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Capítulo 7 — A Marca dos Renegados

POV: Aurora

Davi voltou ao clube quatro dias depois, pálido e orgulhoso da tipoia. A recepção organizada por Nina e Sofia transformou o salão numa mistura de festa familiar e reunião de segurança. Crianças corriam entre mesas, homens armados verificavam as janelas e dona Lúcia servia macarronada como se alimentar cinquenta pessoas fosse uma forma legítima de comando.

Aurora começou a entender por que os Renegados chamavam o clube de família. Não era uma metáfora delicada. Era um sistema de obrigações. Quando um membro era preso, alguém pagava advogado. Quando adoecia, a lista de turnos surgia antes do diagnóstico. Quando falhava, respondia perante a mesa. A lealdade oferecia abrigo, mas cobrava presença.

Davi pediu que Aurora se sentasse ao lado dele.

— Caio disse que eu agi como um idiota na estrada — contou o rapaz. — Também disse que sobreviver não apaga o erro.

— Caio possui o talento de transformar gratidão em reprimenda.

Davi retomou a palavra:

— Ele perdeu um irmão quando era prospect. Acho que vê o homem toda vez que um de nós faz alguma coisa estúpida.

Aurora olhou para o sargento de armas, que vigiava a porta enquanto fingia não ouvir.

— Então talvez a raiva dele seja uma forma pouco elegante de esperança.

Caio virou o rosto, mas ela percebeu que a frase o alcançara.

Sofia chamou Aurora ao escritório. As transferências marcadas pelos centavos formavam uma espiral de vinte e uma empresas e terminavam numa conta ligada a uma clínica desativada. Isadora conseguira o prontuário de Helena por ordem judicial. O médico responsável, Augusto Ferraz, constava como morto havia quinze anos, embora nenhum corpo tivesse sido identificado.

— O mesmo padrão de Risco — disse Aurora. — Homens declarados mortos no incêndio dos Corvos.

— Meu irmão vai odiar isto — respondeu Sofia. — Augusto era amigo do nosso pai. Tratava os membros sem fazer perguntas.

— Por que Rafael teria um laudo que aponta para ele?

Sofia acrescentou seu ponto:

— Talvez Helena tenha descoberto algo. Você se lembra dos últimos meses dela?

Aurora fechou os olhos. Lembrou-se da mãe falando ao telefone em voz baixa, de uma visita de um homem com pasta médica e de uma discussão em que Rafael quebrara um copo.

— Ela queria me mandar para estudar fora. Dizia que Santa Augusta estava ficando pequena demais. Na época, pensei que falava da doença.

No salão, Lobo e dois membros antigos questionavam a presença de Aurora. Ela ouviu quando um deles a chamou de “dívida de cabelo bonito”. Antes que Sofia interviesse, Aurora entrou na roda.

— Se querem discutir minha utilidade, façam isso olhando para mim — disse Aurora. — Encontrei a trilha das transferências, salvei os arquivos e impedi que a polícia levasse quatro de vocês. Não desejo usar o colete nem ocupar a mesa. Contudo, enquanto meu nome estiver nos documentos e minha vida na lista de execução, participarei da investigação.

Lobo apertou a mandíbula.

— Respeito não se exige aqui.

— Concordo. Por isso apresentei fatos, não uma exigência.

Torque soltou uma gargalhada.

— Ela acabou com você sem levantar a voz, Lobo. Aceite antes que fique mais caro.

O constrangimento se desfez. Lobo estendeu a mão.

— Aurora Valente, você tem minha palavra de que a casa vai protegê-la enquanto lutar ao lado dela.

Ela apertou a mão dele.

A resposta de Aurora veio firme:

— E você tem a minha de que não vou usar a proteção para evitar perguntas difíceis.

Naquela noite, Ghost levou Aurora ao telhado do galpão principal. Dali, as luzes da cidade pareciam distantes, e o ronco das oficinas se tornava quase tranquilo.

— Lobo não oferece a palavra com facilidade — disse Ghost.

— Descobri que homens de colete apreciam cerimônias, embora finjam ser alérgicos a sentimentos.

Ghost manteve a voz baixa e controlada:

— Cerimônias lembram que uma escolha tem testemunhas.

Ghost entregou-lhe uma pequena placa de metal com o crânio coroado, sem as faixas do clube.

— Não é um remendo nem uma declaração de posse. É um sinal para qualquer Renegado de que você tem passagem e proteção.

Aurora passou o polegar pelo desenho.

— Caio chamou isto de marca dos Renegados.

— Caio dramatiza quando está emocionado.

Aurora escolheu as palavras antes de continuar:

— Ele ficaria ofendido com essa acusação.

Ghost se aproximou. A cidade desapareceu da atenção dela.

— Eu também preciso lhe contar sobre Augusto Ferraz — disse Ghost. — Foi amigo do meu pai e médico do clube. Na noite do incêndio, desapareceu com registros que poderiam explicar quem atirou em Antonio Moretti.

— Você acha que ele matou minha mãe?

Ghost retomou o ponto com objetividade:

— Acho que Rafael queria que acreditássemos nisso. A diferença importa.

Aurora segurou a placa com força.

— Se meu pai usou a morte dela para construir esta guerra, eu mesma o entregarei.

— E se ele disser que fez tudo para protegê-la?

Aurora respirou fundo antes de se manifestar:

— Proteção sem escolha é apenas uma prisão com uma justificativa bonita.

Ghost tocou o rosto dela, devagar o bastante para que pudesse recuar. Aurora não recuou. O polegar dele passou junto ao seu lábio, e a respiração de ambos mudou.

O rádio de Ghost interrompeu o momento.

Marco informou que Silas Rocha, presidente dos Abutres, estava no portão e exigia uma conversa. Ele trazia um presente: Augusto Ferraz, vivo e algemado.

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