Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV: Ghost
A chuva começou antes que voltassem ao clube e transformou a rodovia numa faixa de asfalto brilhante. Ghost seguia à frente quando viu o caminhão atravessado na pista. Não havia sinalização, motorista ou marcas de frenagem. Era uma barreira.
— Recuem! — ordenou pelo comunicador.
O primeiro tiro atingiu o para-brisa da caminhonete blindada. Homens surgiram no barranco, alguns usando coletes dos Abutres e outros sem identificação. Ghost derrubou a moto, usou o motor como cobertura e respondeu ao fogo. Marco e Caio abriram espaço para a caminhonete manobrar, mas um utilitário fechou a retaguarda.
— Sofia, leve Aurora para o leito do riacho! — gritou Ghost.
— Negativo — respondeu Sofia pelo rádio. — O riacho está cheio e temos um ferido.
Davi, o prospect que insistira em acompanhar o comboio, estava caído junto ao veículo de apoio. Caio tentou alcançá-lo, mas uma sequência de disparos o obrigou a recuar.
Ghost calculou distâncias. Se avançasse pelo lado esquerdo, poderia cobrir Caio, mas deixaria a caminhonete exposta. Então o caminhão atravessado ligou o motor. Aurora estava na cabine.
Ela se inclinou sobre o volante, engatou a marcha e lançou o caminhão contra o utilitário da retaguarda. O impacto abriu um corredor. Sofia saiu pela porta do passageiro e arrastou Davi para trás do eixo. Marco atirou nos pneus do veículo inimigo.
— Ela enlouqueceu? — rugiu Ghost.
— Ela criou uma saída — respondeu Marco. — Fique furioso depois.
O confronto durou menos de quatro minutos. Quando os atacantes perceberam que perderam a vantagem, recuaram em motos escondidas entre as árvores. Dois ficaram feridos; um deles morreu antes de ser interrogado. O outro tinha a língua mutilada e o símbolo de um corvo gravado a ferro no peito.
Davi fora atingido no ombro. Aurora pressionava a ferida com as duas mãos quando Ghost chegou.
— Continue falando comigo — dizia Aurora ao rapaz. — Conte por que escolheu o nome Davi e não algum apelido absurdo.
— Minha mãe escolheu — murmurou Davi.
— Então não estrague o trabalho dela. Respire.
Ghost ajoelhou ao lado.
— A ambulância está a caminho. Marco vai com ele.
Aurora levantou os olhos. Chuva corria por seu rosto, misturada com uma pequena linha de sangue na testa.
Aurora voltou ao ponto central:
— Ele precisa de plasma. O hospital municipal estava com estoque baixo ontem; vi a notícia.
Sofia já fazia a ligação para uma clínica parceira. A precisão de Aurora impediu que o medo dominasse todos ao redor.
Quando Davi foi levado, Ghost conduziu-a para trás da caminhonete.
— O que você fez foi imprudente — disse Ghost. — Poderia ter sido atingida na cabine.
— Se eu não movesse o caminhão, Davi morreria na pista.
Ghost deixou a resposta amadurecer por um instante:
— Caio encontraria uma forma.
— Caio estava sob fogo. Eu tinha uma chave e uma alternativa.
Ghost segurou os ombros dela, lutando contra a imagem da bala atravessando o para-brisa.
— Você não entende o que acontece quando alguém sob minha proteção decide se lançar no centro de uma emboscada.
Aurora afastou as mãos dele.
— Entendo perfeitamente. Você sente que perdeu o controle e chama isso de preocupação porque a palavra parece mais nobre. Eu não sou um dos seus homens, Ghost. Não recebo ordens na estrada.
— Enquanto estiver numa operação do clube, recebe.
Aurora voltou ao ponto central:
— Então não me leve para uma operação e espere que eu feche os olhos quando alguém sangrar.
Ela caminhou até Sofia. Marco aproximou-se de Ghost, ensopado.
— Se disser “eu avisei”, retiro seu colete — falou Ghost.
— Eu ia dizer que ela tem razão, o que provavelmente é pior.
No clube, a capela reuniu-se assim que receberam a notícia de que Davi sobreviveria. Alguns membros exigiam ataque imediato aos Abutres. Torque queria proteger as famílias primeiro. Ledger defendia congelar as contas e dispersar o caixa.
Ghost ouviu todos.
— Não atacaremos um emblema quando os homens na estrada carregavam duas marcas — decidiu Ghost. — Silas quer que o acusemos ou perdeu o controle sobre parte do próprio clube. Marco reforça as casas das famílias. Caio fecha as rotas. Torque mantém a oficina aberta, porque medo não paga salário. Sofia e Aurora continuam seguindo o dinheiro.
Um membro antigo chamado Lobo bateu a mão na mesa.
— Desde quando a filha de Rafael participa de nossas decisões?
— Desde que salvou um prospect enquanto membros remendados discutiam cobertura — respondeu Caio. — Se alguém tiver problema, pode conversar comigo no pátio.
O salão ficou quieto.
Mais tarde, Ghost encontrou Aurora na varanda dos fundos, olhando a chuva. Entregou-lhe uma toalha e um copo de água.
— Davi acordou — informou Ghost. — Perguntou se você realmente chamou o apelido dele de absurdo.
— Isso é um bom sinal neurológico.
Ghost se encostou no corrimão.
— Você estava certa sobre o controle. Eu o confundo com proteção porque, durante muito tempo, manter todos vivos dependeu de antecipar cada movimento.
— Um pedido de desculpas combina melhor com a palavra “desculpe”.
Ghost retomou a palavra sem elevar o tom:
— Não abuse do momento raro. Desculpe.
Aurora aceitou a toalha.
— Eu também poderia ter avisado antes de roubar um caminhão.
— Isso foi quase um pedido de desculpas.
Aurora escolheu as palavras antes de continuar:
— Não abuse do momento.
Desta vez, Ghost sorriu. A expressão dela se suavizou, e a atração que ele mantinha sob disciplina ganhou espaço entre os dois. Ainda assim, o laudo sobre Helena Valente permanecia em seu bolso.
Ele conhecia o médico que assinara o documento. O homem fora o cirurgião dos Renegados e desaparecera na noite em que seu pai morreu.







