Capítulo 2 — A Verdade Mais Cruel

Você era apenas a aposta.

As palavras de Serena atravessaram Alina como uma lâmina. Por alguns segundos, ela teve a impressão de que o salão inteiro havia desaparecido. Os aplausos, as conversas e até a música ao fundo se transformaram em um ruído distante.

Ela olhou para Gael.

Não para Serena. Não para a senhora que havia anunciado aquele noivado diante de toda a alta sociedade. Ela só conseguia olhar para o homem que passou sete anos dizendo que a amava.

— Diz que ela está mentindo.

A voz saiu baixa, quase quebrada.

Gael respirou fundo, mas não respondeu.

— Gael... olha para mim.

Ele finalmente ergueu os olhos. Havia culpa em seu rosto. Culpa e algo que Alina não conseguiu identificar.

— Alina, eu posso explicar.

Ela deu um passo para trás.

— Explicar o quê? Que essa mulher acabou de anunciar o noivado de vocês? Que a sua família inteira está comemorando? Ou que eu estou aqui, feito uma idiota, sem entender o que está acontecendo?

Os convidados começaram a cochichar. Alguns pegavam discretamente os celulares. Outros apenas observavam, interessados no espetáculo.

Serena cruzou os braços e sorriu.

— Eu avisei que seria melhor contar tudo antes da festa, Gael.

Alina virou-se para ela.

— Quem é você para decidir alguma coisa sobre a minha vida?

— Eu? — Serena respondeu com tranquilidade. — Eu sou a mulher com quem ele vai se casar no próximo mês.

Gael passou a mão pelo rosto.

— Serena, chega.

— Chega? Ela merece saber. Ou você pretende continuar enganando essa coitada?

A palavra coitada fez o sangue de Alina ferver.

Ela sempre suportou o desprezo da família Armani. As indiretas sobre suas roupas simples, o trabalho modesto, o apartamento pequeno onde vivia com a avó. Tudo isso porque acreditava que, no fim, o amor dela e de Gael seria suficiente.

Agora, olhando ao redor, ela percebeu uma verdade dolorosa.

Ninguém naquele salão parecia surpreso.

Era como se todos soubessem de algo que ela desconhecia.

Ela procurou algum rosto amigável. Algum dos amigos de Gael que haviam jantado em sua casa, que elogiaram a comida feita por dona Ester, que brindaram ao futuro casamento do casal.

Todos desviaram o olhar.

Seu coração afundou.

— Eles sabiam?

Gael tentou se aproximar.

— Alina...

— Eles sabiam? — ela repetiu, agora mais alto.

O silêncio foi a única resposta.

Ela começou a balançar a cabeça negativamente.

— Não... não... isso não pode ser verdade.

Então ouviu uma risada baixa.

Dois jovens, próximos ao bar, comentavam entre si.

— Achei que ela descobriria antes.

— Eu também. Sete anos é muito tempo para sustentar uma aposta.

A palavra voltou a ecoar em sua mente.

Aposta.

Ela caminhou até eles.

— O que vocês disseram?

Os dois se entreolharam, constrangidos.

— Não foi nada.

— Eu ouvi muito bem. O que vocês quiseram dizer com "sustentar uma aposta"?

Antes que respondessem, uma voz firme interrompeu:

— Já chega.

A senhora Donatella Armani desceu o último degrau da escadaria e se aproximou. Apesar da idade avançada, carregava uma postura imponente. O vestido preto e as joias discretas a faziam parecer ainda mais poderosa.

Ela encarou Alina com frieza.

— Esta não é a hora nem o lugar para escândalos.

Alina riu, mas havia desespero naquele riso.

— Escândalo? A senhora anuncia o noivado do meu namorado com outra mulher na minha frente e eu é que estou fazendo escândalo?

Donatella não se abalou.

— Você sabia que existiam diferenças entre o seu mundo e o nosso.

— Não. Eu sabia que existiam pessoas arrogantes. Nunca imaginei que fossem tão cruéis.

Serena aproximou-se de Gael e segurou seu braço.

— Acho melhor ela ir embora.

Alina observou aquele gesto e sentiu um aperto no peito.

Quantas vezes aquela mulher havia tocado nele daquele jeito?

Quantas mentiras ela ouviu durante aqueles sete anos?

Ela voltou a encarar Gael.

— Você me amava?

Ele demorou para responder.

E aquele pequeno atraso destruiu qualquer esperança que ainda existia.

— Eu me importo com você.

— Não foi isso que eu perguntei.

— Alina...

— Você me amava?

Gael fechou os olhos por um instante.

— Sim... mas as coisas mudaram.

Ela sentiu vontade de rir.

Sete anos.

Sete anos dividindo sonhos, planejando uma casa, escolhendo móveis pela internet, guardando dinheiro para a lua de mel.

Sete anos ajudando Gael quando ele decidiu abrir uma nova divisão na empresa da família. Ela passou madrugadas revisando apresentações, traduzindo documentos, acompanhando reuniões online quando ele estava cansado demais para continuar.

E, enquanto fazia tudo isso, era apenas uma peça em um jogo.

— Então me conta — ela disse, com a voz surpreendentemente calma. — Quando exatamente você decidiu me trocar?

