O sol começou a entrar implacável pelas frestas da cortina do quarto de luxo, desenhando linhas de luz pelo chão. Abri os olhos devagar, sentindo a minha cabeça latejar como se estivesse prestes a explodir — a conta por ter bebido além da conta na noite anterior tinha chegado. Meu corpo inteiro doía de um jeito novo, e a minha boca estava completamente seca.
Tentei me mover, mas senti um peso quente e firme sobre a minha cintura. O choque real veio quando virei o rosto para o lado. Ali, dormindo feito um anjo calmo — bem diferente do homem dominante e intenso da noite passada —, estava o asiático misterioso. A pele contrastava com os lençóis claros, e os cabelos pretos estavam totalmente bagunçados no travesseiro. Por um momento, eu o observei bem de perto, reparando em cada traço do seu rosto, e vi o quanto ele era lindo.
“Valeu a pena cada momento...”, pensei, sentindo um frio na barriga. “Mas eu acabei de assinar a minha sentença de morte.”
A realidade bateu com tudo. Eu tinha entregado a minha virgindade para um completo desconhecido na boate, a poucos dias do meu casamento forçado. E agora?
Prendendo a respiração, comecei a tirar o braço pesado do San-jin devagar de cima de mim. Ele se mexeu um pouco, mas continuou dormindo feito uma pedra. Saí da cama na ponta dos pés e coube a mim catar e vestir minhas roupas que estavam espalhadas pelo chão.
— Cadê o meu lençol? — murmurei para mim mesma, sussurrando bem baixinho enquanto procurava o tecido tradicional que eu usava.
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Finalmente o avistei, jogado bem em cima da cabeceira da cama. Dei um passo à frente e estiquei o braço para pegá-lo. Antes que meus dedos tocassem o tecido, uma mão firme e quente fechou-se ao redor do meu pulso. O San-jin segurou o meu braço.
— Achou mesmo que eu estava dormindo? — a voz dele soou grave, rouca pelo sono, me dando um susto enorme.
Eu olhei para éle, com o rosto queimando de vergonha, e desviei o olhar imediatamente, sem saber onde enfiar a cara. Sentindo a minha timidez, ele soltou o meu braço lentamente. San-jin permaneceu sentado na cama, apenas me observando colocar o resto das roupas rapidamente. O olhar dele estava fixo em cada movimento meu, compenetrado e indecifrável.
— Qual é o seu nome, por acaso? — San-jin perguntou, curioso.
Assim que terminei de ajustar o meu lençol pelo corpo, respirei fundo e olhei para ele uma última vez.
— Sou Alya — respondi, tentando manter a voz firme. — E nós nunca mais vamos nos ver. Mesmo se eu estiver viva.
Peguei a minha bolsa no chão com pressa e dei as costas, indo direto em direção à porta para sair daqueles aposentos. San-jin franziu o cenho, sem entender absolutamente nada do que eu quis dizer com aquelas palavras duras. Uma expressão de preocupação cruzou o rosto dele, e ele se inclinou para frente na cama.
— Você vai morrer? — ele questionou, a voz carregada de uma dúvida genuína.
Eu parei por um segundo com a mão na maçaneta. Sem olhar para trás, respondi:
— Talvez.
Abri a porta e saí direto para o corredor, batendo-a atrás de mim sem olhar para trás nenhuma vez. No quarto, San-jin permaneceu imóvel, encarando a porta de madeira, confuso e com o coração intrigado por aquela misteriosa garota que havia acabado de sumir de sua vida.
CIDADE DE TALEGAON DABHADE
A manhã havia chegado de vez, e a tensão entre Kiara e Asha só aumentava na vila. As duas caminhavam juntas, tentando disfarçar o pânico que estampava seus rostos.
— O que nós devemos fazer agora? — Kiara perguntou, nervosa e impaciente, andando de um lado para o outro. — Por que a Alya tomou essa decisão? O que deu na cabeça dela?
Asha segurou o braço da amiga, olhando firme nos olhos dela.
— Escute bem: nós não vamos abrir o bico. Mesmo se formos pressionadas pela família dela, vamos ficar caladas, ok? Ninguém pode saber.
De repente, as duas travaram. O senhor Girish Chandra estava caminhando pela vila, conversando seriamente com Tamasi. Kiara e Asha se encolheram rapidamente, escondendo-se atrás de uma estrutura para observar o movimento deles de longe.
— Meu Deus... eles devem estar procurando a gente para saber onde está a Alya — Kiara sussurrou, com o coração batendo na garganta.
Asha e Kiara saíram agachadas, esgueirando-se pelas sombras das paredes para que Tamasi não as visse de jeito nenhum. Elas correram em direção às portas da frente da vila para tentar encontrar a Alya. Mas, para o azar delas, o destino foi cruel: deram de cara com Ravan.
Ele cruzou os braços e abriu um sorriso debochado, medindo as duas de cima a baixo.
— Parece que as duas estão se escondendo de algo a essa hora da manhã, não é? — ele provocou.
