Mundo ficciónIniciar sesiónEu já tinha terminado de fazer todas as minhas tarefas e acabei cochilando no quarto, vencida pelo cansaço extremo. Quando acordei, ouvi um falatório vindo do andar de baixo, na sala. Reconheci a voz da Asha. Olhei para a tela do celular: já eram onze horas em ponto. Peguei rapidamente uma bolsa e fui em direção à porta para sair, mas, quando empurrei a maçaneta, ela nem se moveu. A minha porta não tinha tranca, mas haviam colocado algo muito pesado pelo lado de fora para me impedir de sair. Eu estava presa.
Na parte de baixo, a discussão pegava fogo. — Você trancou a Alya no quarto?! — Asha gritou, encarando Ravan com um olhar furioso. — Já são onze horas da manhã! Você sabe muito bem que em três dias o noivo da Alya precisa estar aqui. Por que diabos você está fazendo isso? Ravan soltou uma risada debochada, totalmente calmo. — Eu estou apenas me divertindo. Relaxa, ainda faltam dois dias caso vocês não saiam hoje. Aliás, por que ela tem que ir atrás dele? Ele é o ricaço, ele que deveria vir até ela. — Porque tudo aconteceu muito rápido! — Asha rebateu com raiva, tentando sustentar a mentira. — O casamento já está praticamente certo! Ravan riu de novo e colocou um pirulito na boca, cruzando os braços. — Essa história está muito mal contada... Asha o encarou com um olhar mortal e deu as costas, indo em direção à escada que subia para o meu quarto. Mas Ravan foi mais rápido e se colocou na frente dela, bloqueando o caminho. — Acha que vou deixar você entrar na minha casa assim? Os dois ficaram se encarando, a tensão quase palpável no ar, até que a porta da frente se abriu e três amigos de Ravan entraram na sala. Asha correu os olhos pelos recém-chegados e soltou um sorriso de puro desdém. — Chamou mais três bandidinhos agora, seu canalha? Um dos sujeitos, com uma postura marrenta, deu um passo à frente, irritado: — Quem essa vaca chamou de bandido, hein? Ravan olhou para Asha com deboche, sabendo que estava em total vantagem ali. — Parece que a Alya não vai sair com você hoje... — Ele apontou com a cabeça para o teto. Lá de cima, eu ouvia os estalos da risada deles. Desesperada, comecei a esmurrar a madeira da porta com força, gritando com toda a voz que me restava: — Me tira daqui agora! Ravan! Me solta! Ravan olhou para Asha, rindo da minha situação. — Vai lá ver ela, vai. Tenta a sorte. Sem opções e em menor número, Asha saiu da sala pisando fundo para fora da casa. Ravan e seus amigos foram atrás, rindo alto da cara dela, sabendo que meu irmão estava fazendo aquilo de propósito para me prejudicar. Desorientada e com o tempo correndo contra nós, Asha começou a andar apressada pelas ruas de terra de Talegaon atrás de uma solução. Foi quando ela cruzou com Kabir. — Asha? Por que você está tão pálida assim? — Kabir perguntou, franzindo o cenho ao ver o estado dela. Asha segurou a mão dele com força, os dedos tremendo de puro nervoso. — Hoje já conta como o primeiro dia, Kabir! Eu preciso ir para Pune com a Alya agora, mas o irmão dela a trancou no quarto e não quer deixar ela sair. Eu preciso da sua ajuda! Se passarem os três dias e ela não encontrar o noivo, a Tamasi vai acabar com a vida dela. Aquela mulher é cruel, ela vai matá-la! Kabir segurou os ombros de Asha, tentando acalmá-la. — Calma. Vai ficar tudo bem, eu vou resolver isso. Enquanto isso, no meu quarto, a angústia me sufocava. O meu celular estava nas mãos de Ravan lá embaixo; ele queria a minha ruína a qualquer custo, e atrasar a minha ida a Pune era a forma perfeita de me ver morta pelas mãos da Tamasi. De repente, escutei um barulho arrastado vindo do corredor. Alguém estava puxando os móveis pesados que bloqueavam a minha porta. A chave não girou, mas a madeira finalmente cedeu e a porta se abriu. Era ele. — Irmãzinha querida... — Ravan disse com um sorriso cínico no rosto. Ele se abaixou e colocou um prato de comida diretamente no chão, como se estivesse alimentando um animal. O ódio ferveu no meu sangue. Pulei da cama na mesma hora e avancei contra ele, parando a centímetros do seu rosto. — Você vai mesmo me impedir de ir ver o homem que vai pagar as dívidas dessa casa e encher o seu bolso de dinheiro?! — perguntei, a voz tremendo de fúria. — Se ele desistir do dote por sua culpa, saiba que a Tamasi vai arrancar a sua cabeça! Saiba bem disso! Antes que ele pudesse responder, olhei para o prato no chão e dei um chute com força, jogando a comida contra a parede. O sorriso de Ravan sumiu instantaneamente. Ele me encarou com um olhar mortal, os olhos faiscando de ódio, mas não me bateu. Em vez disso, ele deu um passo para trás, puxou a porta com violência e a bateu, deixando-me na escuridão do quarto