Mundo ficciónIniciar sesiónGael ainda deu alguns passos atrás de Alina, ignorando os fotógrafos que se aglomeravam diante da mansão.
— Não vai embora assim! Nós precisamos conversar!
Ela continuou caminhando.
Os flashes estouravam diante de seu rosto, e as perguntas se misturavam em uma confusão ensurdecedora.
— Senhorita, a senhorita sabia do noivado?
— Há quanto tempo mantinha um relacionamento com o senhor Gael Armani?
— É verdade que a família nunca aprovou essa união?
Alina sentiu o ar faltar. O vestido elegante que escolhera com tanto carinho parecia pesado demais. O salto alto machucava seus pés, mas ela não diminuía o ritmo.
Gael finalmente conseguiu alcançar seu braço.
— Alina, olha para mim!
Ela se soltou com um movimento brusco.
— Não encosta em mim.
— Você precisa me ouvir.
— Ouvir o quê? Que eu fui a distração perfeita? Que todo mundo ria de mim enquanto eu fazia planos de casamento?
Ele passou a mão pelos cabelos, visivelmente nervoso.
— Não foi uma brincadeira. Eu me apaixonei por você.
Alina soltou uma risada amarga.
— Você não tem ideia do que é amar alguém.
— Eu juro que tentei acabar com aquele acordo!
— Mas não acabou.
Ela apontou para a entrada da mansão. Serena estava parada ao lado de Donatella, observando a cena de longe. Elegante. Serena. Segura de si. Como alguém que jamais duvidou do lugar que ocupava.
— Ela está lá dentro usando o anel que deveria estar no meu dedo. E você ainda quer me convencer de que lutou por nós?
Gael olhou para trás e fechou a expressão.
— Você não entende a pressão da minha família.
— E você nunca entendeu o que fez comigo.
Um carro de aplicativo parou em frente ao portão. O motorista havia sido chamado por algum dos empregados, sensibilizado com a cena, ou talvez pelo próprio destino.
Alina abriu a porta traseira.
Gael segurou a maçaneta antes que ela entrasse.
— Eu vou resolver isso.
Ela encarou o homem que conhecia havia sete anos e percebeu que não reconhecia mais aquele rosto.
— Você não consegue resolver. Porque, para resolver, precisaria voltar no tempo e me devolver todos os anos que roubou de mim.
Ela entrou no carro e bateu a porta.
Gael permaneceu imóvel na calçada enquanto o veículo se afastava.
Do lado de dentro, Alina olhava pela janela, mas já não enxergava a cidade. As lágrimas caíam sem que ela conseguisse controlar. Tentou lembrar quando tudo começou a dar errado.
Lembrou-se do pequeno café onde conheceu Gael. Ele estava usando roupas simples, dizendo que havia acabado de abrir uma empresa de tecnologia. Nunca falou sobre a fortuna da família. Nunca mencionou mansões, impérios ou acordos milionários.
Ela se apaixonou pelo homem que dizia preferir uma lanchonete de bairro aos restaurantes luxuosos.
Pelo homem que a ajudava a fechar o ateliê e carregava caixas de tintas sem reclamar.
Pelo homem que passava horas ouvindo dona Ester contar histórias antigas.
Tudo era mentira?
Ou havia existido alguma verdade no meio de tantas manipulações?
O celular começou a tocar.
"Gael".
Ela recusou a ligação.
Um segundo depois, outra chamada.
Recusou novamente.
Na terceira tentativa, desligou o aparelho.
Quando chegou ao pequeno prédio onde morava, demorou alguns segundos antes de descer do carro. Respirou fundo, pagou a corrida e subiu as escadas quase sem sentir as pernas.
A luz da cozinha ainda estava acesa.
Dona Ester estava sentada à mesa, com uma xícara de chá nas mãos.
Assim que viu a neta entrar, levantou-se.
— Alina?
Ela não conseguiu responder.
Apenas caminhou até a avó e a abraçou com força.
O vestido amassou, a maquiagem se desfez e toda a dor que ela tentava esconder veio à tona.
— Acabou... — sussurrou entre soluços. — Acabou tudo.
Dona Ester acariciou seus cabelos.
— Calma, minha menina. Me conta o que aconteceu.
Alina tentou falar, mas a voz falhava. Sentou-se à mesa, enquanto a avó servia um pouco de água.
Depois de alguns minutos, conseguiu reunir coragem.
Contou sobre a festa.
Sobre Serena.
Sobre o anúncio do noivado.
Sobre a aposta.
A cada palavra, o semblante de dona Ester se transformava. A tristeza deu lugar à indignação.
— Eles fizeram isso com você?
Alina assentiu.
— E todo mundo sabia. Os amigos dele... as pessoas que entravam aqui em casa, que comiam a sua comida... eles sabiam.
Dona Ester fechou os olhos por um instante.