Asha e Kiara se encolheram, segurando uma na mão da outra, completamente assustadas. O olhar de Ravan era puro veneno.
— Irmã... até você? — ele disse, cravando os olhos em Kiara. — Mas a pergunta que não quer calar é: cadê a Alya? O marido dela já está na vila esperando por ela. — Ele sorriu, vitorioso, sabendo do inferno que aquilo significava.
Asha olhou de lado para Kiara, sabendo o quanto a amiga tinha pavor do próprio irmão. Vendo que Kiara estava prestes a desabar, Asha tomou a frente e decidiu falar:
— Nós não sabemos! Você, como irmão dela, é quem deveria saber! — Asha disparou, tentando usar um tom firme e ameaçador para mascarar o medo.
Ravan mudou a expressão na hora. O deboche sumiu, dando lugar a uma fúria perigosa. Ele deu um passo à frente, encurtando a distância.
— Ela saiu com vocês ontem à noite! Me fala logo: cadê ela?! — ele deu um grito grave, com a voz carregada de ameaça.
Antes que elas pudessem responder, Ravan avançou e segurou o braço de Kiara com força. Sem o menor pudor, começou a arrastá-la em direção ao lugar onde Tamasi estava.
— Solta ela! Solta ela, você está machucando! — Asha foi atrás, desesperada, tentando puxar a amiga de volta, mas Ravan nem se importava.
Tamasi, Patel e o senhor Girish Chandra estavam tomando um chá na sala de casa, tentando manter as aparências. O clima era tenso, mas a megera tentava amenizar a situação.
— A Alya deve estar se arrumando, não se preocupem. Ela já deve descer — Tamasi comentou, tomando um gole do seu chá, tentando acalmar os homens.
De repente, o som de uma gritaria vinda do lado de fora cortou o silêncio da sala. A porta da frente foi empurrada com violência e Ravan entrou. Ele ainda segurava o braço de Kiara com força, enquanto Asha vinha logo atrás, tentando intervir de qualquer maneira. Todos na sala se levantaram imediatamente, olhando assustados para aquela cena lamentável.
— O que está acontecendo aqui? — Tamasi perguntou, franzindo o cenho.
— Elas não querem falar onde está a Alya! — Ravan disparou, jogando a acusação no ar com um sorriso maldoso. — Parece que ela não voltou para casa desde ontem à noite!
Tamasi cravou os olhos em Asha, que estava logo atrás de Ravan. A mulher deixou a sua xícara de chá de lado na mesma hora e marchou a passos firmes em direção às duas, com os olhos faiscando de puro ódio.
— Cadê a Alya? — Tamasi exigiu, a voz tremendo de raiva. — O que vocês fizeram com ela? Vocês planejaram a fuga dela para ela não se casar?!
Kiara, tremendo dos pés à cabeça, nervosa e com muito medo da reação da mãe, tentou gaguejar uma defesa:
— Mãe... não é nada disso! A Alya simplesmente desapareceu ontem à noite, nós não sabemos!
Tamasi ignorou a própria filha e apontou o dedo diretamente para Asha.
— Por isso eu não gosto de você, garota! E não gosto nem um pouco da sua família de merda! — Tamasi esbravejou, despejando todo o seu veneno. — O que você planejou? Vocês duas vão sofrer as consequências disso! Me diga com todas as palavras agora: CADÊ A ALYA?! — ela gritou, completamente descontrolada.
Ravan, assistindo ao espetáculo de camarote, deu um sorriso de deboche e cruzou os braços, adorando ver o circo pegar fogo. Asha engoliu em seco, mas se recusou a abrir a boca. Ela manteve a cabeça erguida, sustentando o olhar de puro ódio e desprezo para Tamasi.
Aquela audácia foi o estopim. Sem pensar duas vezes, Tamasi desferiu um tapa violento no rosto de Asha. O som do estalo ecoou pela sala inteira.
— Sua vaca! Me diz onde está a Alya! — berrou a mulher.
Kiara levou as mãos à boca, completamente assustadas e angustiada ao ver a amiga ser agredida daquele jeito dentro de sua própria casa. O rosto de Asha ardia e as lágrimas de raiva ameaavam cair, mas ela cerrou os punhos e permaneceu calada. Ela sabia perfeitamente que, se revidasse ou partisse para cima de Tamasi, todos os homens ali dentro bateriam nela sem dó. Ela estava encurralada pela lealdade à amiga.
De repente, a porta da sala se abriu novamente.
Eu passei pelo batente, encarando aquele caos generalizado. Meu semblante estava completamente sério, frio e distante.
Tamasi cravou os olhos em mim, e a sua ira pareceu triplicar instantaneamente. Ela deu alguns passos na minha direção, trêmula de ódio.
— Onde você estava?! — ela gritou, a voz ecoando pelas paredes. — Você dormiu fora da vila?! O seu noivo está aqui te esperando! Me diga agora: onde você estava?!
Eu a encarei de frente, sem demonstrar um único pingo de medo. Com uma calma cortante, respondi de forma simples:
— Eu estava com um homem