novamente. Do outro lado da rua, Asha e Kabir observavam o movimento quando viram Tamasi passando. Ela não estava sozinha; vinha acompanhada de duas senhoras da vizinhança e uma adolescente. Caminhavam em passos lentos, conversando alto. Asha tocou no braço de Kabir e sussurrou: — Aquelas não são as mulheres que moram no fim da rua? Parece que estão indo direto para a casa da Alya... Curiosos e alertas, os dois começaram a andar um pouco mais atrás, seguindo o grupo de longe. Na frente da casa, Tamasi abriu a porta ostentando um sorriso cheio de falsa gentileza para as vizinhas. — Podem entrar, fiquem à vontade! Sejam muito bem-vindas. A casa está um brinco, passei a manhã inteira limpando tudo — mentiu descaradamente, vangloriando-se do trabalho duro que eu havia feito. — Nossa, Tamasi, que sala linda e bem organizada! — elogiou uma das senhoras, entrando. As vizinhas se acomodaram nos sofás da sala, olhando em volta e admirando cada detalhe. Enquanto isso, no andar de cima, Ravan terminava de trancar a minha porta e descia as escadas, dando de cara com as visitas inesperadas. — Nossa, Ravan! Como você cresceu, está um rapaz! — comentou a primeira senhora. Tamasi se aproximou dele a passos rápidos, o sorriso vacilando por um segundo. — Cadê a Alya? — sussurrou entre dentes. Ravan engoliu em seco, subitamente sem graça diante das testemunhas. — Eu... eu estava apenas me divertindo um pouco com ela. Antes que Tamasi pudesse retrucar, o som violento de socos contra a madeira ecoou do andar de cima, abafando as conversas na sala. Era eu, esmurrando a porta do quarto. — Me tira daqui agora! Ravan! Abre essa porta! — minha voz abafada ecoou por toda a casa. O rosto de Tamasi esticou em uma careta de puro constrangimento. Ela olhou para o filho com os olhos faiscando de fúria e sussurrou, furiosa: — O que você fez, seu idiota? Solta ela agora! Ravan forçou um risinho sem graça para as visitas e subiu as escadas correndo para liberar a passagem. — Que barulho é esse? — perguntou a segunda senhora, desconfiada. — Tem alguém preso lá em cima? — Claro que não! — Tamasi soltou uma risada nasalada, forçando simpatia. — Deve ser a Alya mexendo nas caixas dela. — Ela se virou para a escada e gritou, mudando o tom de voz para parecer carinhosa: — Ravan, mande a Alya descer para a sala, por favor! Livre do meu cárcere, desci os degraus tentando controlar a respiração e a raiva que me consumia. Quando entrei na sala, forcei o melhor sorriso que consegui para cumprimentar as vizinhas, mantendo a postura gentil. Tamasi me mediu de cima a baixo antes de disparar, em tom de ordem disfarçado de pedido: — Querida, vá até a cozinha e prepare um chá para cada uma de nós. E traga aqueles pães frescos que estão lá. — Claro — respondi, caminhando em direção à cozinha. Enquanto eu preparava as coisas, as vozes na sala continuavam altas o suficiente para que eu ouvisse cada palavra. — A Alya virou uma moça muito linda — comentou a segunda senhora. — Depois de toda aquela confusão na rua, parece que vocês finalmente fizeram as pazes, não é? Tamasi suspirou, encenando uma emoção que nunca possuiu. — Sim... Eu amo muito aquela menina, como se fosse a minha própria filha. Na cozinha, eu estava cortando os pães. Quando escutei aquela frase, apertei a faca com tanta força que os meus nós dos dedos ficaram brancos. O ódio subiu pelo meu pescoço. — Eu realmente espero que ela se case e seja feliz — disse a primeira senhora. — Ora, por favor! Aquela garota é uma ingrata — rebateu a outra vizinha, com desdém. — A Tamasi arrumou um casamento excelente para ela com o senhor Ghania, e ela vai e se entrega para qualquer um na rua? Espero que seja verdade que esse estrangeiro é rico, porque se for mentira... O som de risadinhas venenosas ecoou pela sala. Arrumei as xícaras de chá e os pães na bandeja, respirei fundo e voltei para o cômodo. Mantendo o sorriso frio esculpido no rosto ferido, olhei fixamente nos olhos de cada uma delas enquanto servia. — E é verdade. Ele é absurdamente rico — disparei, com a voz firme. Terminei de servir as visitas e dei as costas, indo em direção à porta de saída para finalmente encontrar a Asha. Mas, antes que meus pés cruzassem a soleira, Tamasi não aguentou ver a minha cabeça erguida e destilou o seu pior veneno para as mulheres: — Ela é igualzinha à falecida mãe... Uma mulher sem valor. Uma qualquer. As vizinhas soltaram risadinhas abafadas, concordando. Meu corpo inteiro travou. O ar faltou nos meus pulmões por um segundo, e o ódio que eu vinha guardando há anos explodiu dentro do meu peito. Eu podia aguentar que me trancassem, que me batessem e que me vendesse... mas por essa eu não deixaria passar






