3

MATEO

O salão da mansão Moretti está lotado quando chego, luzes douradas refletindo em taças de cristal, música ao fundo baixa o suficiente pra não atrapalhar as conversas de gente rica fingindo se importar umas com as outras.

Ajusto o paletó, sinto o peso do relógio no pulso, e entro como quem entra num campo de batalha, postura ereta, olhar frio, pronto pra aguentar essa merda de noite.

Meu pai me apresenta a alguns sócios logo de cara, cada um exalando um perfume caro demais e um ego maior ainda, competindo silenciosamente por quem tem o Rolex mais novo, o carro mais absurdo estacionado lá fora. Eu só assinto, aperto mãos, digo o mínimo necessário.

Patético. Isso é o que penso, revirando os olhos assim que alguém se distrai.

Inferno, não queria estar aqui, mas preciso fazer isso, se não, meu pai não iria largar do meu pé.

Pego uma taça da bandeja que passa, viro de uma vez, pego outra. O álcool queima na garganta, mas não o suficiente pra apagar o tédio de estar aqui.

— Calma, filho. — Meu pai segura meu braço, olhar de aviso. — Não quero que fique bêbado na frente de todo mundo.

— Vou falar com uns empresários — respondo seco, me soltando.

E é isso que faço. Um por um, aliados de negócios do meu pai me arrastam pra perto de suas filhas, cada uma mais arrumada que a outra, sorrisos ensaiados, decotes calculados. Todos sabem exatamente o que estão fazendo, meu pai é dono de uma das empresas de segurança mais respeitadas da cidade, além do hotel de luxo na Itália, e eu sou o herdeiro disso tudo. Pra eles, eu sou prêmio de loteria, e as filhas são o bilhete.

Tento ser simpático. Difícil pra caralho, mas tento. Sorrio quando preciso, faço perguntas educadas, escuto respostas que esqueço no segundo seguinte. Todas bonitas, impecáveis, treinadas pra esse tipo de jogo social.

E nada. Meu lobo continua mudo, indiferente, como se nenhuma delas existisse de verdade.

Isso me irrita mais do que deveria.

Nenhuma delas é minha parceria. Pronto, posso ir embora daqui.

Depois de mais uma rodada de sorrisos falsos, invento desculpa de trabalho pendente e vou até meu pai, avisando que já fiz minha parte, que cumpri o que ele pediu. Ele assente, satisfeito o suficiente, e eu me afasto antes que outro empresário me empurre outra filha na cara.

Pego outra taça, encosto perto de uma das janelas, decidido a ficar só mais alguns minutos antes de inventar uma saída definitiva.

É aí que eu a vejo.

Cabelos loiros escuros, ondulados, caindo sobre os ombros nus. Vestido branco simples, mas que veste o corpo dela de um jeito que nenhum vestido de grife conseguiu fazer com nenhuma outra mulher ali. Ela está conversando com alguém, rindo de algo, e o som daquela risada atravessa o salão inteiro e me acerta em cheio no peito.

Que porra é essa que estou sentindo? Não consigo desviar meus olhos.

Meu lobo, quieto a noite inteira, de repente ruge por dentro, um puxão físico que nunca senti antes, tipo se meu corpo inteiro decidisse ignorar meu comando e caminhar sozinho até ela. E é exatamente isso que acontece, antes de processar direito, já estou atravessando o salão, taça ainda na mão, olhos fixos naquela mulher que nem sei o nome.

Chego perto, e ela percebe minha presença, se virando pra me encarar. Olhos verdes. Intensos, questionadores, nada tímidos.

— Esse vestido realça seus olhos — falo, sem nem pensar direito no que estou dizendo. Nunca flerto assim, nunca preciso de flerte pra nada, mas as palavras saem antes que eu consiga filtrar.

Ela ri, meio sem graça, meio debochada.

— Isso é um elogio ou uma cantada mal ensaiada? — Ela me encara, olhos grandes e brilhantes demais.

— As duas coisas, talvez.

Ela me olha de cima a baixo, avaliando, e algo na postura dela, direta, sem papas na língua, me prende ainda mais. Ela não é como aquelas outras mulheres, não é mesmo.

— Sou filho do dono que organizou essa festa — digo, testando a reação dela.

— Ah. — Ela ergue uma sobrancelha, mais interessada agora, mas sem exagero, sem aquela postura calculista que vi a noite toda. — Isso explica o terno caro.

— E o carro lá fora — completo, e ela ri de novo, dessa vez sem sem-graça nenhum.

— Confesso que quase não vim — ela diz, ainda com aquele sorriso torto no rosto. — Mas acho que teria me arrependido. Essa noite tá ficando mais interessante do que eu esperava.

Alguma coisa passa entre nós dois nesse momento, algo que eu não sei nomear, mas que sinto na pele, quase físico, elétrico. O salão inteiro parece sumir ao redor, as vozes, a música, tudo vira ruído distante. Só existe ela, o cheiro dela chegando até mim de um jeito que eu não consigo explicar racionalmente, doce, mas com algo selvagem por baixo, algo que meu lobo reconhece antes de mim.

Eu me aproximo mais, curioso, possessivo de um jeito que não faz sentido pra alguém que acabei de conhecer.

Ela também sente. Vejo isso nos olhos dela, no jeito que ela hesita antes de recuar um passo, como se estivesse tentando entender o próprio corpo reagindo daquele jeito. Mas ela não sabe o que eu sou, não sabe que essa atração que sente não é só química, é reconhecimento, é instinto puro de duas naturezas se encontrando.

Passamos o resto da noite conversando, só nós dois, ignorando o resto da festa completamente. Ela é afiada, responde tudo com uma segurança que a maioria das mulheres ali não tem, não finge interesse em nada que eu diga só pra me agradar. Isso, de um jeito estranho, me atrai ainda mais.

Quando o salão começa a esvaziar um pouco, me aproximo dela, voz baixa.

— Vamos conversar em um lugar mais privado?

Eu quero sentir a pele dela, ah como quero, quero a foder, e mesmo que não devesse, eu não consigo dizer não a isso. Eu preciso urgentemente sentir essa mulher.

Ela hesita só um segundo antes de assentir.

Seguro sua cintura antes de sairmos, um gesto possessivo que nem penso antes de fazer, puxando ela mais perto de mim. Nossos rostos ficam a centímetros de distância, e eu sorrio, sedutor, sentindo o coração dela acelerar, mesmo que ela tente disfarçar.

— Vem comigo — falo, baixo, só pra ela ouvir.

E ela vem, com seu sorriso que me deixa maluco de tesao.

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