— Eu sempre senti que havia algo errado naquela família.
— A senhora tentou me avisar.
— Porque eu conheço gente rica o suficiente para saber que dinheiro demais costuma estragar o caráter.
Alina apoiou os cotovelos sobre a mesa e escondeu o rosto nas mãos.
— Eu fui tão ingênua.
— Não. Você apenas amou alguém.
A jovem ficou em silêncio.
Dona Ester puxou a cadeira para mais perto e segurou suas mãos.
— Escuta o que eu vou dizer. A vergonha não é sua. Você não enganou ninguém. Você não usou ninguém. Quem deveria abaixar a cabeça são eles.
Alina respirou fundo.
Queria acreditar naquelas palavras.
Mas a sensação de humilhação era forte demais.
Naquele mesmo instante, na mansão Armani, a festa havia terminado muito antes do previsto.
Os convidados saíram comentando o escândalo. Alguns executivos tentavam convencer Donatella a divulgar uma nota oficial para evitar especulações na imprensa.
Gael caminhava de um lado para o outro na biblioteca.
Serena entrou no cômodo carregando uma taça de vinho.
— Você está exagerando.
Ele a encarou.
— Exagerando?
— Ela já foi embora. Em alguns dias isso passa.
Gael se aproximou lentamente.
— Você fez de propósito.
Serena arqueou uma sobrancelha.
— Fiz o quê?
— Você queria humilhá-la.
— Eu apenas contei a verdade.
— Você podia ter esperado.
Ela soltou uma risada curta.
— Esperar mais? Eu esperei sete anos, Gael. Sete anos vendo você brincar de namorado dedicado enquanto eu era obrigada a ouvir que tudo fazia parte da estratégia da família.
Ele desviou o olhar.
Serena continuou:
— A única diferença entre nós duas é que eu sempre soube qual era o meu papel.
— E qual era?
— Ser a mulher que vai se casar com você.
Gael não respondeu.
Porque aquela ideia não lhe trazia qualquer felicidade.
A porta da biblioteca se abriu.
Donatella entrou apoiada em sua bengala de madeira escura.
— Serena, nos dê um momento.
A jovem saiu sem discutir.
Assim que ficaram sozinhos, a matriarca caminhou até a janela.
— Você foi um tolo.
Gael apertou os punhos.
— Eu disse que queria contar a verdade para Alina.
— E eu disse que isso não mudaria nada.
— A senhora não precisava humilhá-la daquele jeito.
Donatella virou-se lentamente.
— O erro foi seu. Você ultrapassou todos os limites do acordo. O combinado era um namoro discreto por alguns meses. Você transformou isso em sete anos.
Gael sentiu a culpa esmagá-lo.
— Eu me apaixonei.
— Sentimentos são um luxo que herdeiros do Grupo Armani não podem ter.
Ele bateu a mão sobre a mesa.
— Eu não vou me casar com Serena!
Donatella permaneceu impassível.
— Vai, sim.
— E se eu me recusar?
A resposta veio sem hesitação.
— Então você perderá tudo.
Gael riu, sem humor.
— O império vale tanto assim para a senhora?
A idosa caminhou até uma antiga estante de madeira e retirou uma fotografia emoldurada. Nela, estavam o marido já falecido e seus dois netos ainda crianças.
Gael.
E Caetano.
Ela observou a imagem por alguns segundos.
— Você sabe muito bem que o problema nunca foi o dinheiro.
Gael franziu a testa.
— Então é o quê?
Donatella devolveu a fotografia ao lugar.
— O testamento do seu avô.
O silêncio tomou conta da biblioteca.
— O que tem o testamento?
Ela fitou o neto.
— Seu avô deixou uma cláusula muito clara. O controle definitivo do Grupo Armani só pode ficar nas mãos de um herdeiro casado e capaz de garantir a continuidade da família.
Gael já conhecia aquela história, mas nunca lhe dera importância.
— E daí?
Donatella respirou fundo.
— Daí que você não é o único herdeiro.
Antes que ele pudesse responder, um dos empregados bateu à porta.
— Senhora... desculpe interromper.
— O que foi?
— Acabaram de ligar da Villa Bellagio.
A expressão da matriarca mudou.
— E?
O homem engoliu em seco.
— Disseram que o senhor Caetano aceitou voltar para casa.
Gael empalideceu.
Fazia três anos que o irmão mais velho havia desaparecido do convívio da família.
Três anos desde que abandonara a presidência do grupo e se isolara em uma propriedade distante, recusando qualquer contato.
Ele jurou que jamais pisaria novamente na mansão Armani.
Até aquela noite.
Donatella fechou os olhos por um instante.
Talvez o destino tivesse decidido mover suas peças.
E, se Caetano realmente voltasse... a presença de Alina Vilar na vida daquela família poderia se tornar muito mais importante do que qualquer um deles era capaz de imaginar.







