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Capítulo 3 — O Homem que Não Devia Existir

Gael ainda deu alguns passos atrás de Alina, ignorando os fotógrafos que se aglomeravam diante da mansão.

— Não vai embora assim! Nós precisamos conversar!

Ela continuou caminhando.

Os flashes estouravam diante de seu rosto, e as perguntas se misturavam em uma confusão ensurdecedora.

— Senhorita, a senhorita sabia do noivado?

— Há quanto tempo mantinha um relacionamento com o senhor Gael Armani?

— É verdade que a família nunca aprovou essa união?

Alina sentiu o ar faltar. O vestido elegante que escolhera com tanto carinho parecia pesado demais. O salto alto machucava seus pés, mas ela não diminuía o ritmo.

Gael finalmente conseguiu alcançar seu braço.

— Alina, olha para mim!

Ela se soltou com um movimento brusco.

— Não encosta em mim.

— Você precisa me ouvir.

— Ouvir o quê? Que eu fui a distração perfeita? Que todo mundo ria de mim enquanto eu fazia planos de casamento?

Ele passou a mão pelos cabelos, visivelmente nervoso.

— Não foi uma brincadeira. Eu me apaixonei por você.

Alina soltou uma risada amarga.

— Você não tem ideia do que é amar alguém.

— Eu juro que tentei acabar com aquele acordo!

— Mas não acabou.

Ela apontou para a entrada da mansão. Serena estava parada ao lado de Donatella, observando a cena de longe. Elegante. Serena. Segura de si. Como alguém que jamais duvidou do lugar que ocupava.

— Ela está lá dentro usando o anel que deveria estar no meu dedo. E você ainda quer me convencer de que lutou por nós?

Gael olhou para trás e fechou a expressão.

— Você não entende a pressão da minha família.

— E você nunca entendeu o que fez comigo.

Um carro de aplicativo parou em frente ao portão. O motorista havia sido chamado por algum dos empregados, sensibilizado com a cena, ou talvez pelo próprio destino.

Alina abriu a porta traseira.

Gael segurou a maçaneta antes que ela entrasse.

— Eu vou resolver isso.

Ela encarou o homem que conhecia havia sete anos e percebeu que não reconhecia mais aquele rosto.

— Você não consegue resolver. Porque, para resolver, precisaria voltar no tempo e me devolver todos os anos que roubou de mim.

Ela entrou no carro e bateu a porta.

Gael permaneceu imóvel na calçada enquanto o veículo se afastava.

Do lado de dentro, Alina olhava pela janela, mas já não enxergava a cidade. As lágrimas caíam sem que ela conseguisse controlar. Tentou lembrar quando tudo começou a dar errado.

Lembrou-se do pequeno café onde conheceu Gael. Ele estava usando roupas simples, dizendo que havia acabado de abrir uma empresa de tecnologia. Nunca falou sobre a fortuna da família. Nunca mencionou mansões, impérios ou acordos milionários.

Ela se apaixonou pelo homem que dizia preferir uma lanchonete de bairro aos restaurantes luxuosos.

Pelo homem que a ajudava a fechar o ateliê e carregava caixas de tintas sem reclamar.

Pelo homem que passava horas ouvindo dona Ester contar histórias antigas.

Tudo era mentira?

Ou havia existido alguma verdade no meio de tantas manipulações?

O celular começou a tocar.

"Gael".

Ela recusou a ligação.

Um segundo depois, outra chamada.

Recusou novamente.

Na terceira tentativa, desligou o aparelho.

Quando chegou ao pequeno prédio onde morava, demorou alguns segundos antes de descer do carro. Respirou fundo, pagou a corrida e subiu as escadas quase sem sentir as pernas.

A luz da cozinha ainda estava acesa.

Dona Ester estava sentada à mesa, com uma xícara de chá nas mãos.

Assim que viu a neta entrar, levantou-se.

— Alina?

Ela não conseguiu responder.

Apenas caminhou até a avó e a abraçou com força.

O vestido amassou, a maquiagem se desfez e toda a dor que ela tentava esconder veio à tona.

— Acabou... — sussurrou entre soluços. — Acabou tudo.

Dona Ester acariciou seus cabelos.

— Calma, minha menina. Me conta o que aconteceu.

Alina tentou falar, mas a voz falhava. Sentou-se à mesa, enquanto a avó servia um pouco de água.

Depois de alguns minutos, conseguiu reunir coragem.

Contou sobre a festa.

Sobre Serena.

Sobre o anúncio do noivado.

Sobre a aposta.

A cada palavra, o semblante de dona Ester se transformava. A tristeza deu lugar à indignação.

— Eles fizeram isso com você?

Alina assentiu.

— E todo mundo sabia. Os amigos dele... as pessoas que entravam aqui em casa, que comiam a sua comida... eles sabiam.

Dona Ester fechou os olhos por um instante.

