi para trás do eixo. Marco atirou nos pneus do veículo inimigo.

— Ela enlouqueceu? — rugiu Ghost.

— Ela criou uma saída — respondeu Marco. — Fique furioso depois.

O confronto durou menos de quatro minutos. Quando os atacantes perceberam que perderam a vantagem, recuaram em motos escondidas entre as árvores. Dois ficaram feridos; um deles morreu antes de ser interrogado. O outro tinha a língua mutilada e o símbolo de um corvo gravado a ferro no peito.

Davi fora atingido no ombro. Aurora pressionava a ferida com as duas mãos quando Ghost chegou.

— Continue falando comigo — dizia Aurora ao rapaz. — Conte por que escolheu o nome Davi e não algum apelido absurdo.

— Minha mãe escolheu — murmurou Davi.

— Então não estrague o trabalho dela. Respire.

Ghost ajoelhou ao lado.

— A ambulância está a caminho. Marco vai com ele.

Aurora levantou os olhos. Chuva corria por seu rosto, misturada com uma pequena linha de sangue na testa.

Aurora voltou ao ponto central:

— Ele precisa de plasma. O hospital municipal estava com estoque baixo ontem; vi a notícia.

Sofia já fazia a ligação para uma clínica parceira. A precisão de Aurora impediu que o medo dominasse todos ao redor.

Quando Davi foi levado, Ghost conduziu-a para trás da caminhonete.

— O que você fez foi imprudente — disse Ghost. — Poderia ter sido atingida na cabine.

— Se eu não movesse o caminhão, Davi morreria na pista.

Ghost deixou a resposta amadurecer por um instante:

— Caio encontraria uma forma.

— Caio estava sob fogo. Eu tinha uma chave e uma alternativa.

Ghost segurou os ombros dela, lutando contra a imagem da bala atravessando o para-brisa.

— Você não entende o que acontece quando alguém sob minha proteção decide se lançar no centro de uma emboscada.

Aurora afastou as mãos dele.

— Entendo perfeitamente. Você sente que perdeu o controle e chama isso de preocupação porque a palavra parece mais nobre. Eu não sou um dos seus homens, Ghost. Não recebo ordens na estrada.

— Enquanto estiver numa operação do clube, recebe.

Aurora voltou ao ponto central:

— Então não me leve para uma operação e espere que eu feche os olhos quando alguém sangrar.

Ela caminhou até Sofia. Marco aproximou-se de Ghost, ensopado.

— Se disser “eu avisei”, retiro seu colete — falou Ghost.

— Eu ia dizer que ela tem razão, o que provavelmente é pior.

No clube, a capela reuniu-se assim que receberam a notícia de que Davi sobreviveria. Alguns membros exigiam ataque imediato aos Abutres. Torque queria proteger as famílias primeiro. Ledger defendia congelar as contas e dispersar o caixa.

Ghost ouviu todos.

— Não atacaremos um emblema quando os homens na estrada carregavam duas marcas — decidiu Ghost. — Silas quer que o acusemos ou perdeu o controle sobre parte do próprio clube. Marco reforça as casas das famílias. Caio fecha as rotas. Torque mantém a oficina aberta, porque medo não paga salário. Sofia e Aurora continuam seguindo o dinheiro.

Um membro antigo chamado Lobo bateu a mão na mesa.

— Desde quando a filha de Rafael participa de nossas decisões?

— Desde que salvou um prospect enquanto membros remendados discutiam cobertura — respondeu Caio. — Se alguém tiver problema, pode conversar comigo no pátio.

O salão ficou quieto.

Mais tarde, Ghost encontrou Aurora na varanda dos fundos, olhando a chuva. Entregou-lhe uma toalha e um copo de água.

— Davi acordou — informou Ghost. — Perguntou se você realmente chamou o apelido dele de absurdo.

— Isso é um bom sinal neurológico.

Ghost se encostou no corrimão.

— Você estava certa sobre o controle. Eu o confundo com proteção porque, durante muito tempo, manter todos vivos dependeu de antecipar cada movimento.

— Um pedido de desculpas combina melhor com a palavra “desculpe”.

Ghost retomou a palavra sem elevar o tom:

— Não abuse do momento raro. Desculpe.

Aurora aceitou a toalha.

— Eu também poderia ter avisado antes de roubar um caminhão.

— Isso foi quase um pedido de desculpas.

Aurora escolheu as palavras antes de continuar:

— Não abuse do momento.

Desta vez, Ghost sorriu. A expressão dela se suavizou, e a atração que ele mantinha sob disciplina ganhou espaço entre os dois. Ainda assim, o laudo sobre Helena Valente permanecia em seu bolso.

Ele conhecia o médico que assinara o documento. O homem fora o cirurgião dos Renegados e desaparecera na noite em que seu pai morreu.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App