Serena respondeu antes dele.

— Ele nunca trocou você. Porque você nunca ocupou o meu lugar.

Gael apertou a mão dela, tentando fazê-la parar.

Mas Serena parecia se divertir.

— O casamento entre nossas famílias foi decidido há muitos anos. Eu estava estudando fora e precisávamos evitar a pressão da imprensa. Então os Armani tiveram uma ideia brilhante.

Alina sentiu o corpo inteiro gelar.

— Que ideia?

Serena sorriu.

— Encontrar uma garota comum. Alguém sem influência, sem sobrenome importante... alguém que aceitasse qualquer demonstração de carinho e nunca desconfiasse de nada.

As lágrimas finalmente escorreram pelo rosto de Alina.

Ela não tentou escondê-las.

Olhou para Gael mais uma vez.

— Isso é verdade?

Ele permaneceu em silêncio.

E aquele silêncio valeu mais do que qualquer confissão.

— Responde! — ela gritou. — Eu fui escolhida por causa disso?

Gael passou a mão pelos cabelos.

— No começo... foi uma decisão da família.

— E você aceitou?

— Eu era jovem. Não queria me casar com alguém que nunca tinha visto. Disseram que seria temporário.

— Então você me encontrou... e decidiu brincar com a minha vida?

— Não foi assim!

Pela primeira vez desde que chegou à mansão, a máscara de homem perfeito caiu.

— Eu não planejei me apaixonar por você!

Alina o encarou, incrédula.

— Você chama isso de amor?

Gael tentou segurá-la pelo braço, mas ela se afastou.

— Não toca em mim.

Ele parou imediatamente.

— Alina, me escuta. Eu tentei acabar com esse acordo. Eu enfrentei minha família.

Donatella deu um passo à frente.

— E perdeu.

O salão inteiro ficou em silêncio.

A matriarca olhou para o neto e falou sem qualquer emoção.

— Você sabia quais eram suas responsabilidades. Um Armani não vive para si mesmo. Vive pela família.

Alina enxugou as lágrimas.

— Então era isso? Eu era só uma distração conveniente?

Donatella não respondeu diretamente.

— Você foi bem recompensada ao longo desses anos. Meu neto nunca deixou que lhe faltasse nada.

Aquilo foi a pior ofensa de todas.

Alina tirou lentamente do dedo o pequeno anel de compromisso que usava havia três anos.

Um anel simples. Ela mesma havia insistido para que fosse assim, porque queria construir o futuro ao lado de Gael sem depender do dinheiro dos Armani.

Ela estendeu a mão e colocou o anel sobre a bandeja de prata que um garçom carregava.

— Fique tranquila, senhora Armani. Eu nunca quis nada da sua família.

Gael sentiu o coração apertar.

— Alina, não faz isso.

Ela sorriu, mas não havia alegria naquele gesto.

— Você sabe do que eu mais me arrependo?

Ele deu um passo em sua direção.

— Me deixa explicar.

— Eu me arrependo de ter defendido você. De ter brigado com a minha avó porque ela dizia que ninguém daquela família me aceitaria. Eu me arrependo de cada aniversário que você perdeu dizendo que estava trabalhando. De cada lágrima que derramei achando que um dia eles mudariam.

Ela olhou para Serena.

— E me arrependo de ter sentido pena de você quando ouvi dizer que existia uma mulher esperando o homem que amava voltar.

Serena perdeu o sorriso por um instante.

Alina respirou fundo.

— No fim, a única pessoa que merecia pena era eu.

Sem esperar resposta, virou-se e caminhou em direção à saída.

— Alina! — Gael gritou.

Ela não parou.

Atrás dela, a voz firme de Donatella ecoou pelo salão:

— Se você sair por aquela porta, nunca mais voltará a fazer parte desta família.

Alina parou por um segundo.

Então respondeu, sem sequer olhar para trás:

— Eu nunca fiz parte dela.

Ela atravessou a entrada principal sob o brilho dos flashes dos fotógrafos, que, atraídos pela movimentação, já se acumulavam do lado de fora da mansão.

Um deles gritou:

— Senhorita! É verdade que o senhor Gael Armani vai se casar com a herdeira dos Bastos?

Outro completou:

— A senhorita era amante dele?

Alina sentiu o chão desaparecer sob seus pés.

Antes que pudesse reagir, ouviu passos apressados atrás de si.

Gael havia saído da mansão.

— Alina! Espera!

Ela virou lentamente.

As lágrimas ainda molhavam seu rosto, mas seus olhos já não carregavam a mesma mulher que entrou naquela festa.

— Acabou, Gael.

— Não acaba assim. Eu ainda posso resolver tudo.

Ela balançou a cabeça.

— Você não entendeu, não é?

— O quê?

Alina olhou para a enorme mansão iluminada atrás dele, para os jornalistas, para Serena observando da porta principal e para a família Armani inteira assistindo à cena.

Então encarou o homem que destruiu sete anos da sua vida.

— O problema não é que você escolheu outra mulher.

A voz dela saiu baixa, firme e dolorosamente tranquila.

— O problema é que você nunca me escolheu.

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