— Eu sempre senti que havia algo errado naquela família.

— A senhora tentou me avisar.

— Porque eu conheço gente rica o suficiente para saber que dinheiro demais costuma estragar o caráter.

Alina apoiou os cotovelos sobre a mesa e escondeu o rosto nas mãos.

— Eu fui tão ingênua.

— Não. Você apenas amou alguém.

A jovem ficou em silêncio.

Dona Ester puxou a cadeira para mais perto e segurou suas mãos.

— Escuta o que eu vou dizer. A vergonha não é sua. Você não enganou ninguém. Você não usou ninguém. Quem deveria abaixar a cabeça são eles.

Alina respirou fundo.

Queria acreditar naquelas palavras.

Mas a sensação de humilhação era forte demais.

Naquele mesmo instante, na mansão Armani, a festa havia terminado muito antes do previsto.

Os convidados saíram comentando o escândalo. Alguns executivos tentavam convencer Donatella a divulgar uma nota oficial para evitar especulações na imprensa.

Gael caminhava de um lado para o outro na biblioteca.

Serena entrou no cômodo carregando uma taça de vinho.

— Você está exagerando.

Ele a encarou.

— Exagerando?

— Ela já foi embora. Em alguns dias isso passa.

Gael se aproximou lentamente.

— Você fez de propósito.

Serena arqueou uma sobrancelha.

— Fiz o quê?

— Você queria humilhá-la.

— Eu apenas contei a verdade.

— Você podia ter esperado.

Ela soltou uma risada curta.

— Esperar mais? Eu esperei sete anos, Gael. Sete anos vendo você brincar de namorado dedicado enquanto eu era obrigada a ouvir que tudo fazia parte da estratégia da família.

Ele desviou o olhar.

Serena continuou:

— A única diferença entre nós duas é que eu sempre soube qual era o meu papel.

— E qual era?

— Ser a mulher que vai se casar com você.

Gael não respondeu.

Porque aquela ideia não lhe trazia qualquer felicidade.

A porta da biblioteca se abriu.

Donatella entrou apoiada em sua bengala de madeira escura.

— Serena, nos dê um momento.

A jovem saiu sem discutir.

Assim que ficaram sozinhos, a matriarca caminhou até a janela.

— Você foi um tolo.

Gael apertou os punhos.

— Eu disse que queria contar a verdade para Alina.

— E eu disse que isso não mudaria nada.

— A senhora não precisava humilhá-la daquele jeito.

Donatella virou-se lentamente.

— O erro foi seu. Você ultrapassou todos os limites do acordo. O combinado era um namoro discreto por alguns meses. Você transformou isso em sete anos.

Gael sentiu a culpa esmagá-lo.

— Eu me apaixonei.

— Sentimentos são um luxo que herdeiros do Grupo Armani não podem ter.

Ele bateu a mão sobre a mesa.

— Eu não vou me casar com Serena!

Donatella permaneceu impassível.

— Vai, sim.

— E se eu me recusar?

A resposta veio sem hesitação.

— Então você perderá tudo.

Gael riu, sem humor.

— O império vale tanto assim para a senhora?

A idosa caminhou até uma antiga estante de madeira e retirou uma fotografia emoldurada. Nela, estavam o marido já falecido e seus dois netos ainda crianças.

Gael.

E Caetano.

Ela observou a imagem por alguns segundos.

— Você sabe muito bem que o problema nunca foi o dinheiro.

Gael franziu a testa.

— Então é o quê?

Donatella devolveu a fotografia ao lugar.

— O testamento do seu avô.

O silêncio tomou conta da biblioteca.

— O que tem o testamento?

Ela fitou o neto.

— Seu avô deixou uma cláusula muito clara. O controle definitivo do Grupo Armani só pode ficar nas mãos de um herdeiro casado e capaz de garantir a continuidade da família.

Gael já conhecia aquela história, mas nunca lhe dera importância.

— E daí?

Donatella respirou fundo.

— Daí que você não é o único herdeiro.

Antes que ele pudesse responder, um dos empregados bateu à porta.

— Senhora... desculpe interromper.

— O que foi?

— Acabaram de ligar da Villa Bellagio.

A expressão da matriarca mudou.

— E?

O homem engoliu em seco.

— Disseram que o senhor Caetano aceitou voltar para casa.

Gael empalideceu.

Fazia três anos que o irmão mais velho havia desaparecido do convívio da família.

Três anos desde que abandonara a presidência do grupo e se isolara em uma propriedade distante, recusando qualquer contato.

Ele jurou que jamais pisaria novamente na mansão Armani.

Até aquela noite.

Donatella fechou os olhos por um instante.

Talvez o destino tivesse decidido mover suas peças.

E, se Caetano realmente voltasse... a presença de Alina Vilar na vida daquela família poderia se tornar muito mais importante do que qualquer um deles era capaz de imaginar.

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