Capítulo 2 — Uma grande loucura

— Eu... Eu acho que... — Tentei protestar enquanto era levada até um canto da mansão dos Dorsey. — Ei, para!

O homem que me arrastava pela pista de dança como um troglodita levando a sua fêmea atendeu ao meu pedido e me encarou com aqueles olhos implacáveis. Eram verdes. Um lindo e atraente tom de verde.

— Acho que não sou quem... — Atrapalhei-me nas minhas próprias palavras. A bebida fazia o seu efeito. — Quem você está...

— Ah, faça-me o favor! — Ele pressionou os lábios após falar e voltou ao que fazia anteriormente, levando-me consigo até um espaço mais reservado. — Te procuro desde que cheguei e te encontro nesse estado!

— Não sou quem você está...

— Para! — Repreendeu-me. A sua boca mal se abriu para isso. — Você precisa de água, de comida e de repouso. Acabou por hoje.

Não nego que ele está correto. Eu preciso de tudo isso, é fato, mas continuo não sendo quem ele pensa que sou. Seria ético assumir o lugar dessa mulher sortuda por alguns minutos e me permitir ser cuidada por um homem tão protetor e preocupado?

Que mal tem? Eu não vou arrancar nenhum pedaço.

E você bebeu para isso mesmo, Irina! Para cometer pequenas loucuras!

— Segura — ele me entregou uma garrafinha de água assim que sentamos lado a lado nas poltronas traseiras do carro. — Toma tudo.

O seu tom autoritário me deixou totalmente rendida ao seu domínio. O seu timbre era delicioso. O seu rosto completo deveria ser tão belo quanto a sua voz, os seus olhos e os seus lábios. A sua máscara me permitia ver apenas isso. E ele estava tão preocupado comigo que não lembrou de retirá-la em momento algum até chegarmos no hotel.

— Eu vou pedir um...

— Não! — Segurei as suas mãos, aproximando-me do seu corpo às pressas. — Não tira a sua máscara!

A rigidez do seu tronco musculoso em contato com o meu e o seu aroma viril e marcante me desconcertaram por um instante. Senti-me tonta. E não era somente por causa de toda a bebida que ingeri.

Estou arrepiada, ofegante, enfeitiçada por seus olhos brilhando em meio à escuridão do quarto.

— Por quê? — Pareceu confuso.

— Vamos ficar assim.

Ansiando pela sensação do toque, mas um pouco tímida, levei as minhas mãos para o seu peitoral firme coberto pela camisa branca e concentrei a minha atenção ali, acariciando-o sem pressa. Estou à mercê daquele desconhecido. O álcool me instiga, me encoraja, nubla os meus pensamentos.

Estou totalmente longe da razão, da sensatez, da moralidade.

— Você tem certeza de que está bem?

A sua voz soou tão preocupada e gentil que os meus olhos foram tomados por lágrimas no mesmo instante. Fiquei emocionada. Estou tão frágil, a minha vida amorosa sempre foi uma porcaria e eu nunca serei capaz de conquistar alguém tão carinhoso sem que haja um interesse por trás.

— Por que não toma um banho antes de comer alguma coisa? — Ele sugeriu.

Permiti que os meus anseios me guiassem e segurei as laterais do seu rosto, puxando-o para mim e tomando aqueles lábios com a sede que somente um beijo seria capaz de saciar. Ele retribuiu no mesmo segundo e agarrou a minha cintura como quem reivindica a posse do que é seu.

— Você... — Tentou falar, porém estava ofegante demais. — Parece até... Outra pessoa.

— Shhh...

Calei-o com os meus lábios e me perdi no ritmo sensual das nossas línguas.

O nosso beijo era urgente, forte, acelerado, sôfrego, possessivo. Eu o queria para mim naquela noite. Eu desejava profundamente tê-lo ao meu lado naquela cama enorme atrás de nós.

E eu o tive.

Vivi e desfrutei de cada minuto daquele momento. As suas mãos grandes e firmes percorrendo o meu corpo, o arrepio que elas causaram por onde passaram, a maciez dos seus lábios acariciando a minha pele, a textura dos seus cabelos ondulados, a solidez das suas costas largas, os movimentos duros e certeiros dos seus quadris contra os meus e a maneira confiante e profunda com que me possuiu.

Foi intenso e tão marcante quanto o seu cheiro.

— Não acredito... — Sussurrei, estarrecida ao ver, assim que despertei, o corpo robusto deitado de bruços ao meu lado. — Eu fiz mesmo...

O quarto estava escuro, mas eu podia ver perfeitamente bem as costas arranhadas do homem com quem tive uma noite tórrida.

Respirei fundo para me acalmar.

Estou nua debaixo do lençol que me cobre.

Certo, Irina.. Você fez bobagem! Uma bobagem gigantesca!

— Maldita bebida — falei baixinho, temendo acordá-lo. — Preciso sair daqui, tenho que fugir antes que ele desperte e descubra tudo.

O que eu fiz? Me comportei muito mal, agi de um modo que nunca me atrevi a sequer pensar em fazer.

Uma atitude imoral era a última coisa de que eu precisava para completar o meu bingo mensal de tragédias.

— Não é o fim do mundo — tentei me tranquilizar enquanto saía da cama devagar. — Você nunca mais irá vê-lo e vai sobreviver a isso.

Olhei ao redor e localizei o meu vestido e os meus outros pertences espalhados pelo chão. Encontrei a minha bolsa em uma cadeira e retirei o meu celular de dentro. Eram três horas da manhã e havia vinte e nove chamadas de Anne. Céus... Ela deve estar preocupada comigo.

— Droga de máscara desconfortável — resmunguei, coçando o meu rosto ainda suado do esforço anterior. — Não posso tirá-la até sair deste hotel.

Eu havia acordado ainda com a máscara posicionada no rosto, e ele também. Nenhum dos dois revelou a identidade ao outro e, embora estivesse curiosa para aproveitar o seu sono e conferir a sua aparência, eu preferi me preservar.

A melhor alternativa é seguir em frente sem saber quem é o homem que me proporcionou a noite mais prazerosa que tive desde que iniciei a minha vida sexual. Encontrá-lo por aí e reconhecê-lo me deixaria extremamente constrangida.

— Obrigada pela noite, grandalhão — sussurrei com o máximo de cuidado para não despertá-lo. — Foi inesquecível.

Inclinei-me para beijar as suas costas marcadas com as minhas unhas. Contemplei a sua imagem naquela cama mais uma vez e suspirei. Ele parecia ter saído diretamente dos meus sonhos mais eróticos. Era um homem irresistível.

— Sua maluca! — Repreendi-me durante a minha saída caótica do hotel.

Eu tentava não atrair a atenção de ninguém e me esgueirava pelas áreas vazias do local.

— O que você fez não foi uma pequena loucura, não! — Falei enquanto praticamente corria pelo estacionamento em meus saltos. Preciso de um táxi. — Foi uma grande loucura! Você fez uma grande loucura, Irina!

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